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Comédia em tempos de cólera

Comediantes sempre foram adversários do poder, mas o presente oferece um desafio maior

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

21 Maio 2018 | 03h00

O comediante Stephen Colbert comanda o talk show noturno mais assistido no país, liderança que ele mantém desde o início de 2017. Mas Colbert, o substituto de David Letterman, demorou a cair na preferência do público. Depois de estrear em 2015, ele passou mais de um ano atraindo, em média, metade dos 4 milhões que hoje assistem ao programa durante a exibição ao vivo. Tentava encontrar nova identidade na TV aberta, depois de uma década como um dos mais intelectualmente articulados anfitriões do canal Comedy Central.

Na noite da eleição presidencial de 2016, Colbert estava ao vivo no ar digerindo o resultado das urnas. Seu produtor, sentindo a perplexidade do anfitrião e a angústia no auditório, disse a ele: “Pare de ser engraçado. Vá lá e seja real.” Ao longo de 2017, Colbert subiu na audiência com monólogos implacáveis de humor político que, até a década passada, seriam vistos como indigestos para este gênero de entretenimento.

Comediantes e satiristas sempre foram adversários do poder, mas o presente nos EUA oferece um desafio maior porque o poder em exercício derrubou barreiras de comportamento institucional.

Colbert afiou sua língua na era Bush com uma criação seminal: aparecia, não como ele mesmo, mas como um âncora conservador moldado em figuras da ultradireita que emergiram a partir do governo Clinton e logo foram acolhidos pela Fox News de Rupert Murdoch. Colbert cunhou o termo “truthiness” (“verdadice”) em oposição a truth (verdade) referindo-se à emergência do jornalismo divorciado de fatos. Tanta ironia escapava de uma parte do público e, entre os fãs do comediante, havia conservadores lisonjeados, impermeáveis à sátira mordaz. 

Conversei, há dias, com um escritor que conhece bem a Nova York dos 1980, a cidade que produziu o atual elenco de protagonistas na capital. Kurt Andersen foi co-fundador, com Graydon Carter, da revista satírica Spy, em 1986. Até ser vendida, em 1993, a Spy era a bíblia da zombaria à fauna nova-iorquina, com seus novos e velhos ricos, figuras da mídia e do showbiz. 

A Spy viu em Donald Trump seu alvo ideal. E ele cooperava. “Desde final do século 19,” Andersen me diz, “não se via tanta ostentação aqui. A extravagância e o kitsch substituíram o comportamento puritano. Havia uma decadente atmosfera de celebração maníaca.”

Andersen lembra uma experiência de 1990. A Spy enviou cheques de US$ 1.11 - um falso reembolso por “cobrança excessiva” - às 100 pessoas mais ricas da cidade. Aos que depositavam, enviava outros cheques, com quantias menores, até chegar a cheques de US$ 0.13 que duas pessoas depositaram: Trump e o comerciante de armas saudita Adnan Kashoggi.

Os apelidos da Spy colavam e ninguém se incomodava mais do que o dono da Trump Tower. Alegando que os dedos do empresário eram gordinhos e pequenos para um homem tão grande, Spy passou a descreve-lo como o “short-fingered vulgarian” (vulgar de mãos curtas). Nos próximos 25 anos, Trump enviava a Graydon Carter folhas de revistas com fotos de sua mão recortadas e circuladas por caneta pilot dourada. A última foto chegou em 2015, pouco antes do anúncio da candidatura com a anotação, “Está vendo? Não tão curtos.” 

Ao assumir a presidência, em 2000, Vladimir Putin mandou remover o boneco de látex que o representava na série cômica de um canal independente. O canal NTV resistiu e foi transferido para o controle do Kremlin. Piadas sobre Putin se tornaram raras na TV russa.

Outro comediante da noite que mira diariamente na Casa Branca é Seth Meyers. Ele acaba de revelar que, quando pré-candidato, Donald Trump disse que iria ao seu talk show sob uma condição: Meyers teria que se desculpar no ar por um monólogo de 2011, no qual, em meio a uma fuzilaria cômica, dizia que a ambição presidencial de Trump era piada.

O humor, é o primeiro na linha de tiro de autocratas.

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