NILTON FUKUDA/ESTADÃO
Bruno Laurence. Vê suas séries em duas plataformas  NILTON FUKUDA/ESTADÃO

Conteúdo no streaming se multiplicou e mudou hábitos do público de ir ao cinema

Diante da crescimento das plataformas e a corrida por lançamento de conteúdos exclusivos, o Estado conversou com consumidores de vídeos sob demanda para entender o que está em jogo

Leandro Nunes e Thaís Ferraz, especial para O Estado

02 de agosto de 2019 | 03h00

Para descobrir as preferências do público, as bilheterias mundiais dos cinemas servem como verdadeiras bússolas sobre os hábitos dos consumidores e os futuros de uma grande produção. O que mudou desde o surgimento das plataformas de streaming é que, para conhecer seus consumidores, não é preciso ir tão longe nem mesmo sair do lugar: basta que ele aperte o play. Diante do crescimento das plataformas e da corrida por lançamento de conteúdos exclusivos, o Estado conversou com consumidores de vídeos sob demanda para entender o que está em jogo. Está valendo a pena ir ao cinema? Vamos ter que assinar cada vez mais plataformas?

Para o advogado e produtor cultural paulistano Leandro Brasilio, que assina Netflix e Amazon Prime, não há nada igual a ter o conteúdo ao toque das mãos. “A facilidade de poder assistir onde quiser, mesmo offline, foi muito atraente quando chegou ao Brasil.” Em 2021, a Netflix vai completar dez anos de atividade no Brasil e já atingiu o número de 10 milhões de assinantes, 6% de sua base no mundo. Já o streaming da Amazon desembarcou aqui há quase três anos. 

A estudante Rúbia Avelar, de Florianópolis (SC), também assina a plataforma da Amazon, por conta do baixo preço, em comparação com as outras (leia abaixo), além de Netflix, HBO Go e Globo Play. Nem tudo é para ela. A plataforma da Globo foi um pedido da mãe. “Ela pediu para assinar porque queria assistir a uma novela antiga. Com o tempo, acabei descobrindo algumas série como Killing Eve, além de poder assistir a programas da TV aberta, como Lady Night.”

A qualidade da transmissão foi o que atraiu o visual merchandiser Bruno Laurence, de São Paulo. Antes, o hábito era sempre comprar DVDs e Blu-Rays para assistir a seus filmes preferidos. “Tenho algumas coisas da Disney, filmes clássicos, shows. O problema das plataformas é seu catálogo: o usuário corre o risco de buscar uma produção específica e ela não estar mais disponível.” 

Laurence está entre os fãs da Disney que aguarda com ansiedade o lançamento da Disney +, anunciado para 2 de novembro, nos EUA (ainda sem data no Brasil). E a gigante não fará por menos. Um dos objetivos é bater a líder mundial Netflix, e já há movimentos nessa direção. Basta imaginar a infinidade de franquias da companhia – Marvel, Star Wars, os sucessos da Pixar, além das animações da Disney e suas live-action.

Desde que foi deflagrada a chamada ‘streaming wars’, outros estúdios, como a Warner, não estão renovando seus contratos de transmissão com a Netflix. Com o tempo, a plataforma pode ter seu catálogo enxugado. Laurence afirma que estará entre os assinantes da Disney +. “É bom que o conteúdo na plataforma seja cativo. Isso, sim, significa poder ver o que quiser e quando quiser.”

Essa forma de renovação do catálogo pode ser diferente em plataformas menores de nicho, como a Mubi, focada em clássicos – Cidadão Kane, Persona – produções independentes e títulos nacionais, de Glauber Rocha a Rogério Sganzerla. A assinatura permite o acesso a 30 filmes, inicialmente. Quando o usuário termina de assistir a uma produção, ela sai do catálogo para dar lugar a outra. “Ajuda muito para quem sempre fica indeciso diante de tanto conteúdo”, diz Brasilio. “Ainda não assinei a Mubi, mas o fato de ser uma curadoria de filmes é bem interessante.”

Outra vantagem são os pacotes-família, que permitem o uso de várias telas em uma única conta. “Com o tempo, você sempre usa a conta de um amigo e também compartilha a sua com alguém. Se assinar sozinho, não vale a pena, porque vai custar o preço de uma assinatura de TV paga”, ressalta Laurence. 

Streaming traz novos hábitos

Mas e quando o conteúdo não está em nenhum serviço, como filmes mais antigos e raridades? Para a analista e desenvolvedora de sistemas catarinense Solange Gamboa, os catálogos precisam se diversificar justamente para conquistar todos os públicos. “Antes de assinar qualquer plataforma, eu não encontrava alguns animes no Brasil e baixar via Torrent era a única opção.” Geralmente associado à pirataria, o Torrent é uma maneira de compartilhar arquivos entre os usuários, sem que o material esteja armazenado em um servidor ou computador – e as plataformas de streaming interromperam seu sucesso. 

Os novos hábitos do público também interferiram no cinema. Os entrevistados divergem. Para alguns, a relação não mudou nada. “Continuo frequentando umas duas vezes por mês. Acho que o sentimento de ver na telona nunca vai perder o encanto para mim”, diz Rúbia. Para Brasilio, o streaming colocou em perspectiva o que significa ir ao cinema. “É preciso se organizar, conferir os horários, comprar os ingressos, sair de casa e ainda enfrentar o trânsito.” Laurence afirma que só faz esse esforço quando vale a pena. “Tem que ser uma atriz ou um ator que eu goste muito, mas em geral são os blockbusters.” 

Este ano continua favorável para os super-heróis. Antes de Vingadores: Ultimato bater o recorde de Avatar, Capitã Marvel e Homem-Aranha: Longe de Casa já faziam boas temporadas, superando O Rei Leão, Aladdin e Toy Story 4. Nesse cenário, todos os entrevistados concordam que a situação não parece favorável para a TV aberta e mesmo a TV paga. Rúbia diz que a assinatura da TV a cabo continua na casa. “Mas minha família vê ocasionalmente.” 

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Conteúdo é o desafio na 'guerra' de streaming

Com crescimento de assinaturas, plataformas buscam novos caminhos

Thaís Ferraz e Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2019 | 00h03

Plataformas de streaming são cada vez mais populares – em quatro dias, a terceira temporada de Stranger Things, da Netflix, foi exibida em 40 milhões de residências no mundo. Para conquistar esse público, as gigantes do setor começam a apostar em preços competitivos e produções originais exclusivas, como La Casa de Papel (Netflix) e His Dark Materials (HBO). É a chamada ‘streaming wars’, ou ‘guerra dos streamings’, que deve se acirrar com a chegada da Disney+, prevista para 2020. 

“Esse é o melhor momento na história para ter o controle remoto, o mouse ou o celular nas mãos e escolher o que você quer assistir”, afirma Chris Sanagustin, diretora de conteúdos originais da Netflix Brasil. Com mais de 10 milhões de assinantes no País, a plataforma investe em conteúdos nacionais, como as séries 3% e O Escolhido, e em filmes com nomes populares do entretenimento, como Fábio Porchat (Porta dos Fundos).

A aposta vai ao encontro de tendências internacionais. Em seu levantamento quadrimestral, a consultoria norte-americana Nielsen constatou que, em meio a um mar de opções, a preocupação principal do consumidor ainda é o conteúdo oferecido. Em pesquisa realizada no ano passado, 57% dos entrevistados afirmaram que a variedade de produções era o atributo mais importante em um serviço de streaming. Quase metade disse buscar por programação local. 

Coordenador de pesquisas do Cetic, Fábio Senne conta que a maioria dos usuários de internet do País já prefere assistir a vídeos online. A popularização do streaming, afirma, foi impulsionada por fatores tecnológicos, de mercado e culturais. “O período em que o acesso a filmes e séries via internet mais cresceu coincide com a ampliação da internet móvel em dispositivos celulares e também com o aumento na oferta de serviços de streaming”, diz. O download de filmes e séries, de forma legal ou ilegal, diminuiu no mesmo período.

Se antes bastava uma única assinatura, as produções originais acabam obrigando o público a procurar outras opções. Um levantamento feito este ano pelo portal Meio & Mensagem e a consultoria Toluna com usuários de streaming no Brasil constatou que 22% dos entrevistados mantinham mais de duas assinaturas. Quase 40% gastavam entre R$ 30 e R$ 50 mensalmente, e outros 40% pagavam pelo menos R$ 60 em serviços de assinatura.

A popularização do streaming também impacta o mercado de TV por assinatura. Em apresentação no fórum Pay-TV, que reúne representantes dos principais canais de TV paga, o secretário executivo da Ancine, João Pinheiro, destacou como tendência global a migração de canais de TV para os serviços de streaming.

Diretor geral da Globosat, Alberto Pecegueiro afirma que, assim como muitos jovens buscam o streaming, ainda há um contingente significativo de pessoas que preferem a TV linear. “O nosso objetivo é juntar os dois”, disse. Entre as operadoras, uma tendência é realizar parcerias. Diretor de marketing fixo da Vivo, Gustavo Nobrega afirma que metade dos clientes da Vivo TV consome conteúdos sob demanda. Desde 2018, a operadora integrou a Netflix à sua plataforma de TV. 

 

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‘Safra de ouro’ salva o cinema, diz Paulo Sérgio Almeida

Diretor e produtor afirma que streaming afeta mais o segmento de arte; País bate recorde de bilheteria com os blockbusters

Thaís Ferraz e Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2019 | 03h00

De janeiro a julho deste ano, as bilheterias de cinema no Brasil arrecadaram R$ 1,8 bilhão. Foi um ano atípico, que caminha para registrar o maior faturamento da última década. Independentemente de crise ou de grandes lançamentos do streaming.

O diretor e produtor de cinema Paulo Sérgio Almeida, fundador do portal Filme B, especializado no mercado cinematográfico, afirma que o grande feito foi conduzido pelos filmes blockbuster – juntos, Aladdin, Toy Story 4, Vingadores e O Rei Leão arrecadaram R$ 43 milhões no País. “Foi uma safra de ouro da Disney”, diz. 

A já gigante Marvel, incorporada pela companhia de Walt Disney, é um destaque à parte. Com Vingadores: Ultimato, filme que encerra a fase 3 de seu universo cinematográfico, conseguiu bater o recorde de Avatar (2009) e se tornou o filme com maior bilheteria na história do cinema, somando até o momento U$ 2,79 bilhões. 

“O público de cinema blockbuster está sendo fidelizado a partir da ‘mitologia’ da Marvel e da DC Comics. Ela é viciante, os adolescentes estão completamente apaixonados por isso”, afirma Almeida. “E os cinemas se prepararam para competir com o streaming apostando em infraestrutura: som dolby, conforto de multiplex, que oferecem uma experiência completamente diferente.” 

Almeida acredita que a popularização de plataformas de video-on-demand causa um impacto limitado no cinema. “Exceto fenômenos como Game of Thrones, que atraiu todo tipo de gente, os públicos são diferenciados”, afirma. 

Para ele, quem deve sofrer uma baixa maior é o cinema autoral. “Os filmes de arte ainda podem ser assistidos quase que da mesma maneira em um cinema e em uma tela de TV, pois não têm som imersivo, explosão, efeitos especiais”, afirma. “Enquanto os outros longas vêm sendo produzidos para serem vistos no cinema, os títulos de arte são mais baseados em diálogos.” 

O live-action Turma da Mônica: Laços, ainda em cartaz, já ultrapassou a marca de um milhão de espectadores, apesar da forte concorrência, como Homem-Aranha: Longe de Casa e Pets 2. “Em termos de mercado, o cinema brasileiro sempre encontrou uma maneira de sobreviver”, diz Almeida. O produtor cita fases como os filmes de Mazzaropi, Trapalhões e Xuxa, mas destaca a década de 2000, que viu lançamentos como Cidade de Deus, Carandiru e Lisbela e o Prisioneiro. “A briga entre streaming e cinema é de cachorro grande. O cinema está pronto para enfrentar”, afirma .

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