Sérgio Ferreira
Sérgio Ferreira

Teatro São Pedro estreia ‘Alcina’ com alusões à série ‘Star Wars’

Ópera 'Alcina', um dos destaques da temporada lírica de 2018, estreia nesta sexta-feira, 22, em São Paulo

João Luiz Sampaio  , Especial para O Estado de S. Paulo

22 Junho 2018 | 06h00

O diretor William Pereira está no céu. No final de maio, dirigiu a estreia mundial da ópera O Vulcão Azul, de João Guilherme Ripper, em Manaus. E agora coloca no palco a sua produção da Alcina, de Händel. O que pode haver de comum entre uma obra finalizada em 2017 e outra do século 18? “Elas não são Verdi, Puccini, Rossini, Bellini, não têm aquela sensibilidade do século 19 pela qual não tenho nenhum apreço especial, ainda que sejam a base do repertório dos principais teatros”, ele diz. “Para mim, poderia ser sempre assim, entre o passado mais distante e o agora. É disso que eu gosto.”

A volta a esse “passado distante”, por meio da Alcina, que sobe nesta sexta, 22, ao palco do Teatro São Pedro, é um dos destaques da temporada lírica deste ano, justamente por simbolizar uma diversidade de repertório pouco comum no País, em cujas programações o período barroco costuma ser deixado totalmente de lado. “Para além do meu gosto pessoal, eu vejo esse repertório como ideal para um palco das proporções do São Pedro, além de ser uma alternativa de mercado para os cantores”, diz Pereira, que na produção trabalhou ao lado de alguns dos principais especialistas brasileiros no assunto, o maestro e violinista Luis Otávio Santos e a soprano Marília Vargas. Completam o elenco artistas como a mezzo-soprano Carolina Faria, o tenor Caio Duran e o contratenor David Feldman.

Composta em 1735, Alcina é baseada no poema Orlando Furioso, de Ariosto; narra a história de Alcina, que isolada em uma ilha seduz guerreiros e os descarta. “A trama em si é bastante embolada, mas é interessante perceber como Händel trabalha com um elenco reduzido, apenas seis personagens, o que faz da ópera uma peça quase camerística. E, além disso, toda a trama está centrada justamente nas relações psicológicas entre essas figuras”, explica Santos. “O fascinante, quando nos voltamos ao período barroco, é justamente nos darmos conta de que é ali que começa a surgir uma ideia de escola de canto. Cantar Händel é deixar a música te envolver, é como se você a vestisse com a voz”, diz Vargas, que, formada na Suíça, faz sua estreia paulistana em óperas. “É um momento especial. Alcina carrega uma complexidade grande, passa por mudanças ao longo da ópera, da mulher sedutora até aquela que se apaixona e descobre a própria fragilidade.”

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Histórias de amor como essa são a base de quase todo o repertório operístico. Mas o que, para William Pereira, torna esse repertório fascinante é a liberdade que ela dá ao intérprete. “No início do libreto está anotado: época indeterminada. Eu então não preciso localizar essa narrativa historicamente, posso focar no diálogo entre cena e música, que é perfeito, e dali extrair uma concepção e um gestual. É um desafio interessante, porque ao fazer isso nos damos conta de como nossa sensibilidade está formatada pela ópera italiana do romantismo. E quando aceitamos isso, podemos ver por exemplo como um texto do século 18 pode ser teatralmente moderno”, explica o diretor.

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A ausência de um tempo determinado foi, portanto, ponto de partida para Pereira, que resolveu pensar a ilha em que vive Alcina como “um outro planeta”. “É um cenário todo branco, para simbolizar um mundo à parte, onde o gestual é diferente, a moral é diferente. Além disso, a música barroca é rica, repleta de ornamentos, e uma concepção visual exagerada seria redundante, desnecessária. Entendemos que menos seria mais nessa produção”, explica Pereira. Ainda assim, o diretor trabalha com alguns contrastes importantes, em especial no que diz respeito ao uso da cor. “Há dois núcleos nessa história. De um lado estão Alcina, Morgana, Oronte, os personagens que vivem na ilha; e de outro encontramos os estrangeiros, aqueles de fora que chegam à ilha.”

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Ambientar a história em outro planeta também permitiu a Pereira trabalhar com referências que, segundo ele, há muito tempo desejava utilizar. Uma delas é o universo dos filmes Star Wars, de George Lucas. “Essa é uma das referências iconográficas que estarão presentes no espetáculo. Lembro de ler o livro da responsável pelos figurinos dos filmes e ficar fascinado com o modo como eles foram construídos”, explica ainda. “É uma forma de linguagem interessante.”

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