Dale Robunette/Paris
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Análise: Em 'Extraordinário', ecos de Bogdanovich e Welles para celebrar a arte da gentileza

'Extraordinário' é o 'Marcas do Destino' para o século 21, mas filtrado pela estrutura narrativa em ‘puzzle’ do grande clássico do cinema de Hollywood no século 20, 'Cidadão Kane'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

07 Dezembro 2017 | 06h00

Para o espectador que vai ver Extraordinário, o filme de Stephen Chbosky e ainda não leu o livro de R.J. Palacio, é bom ir logo esclarecendo que a grande sacada é mesmo da escritora. Já que a deformidade facial de Auggie faz dele um ET para o mundo, R.J. constrói seu personagem pelo olhar dos outros. A irmã, o amigo, a amiga da irmã, etc. Cada personagem secundário agrega ao retrato do protagonista e o mais importante, como diz a irmã, Via, é que todo o mundo tem seus problemas e isso termina por relativizar a enormidade da tragédia de Auggie.

Ele é o primeiro a rir de si mesmo. Ao amigo que lhe diz que ele devia fazer uma plástica para melhorar a cara, Auggie responde que dá trabalho ser bonito assim e que o que ele vê já é o produto de 25 cirurgias plásticas. Pobre Auggie, deve estar pensando o leitor. Mas e o amigo sem recursos que precisa da bolsa na escola, a irmã que sofre em silêncio para não sobrecarregar os pais, a amiga da irmã que se afasta, por que mesmo? Porque ela também não tem atenção nenhuma da família e, no seu caso, é por indiferença dos pais, o que a leva a mentir no acampamento de férias. Todo mundo mente – as crianças – e é essa teia de mentiras, ao se desfazer, que abre caminho para as relações verdadeiras.

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No final, você poderá até chorar – porque a história é emocionante –, mas não será por Auggie, mas pelo cachorro, a inesperada solidariedade dos amigos. Na capa, já foi feito o link com um filme de Peter Bogdanovich de 1985, Marcas do Destino, sobre outro menino com o rosto deformado. Extraordinário é o Marcas do Destino para o século 21, mas filtrado pela estrutura narrativa em ‘puzzle’ do grande clássico do cinema de Hollywood no século 20, e qual é mesmo? Alguém falou Cidadão Kane, de Orson Welles? Sim! O importante é que você não precisa fazer nenhuma dessas ilações, nem ter lido o livro. O filme tem vida própria.

Grandes críticos já disseram que o cinema começa e se dilata na epiderme dos atores, uma verdade básica, essencial. Extraordinário deve muito ao elenco reunido pelo diretor Chbosky. Owen Wilson traz um pouco da gravidade do humor de Marley e Eu, com o qual, aliás, Extraordinário guarda algumas semelhanças (mas é melhor). Owen, um comediante depressivo que já tentou se matar, entende o sofrimento humano. Certas falas do pai – puxando o filho de lado para que a mãe não ouça, mas já que Auggie brigou no acampamento, “e aí, ganhou?” – criam a cumplicidade com o público. Julia Roberts tem algo de contagiante na sua persona cinematográfica. Aquela risada. Você sabe que ela virá, apesar da dor, do sofrimento, e espera por isso.

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E, claro, o filme tem Sonia Braga. Faz a avó, a mãe de Sonia. A avó era a única capaz de perceber como pai e mãe, dedicando-se a Auggie, terminavam por negligenciar Via, e por isso ela é tão carinhosa com a neta. Sonia tem uma cena apenas. Na praia, em Coney Island. A praia deserta, as luzes. Quantos minutos terá a participação de Sonia em Extraordinário? Dois, talvez três. Não importa a duração da cena. Importa a magia. Deve estrear nas próximas semanas o novo Woody Allen, que também se passa em Coney Island e também transforma praia num espaço mágico. Roda Gigante celebra outra atriz, Kate Winslet. Sonia é gloriosa no longa de Chbosky. Certos filmes proporcionam raras experiências humanas, além de estéticas. Esse é um deles. A ‘feel good movie’. Você vai se sentir bem, é até capaz de acreditar na humanidade. Não é pouca coisa.

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