AMANDA PEROBELLI/ESTADÃO
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Mundana Companhia busca atravessar a dor de Medeia em texto de Heiner Müller

Ao lado de Marcio Aurelio, time criativo faz incursão na peça-instalação 'Medeamaterial'

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

10 de janeiro de 2019 | 03h00

Ler os textos do alemão Heiner Müller é como atravessar a história dos mitos, e do mundo, em um só fôlego. Assim como Hamlet Machine, que revisita a peça de Shakespeare, Medeamaterial é uma viagem sombria ao mito da mãe que condenou o marido à morte dos próprios filhos. 

O espetáculo que estreia nesta sexta, 10, é uma empreitada de criadores da Mundana Companhia com o ator Aury Porto, num misto de instalação e espetáculo, dirigido por Marcio Aurelio

O texto, considerado pós-dramático, segundo o pesquisador Hans-Thies Lehmann, dialoga com o mito grego de Medeia, mas recusa-se a cumprir o compromisso do drama atual, no qual as ações tomadas geram consequências e apontam para um desfecho. Aqui, não há um lugar preciso ou tempo determinado, tão caros ao gênero dramático. “Existe uma força destrutiva, vingativa e igualmente lúcida”, diz o ator. 

Habituada a encenações com elencos numerosos, a Mundana integra o projeto com um time empenhado na concepção estética, que vai de figurino, luz e trilha sonora a elementos de cena, oferecendo um espetáculo que ultrapassa as fronteiras da interpretação. “É muito diferente para criadores trabalhar no estilo de encomendas, de figurinos ou luz, quase sempre determinados pelo diretor”, explica Porto. “Aqui, o caminho foi outro. Desde o início, toda a equipe esteve presente em todos os ensaios para a criação de tudo, com o mesmo empenho da direção e da atuação.”

É apresentado no espaço de exposição da unidade do Sesc, e a plateia é dividida por um longo corredor na diagonal. Na primeira cena, o público vai observar Aury ao longe, com a voz do próprio diretor saindo de um rádio antigo. “Posso dizer que é um dos meus primeiros passos na atuação”, brinca o encenador. 

O figurino de Joana Porto, Diogo Costa e Rogério Pinto, composto de um longo tecido, lembra as vestes de um monge, e é a parte mais mutante do espetáculo, porque carrega uma dramaturgia própria. Em uma cena, o figurino amplifica a dor da Medeia quando carrega os filhos mortos no colo. Em outra, servirá como libertação do peso que a mulher carrega. “Medeia foi deixada sem território e sem propriedade. São povos que vivem no meio, como os venezuelanos hoje, na borda, entre uma vida miserável em seu país e a ausência de oportunidades no Brasil”, conta o ator.

MEDEAMATERIAL. Sesc Pinheiros. Rua Paes Leme, 195. Tel.: 3095-9400. 5ª, 6ª e sáb., 20h30. R$ 25. Estreia hoje (10). Até 21/1.

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