ALFONSO CUARÓN
ALFONSO CUARÓN

‘Roma’, de Alfonso Cuarón, chega ao streaming e terá sessões gratuitas na cidade

Atriz do filme abre ao Estado o método do diretor

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2018 | 03h00

Alfonso Cuarón trabalhou duramente para finalizar Roma a tempo de participar da seleção de Cannes, em maio. O festival, escaldado pelos problemas com a Netflix – no ano passado, a empresa não quis exibir os filmes selecionados nos cinemas –, recusou Roma e o filme foi para Veneza. Venceu o Leão de Ouro – mas Cuarón garantiu o lançamento também em salas, o que lhe permite ser selecionado para o Globo de Ouro e, muito possivelmente, concorrer ao Oscar, que já venceu por Gravidade, em 2014.

Roma chega, enfim, à Netflix nesta sexta-feira, 14. E terá sessão diária, gratuita, até 26, no Kinoplex Itaim – os ingressos estarão disponíveis no site . Pode ser nostalgia de velho cinéfilo, mas Roma é para ser visto em salas, a menos que você tenha o melhor home theater do mundo. Alfonso Cuarón filmou com uma Alexa Digital em 65 mm, captou o som no avançado sistema Dolby Atmos. O resultado é o esplendor da imagem e do som, como há muito tempo não se via em preto e branco. Cuarón tem sido um cineasta do mundo, mas com seu novo filme voltou ao México. O título não tem nada a ver com a capital italiana. Evoca a Colônia Roma, um bairro de classe média da Cidade do México em que ele passou a infância. Roma é sua homenagem às mulheres que o criaram.

O filme, não apenas pessoal, mas com muito de autobiográfico, recria a vida da família Cuarón no começo dos anos 1970 pelo olhar da doméstica, Cléo, interpretada pela não profissional Yalitza Aparicio, de 24 anos. E assim como o olhar de Cléo filtra a vida cotidiana dos Cuaróns, Yalitza, numa entrevista por telefone, também é o filtro pelo qual o Estado entra na intimidade do método de Alfonso. Professora numa escola de Tlaxiaco de Oaxaca, ela se pergunta, até hoje, por que foi atraída pelo anúncio de que Cuarón buscava uma atriz nativa para o papel de protagonista num filme. “Para ser honesta, o nome dele não significava nada para mim, porque não havia visto seus filmes. E também havia um elemento de insegurança e de medo. A gente ouve tantas histórias de mulheres e jovens atraídos para o tráfico por expedientes diversos. Fomos no último dia, minha mãe e eu, ela como medida de segurança. Isso foi há dois anos e logo veio a confirmação. Alfonso queria saber da minha disponibilidade. Era total, porque estava desempregada e precisava de trabalho. Foi assim que começou. Hoje, eu sei que ele ganhou minha confiança, a de minha família, e virou um amigo.”

Ela conheceu Libo, a doméstica (real) que inspirou Cléo? “Sim, e para mim foi um choque, porque achei que éramos muito diferentes. Pensei – ‘Por que ele me escolheu?’ Não me via como Libo, mas ela disse que era como eu, quando jovem. E eu terminei me convertendo nessa mulher. Minha mãe foi doméstica. Embora formada professora, também trabalhei em casas de família. Sei o que é criar os filhos dos outros, apegar-se e como é difícil desapegar.” A mais inesperada das revelações – Cuarón nunca lhe deu um roteiro para ler. “Cada dia era um dia.” As locações eram todas autênticas. “Uma casa enorme, que funcionava nos mínimos detalhes. Isso facilitou muito as coisas para mim, que não era, agora sou, atriz profissional. Fiz muito a limpeza daquela casa”, e ela ri uma risada gostosa, do outro lado da linha.

O filme reconstitui um massacre ocorrido na época, porque Cuarón, por meio da história familiar, conta a história do México. “Foi muito impressionante estar no meio daquela reconstituição.” Alguma cena mais emocionante? “A do parto. Como não tinha roteiro, não sabia o que ia acontecer. Terminei a cena chorando e Alfonso, emocionado, me abraçou e chorou junto.” A cena do salvamento no mar? “Foi a mais difícil. Embora eles dissessem que não era fundo e havia salva-vidas e mergulhadores ao redor, eles sumiam e eu ficava no meio daquela água toda. Era uma tomada única e a câmera se movia num espaço determinado, que não podíamos ultrapassar. Morria de medo, mas acho que ajudou.” Quem é Cléo? “Em Veneza, em Toronto e no Festival de Nova York, a discussão era se o filme é feminista. Não creio. Pai e mãe separam-se, e Alfonso recria o passado a partir de suas lembranças. Cléo é forte, isso, sim. Conheço muitas mulheres que criaram os filhos sozinhas, muitos homens também. Pensar que Libo ajudou a impregnar Alfonso com uma sensibilidade especial me ajudou muito na criação de Cléo.”

Uma longa história em Hollywood

Antes das vitórias recentes no Oscar, mexicanos já estavam presentes na indústria norte-americana

Pode ser pela proximidade – México e EUA compartilham a fronteira que Donald Trump, desde a sua campanha para presidente, prometeu dividir com um muro, pelo qual ele diz agora que os mexicanos terão de pagar, “de uma forma ou outra”. A proximidade favoreceu que muitos diretores do México tenham feito sua formação em estúdios e produções dos EUA. Emilio Fernández foi ator de westerns. Inversamente, o mestre John Ford filmou no México, com o grande Gabriel Figueroa.

Já os mexicanos no Oscar constituem um fenômeno mais recente. Alfonso Cuarón venceu a estatueta de direção por Gravidade, em 2014. Antes disso, fizera em Hollywood Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, quase sempre considerado o momento de virada da série. Os filmes ganharam asas – magia –, ficaram cada vez melhores, depois. Em 2015 e 2016, Alejandro González Iñárritu venceu os prêmios de direção por Birdman e O Regresso, e com o primeiro ganhou também o Oscar de melhor filme. Após o breve hiato de 2017, quando Damien Chazelle ganhou o prêmio de direção por La La Land – Cantando Estações, mais um mexicano, Guillermo Del Toro venceu nas categorias de filme e direção este ano, com A Forma da Água. Quatro vitórias de mexicanos em cinco anos. Cuarón leva jeito de repetir em 2019. Está no Globo de Ouro e Yalitza Aparicio acaba de ser indicada para melhor atriz no Critcs’ Choice.

 

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