Amanda Perobelli
Amanda Perobelli

Marcio Aurelio faz do palco um cálculo de sensibilidade

Em cartaz com 'Medeamaterial', diretor relembra carreira e deve estrear com Marilena Ansaldi

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

15 Janeiro 2019 | 10h29

“Acho que você deveria ler Lewis Carroll, é um mestre matemático. Quem sabe não descobre suas Alices.” Esse foi um dos conselhos mais valiosos que o diretor Marcio Aurelio poderia receber. No início dos anos 1970, ele já tinha abandonado um futuro na biblioteconomia e estava insatisfeito com o trabalho no metrô. Nascido em Piraju, em 1984, o palco já despertava a imaginação do jovem e o conselho de seu antigo chefe tratou de aproximá-lo da realidade que buscava. 

Em cartaz com o espetáculo Medeamaterial, no Sesc Pinheiros, Aurelio não é apenas um diretor de teatro, mas um mestre e estudioso das artes do palco, que maneja suas ferramentas com sensibilidade, mas também pela lógica dos números. Como alguém que lê uma equação matemática, ele explica ao Estado, os primeiros trechos do texto Heiner Müller, durante o ensaio. 

E é assim desde sempre. Sua estreia profissional, em 1974, foi com o texto Perseguição ou O Longo Caminho que Vai de Zero a Ene, do dramaturgo Timochenco Wehbi. “Ele fez uma leitura e todos acharam o texto estranho. Levei o material pra casa e vi que, tudo fazia sentido se eu partisse para a progressão aritmética.” Após explicar sua visão ao autor, Wehbi não disse nada mais além de “quando você quer estrear?”

A montagem fez temporada em Porto Alegre, e ficou dois meses em cartaz. “Voltamos para São Paulo para uma temporada e todos achavam que eu era de Porto Alegre.” Depois da peça Aurelio deixou o país e foi estudar comunicação nos estúdios da Rai, na Itália. Logo recebeu um convite para encenar um texto brasileiro no Teatro Del Pavone, em Roma. “Escolhi Doroteia, de Nelson Rodrigues, por ter essa coisa de voltar para ao útero da mãe. Achei que se relacionava com a cultura italiana e a tradução ficou boa, mas desisti.” 

Ainda na Europa, ele recebeu uma ligação do amigo e autor Alcides Nogueira: “Vou te levar uma peça. Quero que você leia.” No Brasil, o diretor ficou um ano sem trabalhar, sem dinheiro para nada, ele conta, até a estreia de A Farsa da Noiva Bombardeada (1977). “Foi um sucesso... no circuito underground. Porque antes havia público para isso em São Paulo. É lá que estavam o cenógrafo Flávio Império, o diretor Paulo Herculano, o diretor Naum Alves de Souza.”

Ele lembra que última cena da peça ganhou contribuição de Reginaldo di Polly, integrante do lendário Dzi Croquetes. “No final, o personagem de Brecht recebia um telegrama informando que a cidade seria invadida. E todos começavam a dançar.”

Essa dança o levaria mais tarde, a Weimar, na Alemanha, como diretor cênico de novo espetáculo do bailarino coreógrafo Ismael Ivo, O Beijo no Asfalto (Kuss im Rinnstein), em 1997. “Trabalhamos com diferentes idiomas, o que dava uma mistura à cena. Um dos críticos locais escreveu que a peça era exemplo de como aconteciam tragédias motivadas pela mídia, como a morte de Lady Di, por exemplo.”

A experiência e intuição mobilizaram a criação do grupo Razões Inversas, fundado em 1990 com jovens atores oriundos do curso de teatro da Unicamp, onde Aurelio deu aula por mais de 20 anos. O nome? Inspiração da matemática. “São as razões diferentes que levam um denominador comum”, explica. “Nosso desejo é montar textos clássicos, com uma roupagem contemporânea. Não como modismo.” Em 2015, o grupo comemorou com o texto Filoctetes, um versão de Heiner Müller para o texto de Sófocles. “Nesse caminho, é preciso descobrir a razão das coisas, a razão do teatro. As razões inversas para se chegar a algum lugar.”

Sua investigação entre os números também explica a direção de Pólvora e Poesia, de Alcides Nogueira sobre os poetas e amantes Paul Verlaine e Arthur Rimbaud, vividos por Leopoldo Pacheco e João Vitti. Aurelio lembra que em uma das cenas sugeriu ao pianista uma coisa inusitada. “Ele tocava Chopin. Pedi que tocasse de trás para frente.” A dúvida se desenhou no rosto do músico. “Como assim?” E o diretor explicou: “Na partitura há o tempo. Um, dois, três, um dois, três. Agora você volta, três, dois, um, três dois, um. Ele tocou de trás para frente. Redescobrimos Chopin.”

Com a memória afiada, Aurelio não esconde na entrevista que precisa falar do Parkinson, diagnosticado há dez anos. “Eu vivo um dia após outro. Tomo a medicação e quando não me sinto bem deito no chão, do teatro mesmo, levanto e sigo em frente.” Nesse mesmo dia, ele conta que recebeu a ligação da bailarina e coreógrafa Marilena Ansaldi. “Meu príncipe, descobri que não quero mais parar. Quero ir até o fim. E só tenho coragem com você”, ela disse. Aurelio não conta detalhes do que está por vir. O que é certo, é que todos estarão em ótima companhia.

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