De Manaus, uma reflexão sobre o mercado da ópera

De Manaus, uma reflexão sobre o mercado da ópera

Diretora executiva do Festival Amazonas de Ópera, Flávia Furtado fala sobre a importância de sair do gueto, firmar uma indústria e desenvolver novos mercados para o gênero que, para ela, precisa fazer parte de fato da cadeia de produção da cultura nacional

João Luiz Sampaio

06 Junho 2018 | 10h52

O Festival Amazonas de Ópera chegou ao final de sua XXI edição neste fim de semana, com a estreia da ópera O Vulcão Azul, de João Guilherme Ripper, após montagens de Dessana, Dessana, de Adelson Santos; Fausto, de Gounod; Acis e Galatea, de Händel; e Florencia en el Amazonas, de Daniel Catán; além de recitais; de uma versão em Ópera Studio de La Bohème, de Puccini; e do projeto Ópera Delivery, com apresentações em casas, empresas e hospitais.

Estive em Manaus para acompanhar as montagens de Dessana, Dessana, e do Fausto. A importância da primeira, regida pelo maestro Otávio Simões, parece estar na temática amazonense e na participação de artistas locais como foco. É uma questão importante para um evento que, ao mesmo tempo em que redefiniu o cenário da ópera brasileira e ganhou fama internacional, criou raízes dentro da cultura amazonense. Fausto, por sua vez, na aproximação de um título célebre mas pouco interpretado, e com um nível alto de realização cênica e musical, comandada por Luiz Fernando Malheiro, mostra como Manaus segue estabelecendo paradigmas de excelência no cenário nacional (leia a crítica de Nelson Kunze a respeito do espetáculo no Site CONCERT). Some-se a isso o trabalho de Marcelo de Jesus, este ano se voltando ao barroco e, ao mesmo tempo, criando uma nova obra (sobre O Vulcão Azul, que não pude assistir, Luciana Medeiros escreveu no site Tutti Clássicos).

Depois de vinte anos de festivais, a experiência de Manaus se presta a uma reflexão sobre os caminhos da ópera no Brasil nas últimas duas décadas – e também sobre perspectivas para o futuro. É nesse sentido que a diretora executiva do evento Flávia Furtado tem trabalhado, encampando uma discussão sobre o mercado da ópera no Brasil e as possibilidades de diálogo com outras casas de ópera por meio da Ópera Latinoamérica (OLA), associação de teatros que acaba de se transformar em pessoa jurídica e, com isso, pode atuar diretamente no fomento à atividade no continente.

“Em abril, estive na reunião da Ópera Europa, realizada em Madri. Estavam presentes representantes da OLA, da Ópera America e de teatros asiáticos, que também começam a pensar em se unir em uma associação parecida”, ela diz. “E parece consenso que vivemos em um novo momento, não apenas de união dos teatros, mas para o gênero como um todo, o que pautou boa parte da nossa discussão.”

Segundo Furtado, três questões centrais foram colocadas. A primeira tem a ver com a noção de herança cultural: a aposta apenas na tradição pode eventualmente matar a ópera? O comprometimento com novas obras, nesse sentido, não poderia significar uma forma de recuperar espaços para o gênero, tornando ele mais atual, como o cinema ou o teatro de prosa? O segundo ponto tem a ver com a diversidade: o mundo da ópera reflete a sociedade do século XXI? E, por fim, foi abordada o que se chamou de necessidade de se advogar em favor da ópera e de seu valor público.

“Para nós, à luz do trabalho feito em Manaus, me parece que a primeira e a segunda questão vêm sendo tratadas há um bom tempo”, diz Furtado. “O grande ponto parece ser, assim, justamente a capacidade de advogar em favor do valor público da ópera. Entre os membros das associações, há realidades naturalmente distintas. Mas um ponto comum é a defesa da necessidade de estrutura e de trabalhos com continuidade. É o ponto de partida para que se possa seguir em direção ao objetivo principal, que é sair do gueto e se firmar como uma indústria, desenvolvendo novos mercados, entendendo cada mercado e sua especificidade e assim por diante.”

A questão da indústria vem acompanhada de alguns números levantados por Furtado. O Festival Amazonas deste ano gerou 578 empregos diretos – conta que não leva em consideração todo o mercado musical, com conservatórios, professores, etc, criado ao longo dos anos em que o evento ajudou a mudar o panorama cultural da capital amazonense. “Geramos mais empregos do que os setores de material de limpeza, vestuários e calçados, têxtil, de mobiliários e de brinquedos da Zona Franca de Manaus. No entanto, vemos, por exemplo, que apenas o setor de brinquedos tem um ICMS resituído na casa de R$ 35 milhões. O festival, por sua vez, custa ao estado R$ 4 milhões (mais um R$ 1 milhão de patrocínio da iniciativa privada).”

Para Furtado, números como esse servem de bom argumento para que a ópera passe a ser tratada de maneira diferente dentro do cenário cultural do país. “A ópera tem especificidades no que diz respeito aos profissionais envolvidos que justificam por exemplo que ela saia da rubrica de artes cênicas dentro do Ministério da Cultura. Ela não pode ser julgada e pensada como o teatro ou mesmo como a música clássica, que trabalham com projetos e instituições de natureza distintas”, explica. “A ópera precisa existir de maneira clara na cadeia de produção da cultura nacional.”

Nesse processo, Furtado entende que a Ópera Latinoamérica (OLA), hoje presidida pelo Teatro Colón, de Buenos Aires, pode ser uma parceira importante. “Com a pessoa jurídica da OLA constituída, a associação agora pode, por exemplo, pleitear linhas de financiamento, e já há conversas com o Banco Interamericano de Desenvolvimento neste sentido. Para tanto, ministérios da cultura da Argentina, da Colômbia e do Chile já firmaram cartas de intenção para parcerias e a expectativa é que o Brasil possa se unir a este time em breve”, diz a produtora.

“A OLA não quer dinheiro para si, isso é importante deixar claro. A ação dela é acima de tudo institucional, ela pode ser o ponto de convergência de parcerias que pensem a ópera no continente não apenas de espetáculo a espetáculo, mas de forma mais estrutural, lançando editais com vistas à colaboração entre casas de ópera, por exemplo”, explica. “Um plano no qual eu particularmente acredito, e senti uma concordância grande com relação a ele em Madri, é a criação de uma escola para profissionais de toda a cadeia produtiva da ópera, ajudando a estabelecer o mercado por meio de artistas e técnicos que possam se formar à luz de suas especificidades.”