Carlos Somonte/Netflix
Carlos Somonte/Netflix

A ascensão de 'Roma' e o ocaso de Lady Gaga

Filme mexicano lidera indicações do Oscar 2019 enquanto cantora continua cantora

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2019 | 14h57

Caro leitor,

Em nossa viagem rumo à cerimônia de entrega do Oscar 2019, no dia 24 de fevereiro, o caminho agora está mais iluminado - com a divulgação dos candidatos das 24 categorias na terça-feira, 22, já é possível saber quem está no páreo. Você deve se lembrar que iniciamos nossa jornada um tanto no escuro, com a definição dos vencedores do Globo de Ouro. A festa promovida pelos correspondentes estrangeiros que trabalham em Hollywood sempre é divertida, regada a boa bebida e com discursos inesquecíveis - Christian Bale, por exemplo, disse ter se consultado com o diabo para viver (com maestria, diga-se) Dick Cheney, o poderoso e, por que não dizer?, diabólico vice-presidente de George W. Bush no longa Vice.

O problema é que o Globo de Ouro não serve como grande sinalizador para os vencedores do Oscar, ainda que, neste ano, a mira pareceu mais precisa. Em seguida, vieram os prêmios de críticos americanos até finalmente chegarmos ao primeiro indício do caminho certo: o prêmio conferido pelos produtores de Hollywood. Os figurões elegeram Green Book: O Guia que, até então, ocupava uma posição mais discreta na lista de preferências - ganhou um certo destaque no Globo de Ouro, mas sem empolgar. Pois, de um dia para o outro a história do motorista bronco que passa a entender a difícil situação de ser negro nos Estados Unidos do início do século passado, mesmo tendo o talento musical reconhecido, ganhou pontos e mais pontos a ponto (desculpe o trocadilho...) de agora figurar no topo.

Bom, nesse trajeto todo, quem mais vinha saltando obstáculos e correndo com a velocidade de Usain Bolt dos bons tempos era Roma, do mexicano Alfonso Cuárón. De queridinho da crítica, ele se tornou também o amadinho da Academia ao receber 10 indicações para o Oscar, empatado com A Favorita, dirigido também por um estrangeiro, um grego, o talentoso e amalucado Yorgos Lanthimos. 10 indicações, entre elas a de melhor filme, o que torna Roma o primeiro longa em língua espanhola a chegar nesse panteão.

O que significa isso? Uma das várias explicações tem cunho político, com a Academia passando um recado para Donald Trump e sua obsessão em construir um muro que separe os Estados Unidos do México. E Alfonso Cuarón não deixou por menos ao afirmar que a diversidade só enriquece a arte.

A chuva de indicações para Roma foi também festejada pela Netflix, produtora do filme - depois de esnobada em Cannes, mas agraciada com o principal prêmio no Festival de Veneza do ano passado, a líder do streaming tem a chance de receber o diploma como uma produtora de respeito.

Boa surpresa também foi a indicação de Yalitza Aparicio como melhor atriz. Você sabia que ela não era profissional, dava aula em uma escola e aceitou o desafio por estar desempregada? Foi o que contou para nossa reportagem. E seu vídeo, em que não esconde as lágrimas ao receber a notícia da indicação, viralizou.

A Academia de Hollywood também acertou ao nomear Pantera Negra entre os concorrentes a melhor filme. Afinal, foi um longa que promoveu uma divisão de águas no cinema de entretenimento, tornando-se ainda um importante divulgador de ideias igualitárias. Se ganhar a estatueta de melhor filme, Pantera Negra vai se tornar definitivamente um marco.

Mas se trata de uma batalha difícil, lembrando a preferência dos produtores por Green Book. Quem realmente pode estar com uma mão na estatueta é Glenn Close, candidata a melhor atriz por A Esposa. É sua sétima indicação e Glenn é hoje a pessoa viva (entre os artistas da interpretação) a ser finalista sem nunca ter ganhado o prêmio. Com isso, ela derruba a excepcional interpretação de Olivia Colman, que vive a perturbada rainha de A Favorita. Seus olhares, sua entonação de voz, seu delicado trabalho mereciam a estatueta. Mas, nas mãos de Glenn, também estarão bem amparadas.

E quem vive o ocaso da precoce carreira de atriz é Lady Gaga. Quando estreou Nasce uma Estrela, no ano passado, o título parecia perfeito para ela, com muitas pessoas já arriscando dizer que o Oscar de atriz era dela. A temporada de prêmios começou e Gaga só subia ao palco para agradecer pela escolha da canção Shallow como melhor música original. Prêmio, aliás, merecido quando se avalia a qualidade da obra, mas aparentemente termina aí o talento de Gaga.

Bom, a certeza mesmo disso tudo só teremos nesse domingo, 27, quando o sindicato dos atores divulga seus eleitos. Habitualmente, quem vence aí já se credencia para arrematar o Oscar. Com isso, mais uma luz vai iluminar nosso caminho até a cerimônia do Oscar.

 

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