Miguel Rajmil/EFE
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Análise: Philip Roth deu voz à perplexidade do homem moderno

Seus personagens, imigrantes judeus e seus descendentes, levam, sem exceção, as marcas de acontecimentos políticos

Luis S. Krausz, O Estado de S.Paulo

23 Maio 2018 | 21h56

Quando Philip Roth publicou a antologia de contos Adeus Columbus, em 1959, e recebeu o National Book Award, imediatamente foi reconhecido, juntamente com Saul Bellow e Bernard Malamud, como um dos três grandes escritores judeus norte-americanos do pós-guerra. No entanto, ao longo de sua trajetória ele sempre insistiu que gostaria de ser visto só como escritor norte-americano, alguém cuja obra, ainda que povoada por judeus, explora as infinitas possibilidades da comédia humana.

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Seu romance mais conhecido, O Complexo de Portnoy, foi publicado em 1969 e desencadeou uma enorme polêmica por causa do tratamento ousado que nele se dá à sexualidade. Trata-se de um monólogo de um jovem neurótico, de sensualidade obsessiva e perversa, e escrito em linguagem grosseira. O livro chocou o establishment ao mesmo tempo em que foi visto pelos defensores de Roth como prova de sua integridade artística: ao fazer tal retrato ele não se deixou influenciar por considerações que não as puramente literárias.

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Outros temas presentes no romance, e recorrentes em muito de sua obra, são a experiência judaica nos Estados Unidos e a relação dos judeus norte-americanos com Israel, particularmente bem explorada em O Avesso da Vida, de 1987, que marca a passagem de Roth para a estética do pós-modernismo. Este romance, que se passa, em parte, num assentamento judaico nos territórios da Cisjordânia, discute as contradições e ambivalências intrínsecas à condição judaica: de um lado, o empenho por integração social nos países da diáspora, sobre a qual o genocídio perpetrado no século 20 deixou um grande e indelével ponto de interrogação; de outro, o esforço pela criação e manutenção de uma cultura e de uma identidade singulares que, segundo alguns, só seria possível no contexto de um Estado próprio.

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Como em quase toda a literatura judaica dos séculos 19 e 20, a história, seus desastres e, sobretudo, suas consequências exercem os papéis determinantes nos enredos de Roth. Seus personagens, imigrantes judeus e seus descendentes, levam, sem exceção, as marcas de acontecimentos políticos. Em seu empenho por representar, se não por entender, o mundo do pós-guerra, Roth de fato deu voz à perplexidade do homem moderno.

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LUIS S. KRAUSZ É PROFESSOR DE LITERATURA HEBRAICA E JUDAICA NA USP 

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