Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Ingrid Guimarães conta história do humor brasileiro em 'Viver do Riso'

Série reúne entrevistas da atriz com comediantes da velha guarda e das novas gerações

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2018 | 06h00

Ingrid Guimarães é uma especialista do humor. Afinal, quatro de suas comédias estão entre os filmes mais vistos no País entre 2000 e 2017 e suas participações em programas de TV são antológicas. Não satisfeita em apenas atuar, ela decidiu buscar as raízes desse gênero a partir do depoimento de colegas de profissão, representantes de gerações diversas. O resultado é a série Viver do Riso, que estreia no sábado, 27, no cana Viva, às 19h15. Ao todo, são dez episódios semanais, dirigidos por Tatiana Issa, Raphael Alvarez e Guto Barra e nos quais Ingrid não apenas arranca gargalhadas como consegue confissões de mais de 90 artistas que, em conversas intimistas, falam com franqueza sobre os efeitos do humor no Brasil.

 "A série traça mais do que uma linha do tempo, ou um retrato cronológico do humor, ela mostra as diversas variações do gênero e como cada humorista encontrou seu caminho, ou foi encontrado por ele. E um dos temas que mais me interessou nesse documentário foi o papel da mulher na comédia", comenta Ingrid, que passou meses entrevistando outros humoristas, desde os mais veteranos como Renato Aragão (primeiro a ser gravado, em fevereiro), Carlos Alberto de Nóbrega e Ema D'Ávila até nomes da novíssima geração como Tatá Werneck, Gregório Duvivier e Fabio Porchat. Ela conseguiu ainda um dos derradeiros depoimentos de Agildo Ribeiro, que morreu em abril. O último a contar suas infinitas histórias foi Jô Soares, com quem Ingrid conversou em setembro.

O riso habitualmente provoca um sentimento de alívio e catarse, mas piadas e textos humorísticos servem também como caminho de acesso ao inconsciente coletivo de uma sociedade. É o que se observa no primeiro episódio da série, que investiga a participação da mulher na história do humor brasileiro, especialmente o da televisão. E o que se nota é que só recentemente a participação feminina tem sido mais expressiva. "Antes dos anos 2000, a mulher no humor fazia quase sempre o papel da boazuda e, se possível, tinha de ficar quieta", atesta Marisa Orth. "Por isso, a presença da mulher ocupa menos espaço na importância do humor, já que os homens sempre dominaram", completa Fábio Porchat.

Em um dos testemunhos mais interessantes, Maurício Sherman, que cruzou gerações dirigindo programas engraçados, além de ter comandado espetáculos do Teatro de Revista, afirma: "Naquele tempo, não era de bom tom nem as moças rirem - elas eram criadas como virgens recatadas que não podiam nem gargalhar: riam com as bocas fechadas. Desde os tempos de Shakespeare, o palco nunca foi ocupado pela mulher".

No Brasil, isso revela características que as pessoas procuram esconder. "O humor reflete o caráter da sociedade", comenta Gregório Duvivier. "Nos anos 1970, era possível rir livremente de gays, negros, mulheres e pobres. Ou seja, as piadas batiam nas mesmas pessoas perseguidas pela polícia."

Uma rara exceção foi Dercy Gonçalves que, mesmo assim, precisava usar de uma linguagem rasteira para se impor em uma época que a mulher era totalmente submissa. "Sou de uma época que o teatro no Brasil era considerado prostituição - as atrizes eram p..., eram fichadas na polícia e tinham carteirinha", conta ela, em uma cena de arquivo.

Nos próximos episódios, Viver do Riso vai tratar de temas diversos, como a formação de duplas (inspiradas em Oscarito e Grande Otelo) ou com mais participantes, como Os Trapalhões, ou ainda com pequenas multidões, como os inúmeros personagens criados por Chico Anysio. "Todos são fontes de inspiração eterna e merecem reverência, pois a comédia é muito pouco reverenciada", conta Ingrid, que trata ainda de temas delicados, como o limite do humor, em papo com Rafinha Bastos, que foi processado por conta de uma piada mais ousada.

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