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Oscar 2019: 'Shallow' é a canção original perfeita para um filme pop

Música que tem Lady Gaga como co-autora prova como se conduz uma trilha sonora vencedora que dialogue com o roteiro e emocione; a música foi indicada ao Oscar 2019 como melhor canção original

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

22 Janeiro 2019 | 13h00

Shallow, a canção que ficará mesmo quando o filme se for, é exemplo de que estrelas hollywoodianas não nascem brilhando, de que são construídas, buriladas e dirigidas com talento e estratégia. Shallow é a canção pop perfeita. Sua letra ajuda o roteiro de um filme em que os personagens de Bradley Cooper, um roqueiro das antigas, e Lady Gaga, uma garçonete de brilho musical transbordante, fortalecem sua paixão exatamente sobre um palco. A forma como a cena é conduzida pelas câmeras posicionadas muito próximas aos artistas faz os corações dispararem. Ally (Lady Gaga) cria coragem e corre para o palco a fim de mostrar tudo o que sabe para o homem que está mudando sua vida, Jackson Maine (Cooper). Ele mesmo não acredita no que vê. A música foi indicada ao Oscar 2019 como melhor canção original.

Assim, diz a canção que Jackson começa diante de duas mil pessoas (um público de fãs de Gaga devidamente alugado para as cenas) no Greek Theater, de Los Angeles: “Me diga uma coisa, garota / Você está feliz neste mundo moderno? / Ou você precisa de mais? / Existe algo mais que você está procurando? / Estou caindo / Em todos os bons momentos / Eu me vejo almejando uma mudança / E nos momentos ruins, eu tenho medo de mim...”

Quando a personagem de Gaga cria coragem e corre para o microfone, é a parte da resposta: “Me diga uma coisa, garoto / Você não está cansado de tentar preencher esse vazio? / Ou você precisa de mais? / Não é difícil manter toda essa energia? / Estou caindo / Em todos os bons momentos / Eu me vejo almejando uma mudança / E nos momentos ruins, eu tenho medo de mim mesma.”

Shallow foi escrita por Lady Gaga, Mark Ronson, Anthony Rossomando e Andrew Wyatt, ganhando pós produção de Benjamin Rice e da própria Lady Gaga. Mas um nome aparece e muda o caminho que tudo vinha tomando. Lukas Nelson, filho do gigante de botas Willie Nelson, levou para os estúdios os rapazes do grupo Promise of the Real (POTR), uma banda de country rock que às vezes vira soul (como na ótima Set me Down On a Clown). Enquanto todo o time de compositores garantiu o corpo de Shallow, Lukas trouxe a alma. Seu prêmio, talvez o maior até aqui, foi aparecer no próprio filme como a banda de apoio do personagem Jackson Maine. Mentira. O POTR é atualmente, e desde 2015, a banda de apoio de Neil Young em palcos e estúdios, algo que equivale a 23 ou 24 trilhas sonoras como esta, por mais vencedoras que sejam.

Há declarações de que houve inspirações em Eric Clapton para que o início fosse como foi, apenas com a voz e o violão de cordas de aço sendo puxadas e depois arpejadas. Engraçado Clapton sendo lembrado por suas baladas, não por seus solos. Há um sofrimento verdadeiro ali que o filme abraça como seu e a dica do que vai acontecer no final. Um capricho colocado nas entrelinhas. O arranjo cria uma dinâmica que vai enchendo a atmosfera para que a plateia exploda em aplausos antes mesmo que tudo termine.

Shallow carrega dentro de si Nasce Uma Estrela, e não o contrário. Mas ainda não criaram no Oscar o prêmio de "canção melhor do que o próprio filme". E olha que Nasce uma Estrela é um grande filme.

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