Marcio Aurelio valoriza todos os detalhes reveladores de Restos

Com o monólogo, encenador terá três peças em cartaz - Anatomia Frozen e Agreste completam a lista

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

20 de agosto de 2009 | 00h00

Era o primeiro ensaio completo, com iluminação definida e trilha sonora acertada. Com apenas alguns minutos no palco, Antonio Fagundes decidiu interromper sua apresentação para uma seleta plateia (que contou com o Estado) e começou novamente. "Percebi que não estava no tom certo", justificou o ator, que notou o olhar cúmplice do diretor Marcio Aurelio. "Se ele não parasse, eu pediria para recomeçar", explicou o encenador, reafirmando o cuidado que habitualmente transforma seu trabalho em encenações de refinada estética. Basta acompanhar hoje a estreia de Restos, monólogo com Fagundes, no Teatro Faap.Diante de uma peça que traça de forma linear os efeitos dos assuntos corriqueiros sobre as vidas humanas, Fagundes e Marcio Aurelio buscaram um equilíbrio entre emoção e razão. "Fiquei fascinado pelo texto do Neil LaBute", conta o encenador que, a partir de hoje, terá três montagens com a sua assinatura em cartaz na cidade - além de Restos, estão Agreste (no Teatro Jardim São Paulo) e Anatomia Frozen (no Imprensa). "A construção da trama mexe com diferentes signos e propõe um rito de passagem acompanhado pelo espectador."Em Restos, Antônio Fagundes vive um homem que acaba de ficar viúvo e reflete não somente sobre sua vida, um cigarro após o outro, mas, principalmente, como ele a transformou. A perda da mulher reflete tanto seu profundo amor como a dor da perda, buscando uma intimidade com o espectador pela franqueza de seu depoimento. "Aos poucos, percebe-se que a relação não traz apenas elementos do casal, mas também da sociedade", observa o diretor, que moldou uma interpretação nada rebuscada. "Fagundes entendeu isso, pois o monólogo traz um universo poético que precisa ser apresentado ao espectador logo nos primeiros minutos: a interpretação, sempre limpa, necessita revelar rapidamente o conflito."Os princípios cênicos são, assim, elementos vitais no teatro de Marcio Aurelio - ao mesmo tempo que busca a clareza em sua mensagem, o diretor propõe um sofisticado jogo de cena. É o caso de Anatomia Frozen. O texto da inglesa Bryony Lavery se debruça sobre a violência contra crianças ao explorar a relação entre um assassino, a mãe de uma de suas vítimas e uma psiquiatra.Marcio Aurelio decidiu destrinchar a peça em três blocos, um para cada personagem, evitando o recurso fácil do texto contínuo que, se fosse encenado no original, resultaria em um melodrama. Assim, a atenção da plateia é necessária pois a fala de um vai interferir diretamente na ação do outro, criando uma rede de relações. Novamente, a audiência não costuma ter uma reação passiva. "Gosto de assistir ao espetáculo para acompanhar a resposta do público", conta. "É tão imprevisível como uma partida de futebol: às vezes, os passes ensaiados resultam em boas jogadas e até em gol; outras vezes, não."Os detalhes são essenciais, como já havia comprovado Agreste, premiada peça de Newton Moreno que está há mais de cinco anos em cartaz. No palco, tudo começa com os dois atores revezando-se em uma narrativa delicada, cheia de silêncios, de repetições, sobre o jogo amoroso - a lenta aproximação, com sutis avanços e recuos, que se estabelece entre um homem e uma mulher tímidos, rudes, toscos, no árido sertão nordestino. "Aqui, o som organiza temporalmente a construção da emoção do espectador", observa o encenador. "Os primeiros 20 minutos são suficientes para os atores apresentarem o drama que será desenvolvido."Para a conquista dessa precisão, Marcio Aurelio desenvolveu um processo de ensaio baseado na intimidade, em que, provocados por sons e imagens, os atores desconstruíram o texto até alcançarem o perfil desejado.O mesmo acontece com Restos que, embora alicerçado em uma sólida dramaturgia, é mais conhecido por um lance surpreendente, revelado pelo personagem vivido por Antonio Fagundes nos minutos finais. "O espetáculo caminha sobre uma linha tênue, mas, apesar da surpresa, a novidade está discretamente espalhada em detalhes, à espera do espectador atento", comenta o diretor, que obviamente não oferece mais pistas para não estragar a emoção do público.Embora frequentemente assine a cenografia e figurinos de suas montagens, Marcio Aurelio preferiu, em Restos, permitir novas propostas - Ricardo Almeida criou os figurinos, enquanto o cenário é de André Cortez. "Quando isso acontece, ou foi porque eu não soube fazer, ou porque não quis desfocar minha atenção."A disposição para trabalhar com novos profissionais é um dos incentivos oferecidos pela profissão, argumenta. E, se o trabalho em grupo permite experimentações aprofundadas, o convite para criar em trabalhos pontuais obriga o pensamento sempre a se diversificar.Marcio Aurelio conta que sempre buscou textos e montagens que o estimulassem. Em 1977, por exemplo, iniciou um diálogo artístico com o dramaturgo Alcides Nogueira, ao montar A Farsa da Noiva Bombardeada. Juntos, criaram desde Tide Moreira e Sua Banda de Najas, em 1978, sobre o desbunde e a contracultura, até Pólvora e Poesia, premiado espetáculo sobre o romance poético de Paul Verlaine e Arthur Rimbaud, em 2001.Também próximo aos princípios cênicos estabelecidos por Bertolt Brecht, Marcio Aurelio desenvolveu carreira na Alemanha, onde montou, em 1997, uma versão local de O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues, além de ter trabalhado com o bailarino brasileiro Ismael Ivo. Em meio a infindáveis requisições, ele prevê agora um descanso. "Preciso de férias." ServiçoRestos. 70 min. 12 anos. Teatro Faap (506 lug.). R. Alagoas, 903, 3662-7233. 5.ª e 6.ª, 21 h; sáb., 20 h; dom., 18 h. R$ 100. Até 29/11

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