Heloisa Bortz
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Comédia esquecida, ‘O Matrimônio Secreto’ ganha nova montagem

Temporada do Teatro São Pedro abre com o espetáculo

João Luiz Sampaio, Especial para o Estado

01 Maio 2018 | 02h00

O velho Geronimo quer casar o Conde Robinson com sua filha mais velha, Elisetta, mas o nobre ama mesmo Carolina, que ama Paolino, por quem, por sua vez, se apaixona Fidalma. A trama de O Matrimônio Secreto tem todas as idas e vindas características da ópera cômica. Ainda assim, a principal obra de Domenico Cimarosa, escrita no final do século 18, acabou soterrada em meio à fama de suas primas mais famosas, escritas por Gioachinno Rossini ou Gaetano Donizetti. “Mas é com ela que o gênero ganha em humor e ironia, deixa de ser rígido e se torna mais humano”, diz a maestrina italiana Valentina Peleggi.

Regente residente da Osesp, Valentina assina a direção musical de uma nova montagem da ópera, que estreia sexta, abrindo a temporada lírica do Teatro São Pedro. A direção cênica é de Caetano Vilela – e o elenco, composto pelas sopranos Caroline de Comi e Joyce Martins, o tenor Jean William, o barítono Michel de Souza, o baixo Pepes do Valle, a mezzo-soprano Ana Lucia Benedetti. O teatro apresenta ainda este ano Alcina, de Händel (com Luis Otávio Santos e William Pereira), Katia Kabanova, de Janácek (com André Heller-Lopes e Ira Levin), e Sonho de uma Noite de Verão, de Britten (por Jorge Takla e Claudio Cruz).

“Domenico Cimarosa era uma estrela em seu tempo”, lembra a maestrina. “Todo mundo conhecia o trabalho dele e suas óperas eram famosas nos estados italianos e em toda a Europa: Londres, Viena, São Petersburgo, Varsóvia. A czarina russa Catarina II o convidou para ser maestro de cappella e o imperador Leopoldo II lhe ofereceu um emprego no palácio imperial de Viena, com salário anual e um apartamento no próprio palácio.” A estreia de O Matrimônio Secreto, em 1792, foi um sucesso tamanho que a praticamente a ópera inteira precisou ser repetida na mesma noite, em seguida à primeira apresentação.

O Matrimônio Secreto, na verdade, foi admirado por muitos artistas”, diz Valentina. “Stendhal escreveu que os primeiros dois duetos estavam entre os mais bonitos já escritos. Para Verdi, tratava-se da verdadeira comédia musical, com todos os elementos que uma ópera cômica deveria ter”. E os motivos para tanto estão, segundo ela, na liberdade que a partitura carrega. “Até aquele momento, a ópera trazia histórias e personagens estereotipados. A grande inovação de Cimarosa foi dar liberdade à construção das personagens. As árias permitem a descoberta de pessoas com sentimentos, e as cenas de conjunto ganham brio e ritmo”, ela explica.

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Caetano Vilela conta que evitou uma abordagem realista da história, tanto na movimentação cênica quanto na composição dos figurinos por Fause Haten, nos cenários de Duda Arruk e na caracterização de Edu von Gomes. “O que teremos no palco é uma grande caixa de presentes com os personagens embalados como se fossem uns bibelôs barrocos decalcados de uma história em quadrinhos”.

Para ele, foi importante mostrar ao público também o que não acontece normalmente sobre o palco. “Eu precisava resolver em primeiro lugar o espaço da última cena da ópera, que é um quiprocó de entradas e saídas de diferentes quartos de cada personagem à vista do público”, diz. “Era necessário criar ações paralelas em um segundo plano, nos quartos, para mostrar à plateia as intenções e motivações dos personagens quando eles estão fora de cena. Assim, os cantores ficam pouquíssimo tempo nas coxias e o público os acompanha como em um programa Big Brother”.

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