Evelson Freitas/AE
Evelson Freitas/AE

Uma festa para Flávio Império

No Itaú Cultural, exposição dedicada ao artista retoma espírito de seu ateliê

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

01 de junho de 2011 | 11h09

Décio de Almeida Prado não teve receio em tachá-lo de "homem de teatro". A afirmação não é incorreta. E faz justiça ao alcance e à amplitude de Flávio Império (1935-1985) nos palcos brasileiros. Mas certamente soa imprecisa, incapaz de dar conta de seu sem-número de talentos. Quanto mais se examina a trajetória do artista, mais difícil parece a tarefa de encerrá-lo em um rótulo único, de aprisioná-lo em uma só definição. Esse homem múltiplo, cheio de ideias, versava sobre os mais diversos campos e temas. Atuou como arquiteto e professor. Pintor e artista gráfico. Desenhista e diretor. Cenógrafo e figurinista.

A exposição que o Itaú Cultural abre a partir de hoje não tem a pretensão de esgotar ou examinar detidamente qualquer uma dessas facetas. Assume que ele não foi um. Foi muitos. E se propõe a examinar uma arte que Império explorou em várias épocas e para tantos usos: a serigrafia. "Ela está presente em toda a sua obra", aponta Vera Hamburger, organizadora da mostra e sobrinha do artista.

De fato, Império impregnou com imagens serigráficas boa parte de sua produção. Em cenários de espetáculos como Othelo (1982), usou panos esticados e coloridos para lembrar ondas do mar. Nas telas que fez, valia-se, quase invariavelmente, de técnicas mistas, mesclando o traço do desenho ou da pintura a óleo com estampas. "É curioso porque a serigrafia parte de um princípio de repetição que ele nunca incorporou. Cada nova impressão traz uma nova obra", considera a curadora.

A partir de seu vasto acervo, que inclui mais de 1,5 mil exemplares de artes plásticas e cerca de mil desenhos de figurinos e cenários, foi selecionada uma pequena parcela. Tratadas como obras - e não apenas como suportes - estarão expostas 16 telas originais de serigrafia. Todas impregnadas com vestígios de tintas e lavagens, rastros do tempo. "Não é uma exposição de peças acabadas. Mostramos as obras do meio, que carregam a marca do trabalho criativo que ele fez", completa Vera.

Mas a proposta vai além. Em uma grande mesa de trabalho, coloca cópias de oito dessas serigrafias à disposição do público. Lá, com a ajuda de monitores, os visitantes poderão produzir as suas serigrafias, imprimindo-as em tecidos e roupas. A opção da curadoria não deixa de ser uma forma de testemunhar o prazer que Flávio Império tinha na ação. Não só no trabalho feito, em formas acabadas, mas no próprio ato de construir. Para ele, um projeto de arquitetura não se fazia apenas na prancheta. Expandia-se também para o canteiro de obras. Um cenário estava para além de um desenho. Surgia na forma de se combinar pedaços de madeira, panos e cores.

"Recriamos o espírito do seu ateliê", observa Helio Eichbauer, responsável pelo projeto expositivo. Um dos grandes da cenografia no País, Eichbauer é contemporâneo de Império, com quem chegou a trabalhar. Na composição do espaço, buscou uma miríade de referências do universo do artista. A casa do bairro da Bela Vista, onde criava suas obras, aparece em fotografias. Há ainda objetos que relembram seu percurso. Peças geométricas de madeira são convocadas para retomar seu vínculo com a arquitetura. Lamparinas, santos e utensílios testemunham suas viagens pelo Brasil. Seu olhar de explorador da cultura, curioso dos usos e costumes do povo, que o filia a Mário de Andrade e a suas andanças pelo Norte e Nordeste do País.

Nessa mesma direção, a mostra trata de evocar as festas populares. Do teto, pendem coloridas bandeirinhas juninas. E, no centro do espaço, uma escultura aérea lembra um balão. Assinada pela cenógrafa Loira Cerroti, amiga de Império, a criação traz uma revoada de pássaros negros impressos sobre seda branca. A relação estreita com as artes cênicas também não foi esquecida. "Nas paredes, os trainéis trazem um clima de coxia, de bastidor de teatro", diz Eichbauer.

Futuro

Menor do que outras retrospectivas já dedicadas a Flávio Império, a exposição atual tem o condão de marcar uma nova etapa na organização da coleção do artista. O evento dá início ao processo de digitalização de seu acervo e à criação de um site, no qual estará uma parcela considerável de documentos, projetos, fotografias e obras de arte.

A próxima etapa, ainda em negociação, deve ser a doação e transferência dessa coleção - hoje sob os cuidados da família - para o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), da USP.

OCUPAÇÃO FLÁVIO IMPÉRIO - Itaú Cultural. Av. Paulista, 149, 2168-1776. 9h/20h (sáb. e dom., 11h/20h). Grátis. Até 17/7. Abertura hoje, 20h, para convidados.

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