Depois de 70 anos, Cidadão Kane ainda é o maioral?
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Depois de 70 anos, Cidadão Kane ainda é o maioral?

Luiz Zanin Oricchio

23 de maio de 2011 | 06h34

Rosebud. Essa palavra, todo cinéfilo tem de cor na cabeça, desde que Cidadão Kane tornou-se o ícone mundial do cinema de arte. Não foi uma fama imediata. O mito Kane foi se construindo ao longo do tempo, forjando sua própria tradição e posteridade. Cidadão Kane teve sua première dia 1º de maio de 1941, em Nova York. Chegou ao Brasil em 16 de junho do mesmo ano, antes da Europa. Compreende-se. A maior parte dos países europeus estava então envolvida na 2ª Guerra Mundial e fechada ao cinema americano. Uma exceção era Portugal – neutro –, que colocou o filme de Welles em cartaz também em outubro de 41, com o título de O Mundo a seus Pés.

Em sua terra, Kane enfrentava mais percalços que sucessos. O magnata das comunicações, William Randolph Hearst, reconheceu-se no personagem interpretado e dirigido por Welles, e boicotou a película. Via em Charles Foster Kane o homem poderoso e, no fundo, vazio, corrupto, destruidor de pessoas; acima de tudo, inimigo e algoz de si mesmo. Havia outra alusão, de ordem sexual. De acordo com a lenda, “rosebud” (botão de rosa) era o apelido que Hearst dava à parte mais íntima da anatomia da sua amante, Marion Davies. Temeroso do poder de Hearst, Louis B. Mayer, boss da MGM, ofereceu à produtora de Kane, a RKO, US$ 800 mil para queimar o negativo. Para sorte da humanidade, a oferta não foi aceita. Submetido ao Oscar, Kane não teve melhor sorte. Indicado a nove categorias, ganhou apenas em uma – roteiro, de Herman Mankiewicz, que foi obrigado, depois, a dividir os créditos com Welles numa decisão da Writers Guild, o sindicato dos roteiristas dos Estados Unidos.

Kane foi se impondo aos poucos. A cada geração de cinéfilos, enaltecido por camadas geológicas de exegeses e críticas favoráveis, foi ganhando a posição de “filme dos filmes”. Ou, pelo menos, de uma espécie de princípio absoluto do cinema moderno, aquele que saía do grande cisma provocado pela entrada em cena do sonoro nos anos 30, e que subvertera a estética do silencioso, dominante nas décadas anteriores. Os anos 20 haviam produzido todo o expressionismo alemão, boa parte da obra de Chaplin, os divisores de água de Eisenstein (Encouraçado Potemkim e Outubro). Com sonoro, temia-se que o cinema regredisse a uma estética anterior, colocando toda a força nos diálogos e esvaziando a imagem. Não precisava ser assim, e não foi. Kane não pode ser visto como o único a demonstrá-lo, mas talvez o tenha feito com ênfase inigualável.

Nem mesmo depois do incrível sucesso crítico alcançado, Kane deixou de levantar polêmicas. Uma delas partiu da então mais famosa crítica norte-americana, Pauline Kael que, em seu longo ensaio escrito nos 70 para a revista New Yorker, Raising Kane (Criando Kane, no Brasil editado pela Record, junto com outros textos), atribui a Mankiewicz a maior parte do mérito pelo sucesso de Kane. De acordo com Kael, é o texto brilhante que faz o filme. Ok, mas mesmo com o melhor dos textos, o que seria da obra sem a mescla de gêneros proposta por Welles, sem a profundidade de campo usada por seu fotógrafo Gregg Toland, sem montagem discontínua de Robert Wise, sem a música de Bernard Herrman, sem o uso criativo da narração radiofônica? Enfim, sem tudo aquilo que faz de Kane um filme (e não um texto) extraordinário, por obra e graça de seu diretor, o grande regente por trás de todos esses talentos?

Sua influência posterior é talvez inigualável, pois todo o melhor cinema moderno é seu devedor. Mesmo seu achado – a palavra “rosebud” -, que guia a trama na busca de um enigma chamado Charles Foster Kane, mantém sua força. O fato é que rever Cidadão Kane, 70 anos depois, ainda é para o espectador uma experiência cinematográfica sem par. Mesmo já o tendo visto e revisto inúmeras vezes, terminamos o filme sem fôlego, contemplando aquela imagem simples e ao mesmo tempo misteriosa. Todos temos o nosso rosebud pessoal. Foi Kane que nos ensinou essa verdade simples.

Perguntas a Cacá Diegues e Fernando Meirelles

1) Depois de 70 anos de sua estreia, você acha que Cidadão Kane ainda é o maior filme de todos os tempos?

Cacá Diegues: Não gosto dessas classificações do tipo “maior filme de todos os tempos”. Evito participar de listas de “melhores”, etc e tal. Acho que o que existe são filmes bons e ruins, em diferentes gradações. Esse gosto pode até variar de tempos em tempos, conforme o estado de espírito do momento presente. Dentro disso, prefiro dizer que CK é e sempre será um dos fundadores do cinema moderno, junto com “A regra do jogo”, “Roma, cidade aberta” e alguns outros.

Fernando Meirelles: Dizer ” o maior de todos os tempos” mesmo para qualificar um camarada imensamente alto,  é sempre  uma oportunidade de cometer um erro.  A  contribuição  de Welles ao cinema pode ser comparada a daqueles russos que filmaram  vinte anos antes dele e a de cada genial diretor que abriu uma nova janela para o cinema vamos dizer então que definitivamente Welles deu um grande passo

2) Qual foi a contribuição e influência do filme de Orson Welles para o cinema moderno?

Cacá Diegues: CK talvez seja o primeiro filme pós-folhetim do cinema americano, aquele que rompeu com as regras do melodrama romântico que sucedeu o cinema mudo. Ele ressuscita o espírito do “específico fílmico” que havia morrido com o advento do sonoro e com isso envolve o cinema num compromisso com a liberdade de expressão e com a invenção de uma linguagem nova. Mas acho que CK é também uma transgressão política que anuncia o que será o cinema do pós-guerra, inquisidor, contestador, crítico e moral. Com CK, o cinema deixava de ser o embalo de sábado à noite da família americana, tornando-se um instrumento do pensamento sobre o estado do mundo.

Fernando Meirelles: Antes de Welles  o star system americanos já existia, os estúdios americanos estavam produzindo centenas de filmes por ano.  Nossos pais iam ao cinema 2 ou 3 vezes por semana mesmo morando em pequenas cidades do interior.  Cinema era algo extremamente popular mas  aí veio este filme  e,  mesmo sendo popular, mostrou ao mundo que cinema poderia ser ao mesmo tempo  uma poderosa forma de expressão artística de massa.

O que  surpreende ao assistir o filme hoje é  seu frescor. Cidadão Kane não envelheceu. O roteiro traz uma ironia e uma complexidade do personagem central absolutamente  contemporânea. Ha uma liberdade narrativa ( até meio pós moderna ?) onde  ele permite juntar num mesmo pacote vários tons e linguagens para contar uma mesma história.  Pula do drama psicológico para o documentário com uma liberdade ainda rara hoje em dia.    Na fotografia Welles inventou técnicas, lentes e enquadramentos.   A montagem é quebrada, musical, muda de ritmo o tempo todo.  Até o tema não poderia ser mais atual,  Kane poderia ser um empresário do petróleo, a fonte de energia do futuro  na época, mas não, é um empresário da informação, como se Welles soubesse nos anos 40 que o petróleo estava com os dias contados.   Por todos estes aspectos o filme  pode ser chamado tranquilamente  de genial ou visionário.

3) Em particular, qual foi o impacto de Kane sobre o cinema brasileiro?

Cacá Diegues: Imenso. CK era um dos filmes prediletos da geração do Cinema Novo, por todas as razões possíveis. “Terra em Transe”, a obra prima de Glauber, é um filho direto de CK, na sua ânsia de desvendar a dialética do poder e na própria estrutura narrativa desconstruída. O mesmo posso dizer de meu filme “Os herdeiros” ou do “Bravo Guerreiro” de Gustavo Dahl. E finalmente CK encontrou uma espécie de cultor permanente em Rogério Sganzerla e sua saga wellesiana.

Fernando Meirelles: Não saberia ser específico e citar exemplos de influência no nosso cinema sem dizer besteira Zanin,  mas posso falar sobre a minha experiência pessoal.  CDD, com sua narração as vezes jornalística, informativa, definitivamente bebeu daquela fonte. No último episódio da série Cidade dos Homens para TV, feita metade em animação,  ha uma sequência que é uma homenagem ao filme. Meu hiper-singelo tributo.

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