Festival de Campos do Jordão segue com atividade pedagógica em São Paulo e amplia programação de música de câmara

Festival de Campos do Jordão segue com atividade pedagógica em São Paulo e amplia programação de música de câmara

Evento manteve orçamento de R$ 3 milhões, menos da metade do valor recebido em 2014; para coordenador artístico e pedagógico, Fábio Zanon, retorno do evento completo a Campos do Jordão não é viável

João Luiz Sampaio

06 Junho 2018 | 17h40

O 49º Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão será realizado entre os dias 30 de junho e 29 de julho. O evento vai custar R$ 3,2 milhões, mesmo valor do ano passado, quando o evento sofreu um corte de 25% nas verbas. A quantia será paga pela iniciativa privada, sem investimento direto da Secretaria de Estado da Cultura. Ao todo, serão cerca de 90 apresentações. Como nos anos anteriores, a atividade pedagógica será inteiramente realizada em São Paulo, com nova queda no número de alunos: em 2016, eram 217; em 2017, 205; e, nesta nova edição, 198.

A abertura do festival, no dia 30, será com a Osesp, que com Marin Alsop, repete parte do programa apresentado nos dias anteriores na Sala São Paulo, mas sem a presença da mezzo-soprano italiana Anna Caterina Antonacci como solista. O grupo também vai apresentar um concerto com a Sinfonia dos Orixás, de Almeida Prado, e a Sinfonia Alpina, de Strauss, atuando ao lado de um grupo de alunos do festival, e fazer dois concertos no último fim de semana do evento.

Marin Alsop e a Osesp em Campos do Jordão/ Foto de Rodrigo Rosenthal/Divulgação

Os alunos vão se dividir entre três conjuntos musicais. A Orquestra do Festival fará dois programas, com regência de Sian Edwards e Pedro Neves, e peças como o Concerto para orquestra de Lutoslawski, o Concerto para piano nº 3 de Beethoven (com solos de Arnaldo Cohen) e os Choros nº 6 de Villa-Lobos. Edwards também supervisiona uma das apresentações da Camerata, que terá direção do violinista Lavard Skou Larsen, e um repertório focado em obras de Haydn, Mozart e Beethoven. O Núcleo de Música Antiga, por sua vez, será dirigido por Luis Otávio Santos e vai apresentar o Magnificat de Bach e o Miserere de Jan Dismas Zelenka.

“O repertório da Orquestra do Festival é exigente, ambicioso, não costuma fazer parte da vida de orquestras jovens”, diz o violonista Fábio Zanon, coordenador artístico do festival, que, gerido pela Fundação Osesp, tem direção de Arthur Nestrovski, Marcelo Lopes e consultoria de Marin Alsop. “Dentro de um festival como esse, se programarmos obras menores corremos o risco de deixar muitos alunos ociosos. Por isso, fazemos essa divisão, entendendo a Camerata do Festival como uma orquestra escola e, assim, se dedicando ao repertório clássico, a Mozart, Haydn”, completa.

Para Zanon, a edição deste ano traz uma mudança de foco importante com relação à ênfase na atividade orquestral em detrimento da música de câmara, alvo de críticas em edições anteriores. “Nos últimos anos, tínhamos três programas diferentes para a orquestra do festival. Agora, serão dois, deixando uma semana livre para o trabalho com a música de câmara, com professores tocando ao lado de alunos e com um repertório interessante, que inclui por exemplo estreias de compositores brasileiros.”

A edição deste ano não terá um grupo residente, como nos anos anteriores, em que o festival recebeu o Quarteto Diotima e o Ensemble Modern. O pianista Arnaldo Cohen fará recitais com músicos convidados para marcar seu aniversário de 70 anos. Entre os grupos convidados, estão a Orquestra Filarmônica de Goiás, a Orquestra Sinfônica de Campinas, a Orquestra Sinfônica de Santos, a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, a Orquestra Sinfônica de Santo André e a Orquestra Jovem do Estado de São Paulo, além do Quarteto Osesp e do Quinteto Zephyros.

O pianista Cristian Budu fará sonatas de Brahms com o violinista Winston Ramalho; Lucas Thomazinho fará recital dedicado a Schumann, Beethoven e Brahms; um quarteto formado por Olga Kopylova, Horacio Gouveia, Ricardo Bologna e Eduardo Gianesella vai homenagear Leonard Bernstein. Outras atrações importantes são Paulo Martelli (violão) e Neymar Dias (viola caipira).

Para Zanon, volta a Campos “não é viável”

Com sua parte pedagógica realizada desde 2015 em São Paulo, tendo em vista a economia nos gastos com hospedagem e alimentação dos alunos, o festival não tem previsão de retorno para Campos do Jordão. Para Fábio Zanon, essa volta, nesse momento, simplesmente “não é viável”, por conta “da crise econômica que nos últimos anos afetou profundamente vários projetos culturais”.

“É claro que todo mundo adora ir para Campos do Jordão, passar um mês todo lá, não há a menor dúvida”, diz Zanon. “Mas perante a realidade do país, foi preciso tomar uma decisão. Manter o festival inteiro em Campos do Jordão significaria diminuir o seu tamanho. A solução, então, foi trazer a parte pedagógica para a Sala São Paulo.” Em 2014, o festival teve um orçamento de R$ 7,4 milhões e, desde então, o corte é de cerca de 50%. Nesse novo formato, Campos recebe apenas concertos.

A questão, no entanto, não parece ser apenas de verbas: para o coordenador, o festival ganhou proporções que não cabem mais na cidade do interior de São Paulo. “Em Campos, por exemplo, a Camerata não teria onde ensaiar. Não dá para trabalhar o festival na maneira como o concebemos nas condições atuais. Não dá simplesmente para voltar para Campos. Teríamos que virar uma página e começar novo capítulo.”

Para Zanon, é o “desejo de todos” que o festival volte inteiramente para a cidade. “Mas queremos trabalhar em um lugar onde haja estrutura e organização, como é o caso da Sala São Paulo”, afirma, relembrando que já houve projetos para a construção de um complexo para estudantes em Campos do Jordão, com salas de aulas e espaço para hospedagem. Em 2010, uma concorrência chegou a ser feita pela secretaria, que convidou alguns escritórios a apresentarem projetos para o alojamento, que a princípio seria construído nas imediações do Auditório Claudio Santoro. O projeto, no entanto, não seguiu adiante e os alunos continuaram a ocupar o Preventório, antigo hospital especializado no tratamento de tuberculosos.

“Mas o festival dura apenas um mês. Seria irresponsável construir um enorme complexo sem ter como dar a ele sentido durante todo o ano. Ideias não faltam, ele poderia ser uma sucursal da Escola de Música do Estado, do Conservatório de Tatuí, abrigar eventos musicais temáticos a cada mês. Essa deveria ser a meta final de qualquer um que acredite no poder transformador da música. Mas não vivemos um momento propício. Algo assim precisaria ser pensado no longo prazo.”