Carlos Somonte
Carlos Somonte

Análise: Oscar 2019 tem o filme 'Roma' como favorito disparado

Longa de Alfonso Cuarón é a grande novidade desse Oscar, produzido por uma plataforma de streaming e falado em espanhol e mixteca

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2019 | 12h56

A grande novidade do Oscar 2019 é sem dúvida Roma, produzido por uma plataforma de streaming e falado em espanhol e mixteca. O longa memorialístico de Alfonso Cuarón foi indicado em dez categorias, entre as quais algumas das mais fortes - melhor filme, direção (Cuarón), roteiro (idem) e mais atriz (Yalitza Aparício) e atriz coadjuvante (Marina de Tavira). Concorre também na categoria filme em língua estrangeira, na qual é favorito. Veremos dia 24 de fevereiro quantas dessas indicações se transformarão em estatuetas. Aconteça o que acontecer, o longa mexicano já fez história.

“Especialistas” dizem que Roma é favorito em algumas dessas categorias, mas não em outras. Deve levar o Oscar como filme estrangeiro e direção. Já a premiação das atrizes seria uma surpresa. Pode ganhar melhor filme? Poder pode, mas não é provável. O favorito ao Oscar principal, que já foi Nasce uma Estrela, depois Bohemian Rhapsody, passou a ser Green Book - O Guia, depois da premiação do Sindicato dos Produtores, um dos indicativos seguros dos rumos do Oscar.

A verdade é que os oito selecionados para melhor filme são muito bons. Além dos três já citados há o belo drama histórico de Yorgos Lanthimos, A Favorita, um Spike Lee cheio de tensão, energia e crítica social, Infiltrado na Klan, e Vice, uma comédia política de humor negro, de Adam McKay, que penetra nos bastidores do poder norte-americano com uma desfaçatez como há muito não se via.

A outra novidade deste Oscar é o grande número de indicações de Pantera Negra, inclusive na categoria principal, de melhor filme, o que é inédito para uma saga de super-heróis. Pantera tem elenco de atores e atrizes black, o que em época de lutas identitárias deve ter turbinado seu grande número de indicações. O provável é que emplaque mais estatuetas nos quesitos técnicos. Mas o fato de haver sido indicado a melhor filme já o coloca num escaninho à parte na história de Hollywood, que adora super-heróis mas raramente os leva a sério.

Outra categoria que vale análise à parte é a de filme estrangeiro, para nós muito importante, porque raramente chegamos à final e tornou-se um sonho de consumo do cinema brasileiro. Também está bem forte este ano. O favorito disparado, como já disse, é Roma, o filme do ano para muitos críticos, inclusive para este que aqui escreve.

Mas seus concorrentes são muito fortes, a começar por Assunto de Família, de Kore-Eda, sobre um Japão a que não estamos acostumados a olhar, com insuspeitada pobreza e uma nova composição de família. Filme surpreendente. No quesito humanista, poucos bateriam Cafarnaum, da libanesa Nadine Labaki, sobre a história do menino de rua que processa os pais por havê-lo colocado no mundo. Guerra Fria, do polonês Pawel Pawlikowski, conta uma bela história de amor através de um tempo conturbado. Nunca Deixe de Lembrar, do alemão Florian Henckel (de A Vida dos Outros), é a história de um artista que escapa da Alemanha Oriental para a Ocidental e vive atormentado por dramas do passado. Como se vê, assim como o polonês Guerra Fria, é ambientado no período da luta mortal entre as superpotências. Qualquer um deles poderia vencer. Mas Roma está um degrau acima. Ou vários.

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