Philip Montgomery/The New York Times)
Philip Montgomery/The New York Times)

Philip Roth, um encantador nato e cronista sem igual da morte e do sexo

Escritor era o último sobrevivente da primeira linha de romancistas dominantes e, sim, brancos e homens que ajudaram a definir a experiência americana na segunda metade do século 20

Dwight Garner, The New York Times

24 Maio 2018 | 11h28

Pode-se dizer: a morte de Philip Roth marca, à sua maneira, o fim de uma era cultural tão definitivamente quanto o fez a morte de Pablo Picasso em 1973.

Roth, que morreu na noite de terça, aos 85 anos, era o último sobrevivente da primeira linha de romancistas fecundos, dominantes e, sim, brancos e homens — os outros eram John Updike, Norman Mailer e Saul Bellow — que ajudaram a definir a experiência americana na segunda metade do século 20.

Updike tinha mais talento completo, Bellow mais determinação. Mas se tornou cada vez mais aparente no estágio final da carreira de Roth — conforme ele acendeu as turbinas, escrevendo 11 romances, vários deles obras-primas, entre 1995 e 2010 — de que ele estava deixando o bando para trás.

Quando se considera as dimensões da série final de Roth, é difícil não relembrar um momento em A Marca Humana, seu romance de 2000, no qual seu dublê ficcional de longa data, Nathan Zuckerman, vai a Tanglewood numa manhã de sábado para assistir a um ensaio aberto.

A música toma o lugar do sexo como grande prazer ao passar da vida de Zuckerman. Conforme ele escuta um “judeu russo imberbe e robusto como um barril” tocar o piano, ele relata: “Quando ele acabar, pensei, eles terão que jogar a coisa fora. Ele está esmagando aquilo. Ele não concede nada para o piano. O que quer que exista ali vai sair, e sair com as mãos para cima”.

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Roth passou por um tipo parecido de ruína e revelação. Seu trabalho tinha mais raiva, mais inteligência, mais luxúria, mais conversa, e mais contracorrentes de pensamento e emoção, mais entrega de verdades universais (no seu caso, a existência judaica americana), do que qualquer outro escritor do seu tempo.

Ele era um encantador nato, um homem guiado por vozes. “Sou um fone de ouvido — um audiófilo. Sou um fetichista da fala”, diz o protagonista do seu romance de 1990, Deception. Roth era um tipo de fone de ouvido turvo também.

Ele se tornou um jovem homem famoso por conta do escândalo que cercou seu quarto livro, O Complexo de Portnoy (1969), no qual ele coloca seu herói reprimido num divã de psicanalista e permite sua diatribe.

Alexander Portnoy confessou celebremente a atenção amorosa que cedeu a um pedaço de fígado cru, “comprado numa tarde num açougue e, acredite ou não, violado atrás de um outdoor no caminho para uma aula de bar mitzvah”.

Abaixo da comédia humana que preencheu muito do trabalho de Roth, e do senso de pertencimento de tanto transcender e abraçar suas origens judias de classe média (Roth cresceu no bairro de Weequahic, em Newark, Nova Jersey), ele escreveu com enorme insight sobre coisas fundamentais como o relacionamento das pessoas com mães e pais.

Zuckerman, seu alter ego, se referia à sua mãe em Lição de Anatomia (1983), numa típica frase pronta, como “um peito, então um colo, depois uma voz desaparecendo atrás dele, ‘tome cuidado’”.

Sobre os maridos de tais mulheres, ele escreveu em Pastoral Americana (1997):

“O senhor Levov era um daqueles pais judeus oriundos dos bairros miseráveis e guetos cuja perspectiva iletrada e rude tocara para frente toda uma geração de filhos judeus esforçados e instruídos em faculdades: um pai para quem tudo representava um dever inexorável, para quem existe um jeito certo e um jeito errado, e nada no intervalo entre um e outro, um pai cujo conglomerado de ambições, preconceitos e crenças se conserva tão imune aos arranhões de uma reflexão mais cuidadosa que ele se torna alguém mais difícil de a gente se livrar do que parece. Homens limitados dotados de uma energia sem limites: homens rápidos para mostrarem-se amigos e rápidos para ficar de saco cheio; homens para quem a coisa mais séria na vida é seguir em frente apesar de tudo. E nós éramos seus filhos. Era nossa missão amá-los” (na tradução de Rubens Figueiredo para a Companhia das Letras).

Pastoral Americana, que venceu um Pulitzer, pode ser o romance mais bem realizado de Roth. Entre outras coisas, a habilidade que ele mostra em escrever sobre crianças, sem ter nenhuma em casa, não é nada menos do que espantosa.

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Para outros leitores, seu maior romance pode ser o bem mais obscuro Teatro de Sabbath (1995), sobre um ex-titereiro priápico e velho. Luxúria e vergonha eram as forças por trás da ficção de Roth. No sexo, também, a conversa era central para o apelo. Roth escreveu sobre tanto sobre as alegrias da “sedução fonética” quanto da “cláusula relativa finamente calibrada”.

Roth tem suas críticas feministas. Lionel Shriver disse a um entrevistador que os personagens femininos dele “não são nem de perto tão preenchidos quanto os masculinos; às vezes suas mulheres são pouco mais do que corpos ou, quando ex-mulheres, erros andantes”.

Vivian Gornick foi além: “Se em Bellow a misoginia era como bile pingando, em Roth ela era lava explodindo direto de um vulcão”.

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Numa entrevista neste ano com Charles McGrath para o The New York Times, Roth respondeu que ele tinha tentado ser intransigente nos seus retratos de “um círculo social de homens perturbados”, mesmo quando “esses não estiveram em harmonia com o retrato que uma campanha de relações públicas masculina — se isso existisse — poderia preferir”.

O melhor livro sobre esse romancista — Roth Libertado: Um Escritor e Seus Livros — foi escrito por uma mulher, Claudia Roth Pierpont (sem parentesco). É um volume sensível, explorador e incomumente sábio que vai levar o leitor para dentro do trabalho de Roth com novos olhos e compreensão.

Pierpont processa e nunca dispensa facilmente os impulsos obscuros de um homem que uma vez escreveu: “por um puro senso de estar tumultuosamente vivo, você não pode derrotar o lado safado da existência”.

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Depois do sexo, a mortalidade talvez tenha sido o grande tema de Roth.

“A velhice não é uma batalha”, ele escreveu em Homem Comum (2006). “A velhice é um massacre.” Ele não estava receoso do que os seus obituaristas poderiam dizer sobre ele. Mas estava ciente de que eles iriam desencavar alguns dos relatos mais duros sobre seu trabalho e pinçar citações. Você pode ouvir seu tom cômico quando ele diz a Pierpont: “Mesmo na morte você ganha uma resenha negativa!” / Tradução Guilherme Sobota

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