Acervo pessoal
Acervo amplo. Francisco Bosco divide livros em duas paredes, entre ficcionais e teóricos. Acervo pessoal

Bibliotecas em casa: organização dos livros revela o perfil de cada leitor

Mais do que cenários de lives, bibliotecas privadas revelam a personalidade de cada leitor, com seu jeito próprio de organizá-las

Júlia Corrêa, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2020 | 15h58

Não só os títulos dos livros, mas a própria disposição deles pelas estantes pode revelar muito da personalidade de cada leitor. Durante a quarentena imposta pelo novo coronavírus, diversas transmissões ao vivo pela internet e pela televisão deixaram em evidência as bibliotecas de artistas, comunicadores e comentaristas, despertando a curiosidade do público quanto aos livros em destaque.

Apresentador do programa Papo de Segunda, do GNT, Francisco Bosco tem recebido mensagens de espectadores que notam sua coleção de cerca de 3 mil livros, dispostos pela sala de seu apartamento no Rio de Janeiro, de onde tem feito suas participações na atração. Jornalista com doutorado em teoria literária e obras publicadas sobre temas contemporâneos, ele explica que a organização de sua biblioteca transparece essa ambivalência entre o registro mais acadêmico e o da cultura e da mídia.

“São duas seções, uma em cada parede. Uma delas compreende arte, história, literatura e poesia. A outra, de não ficção, tem livros de teoria literária, filosofia, psicanálise, sociologia brasileira e também canção popular.” Bosco conta que a divisão envolveu algumas dúvidas, como quando um mesmo escritor tem obras de ficção e não ficção. A decisão foi “sacrificar a unidade do autor”, com “cada um indo para um lado”.

Ele detalha ainda que reserva espaço estratégico para suas obras favoritas. “O filé mignon está no centro e à altura do olho. A minha tese é sobre Roland Barthes. Tenho 40 ou 50 livros dele ou sobre ele”, revela o jornalista, salientando que o “quadrado fundamental” de sua estante reúne, além das do pensador francês, obras de Freud e Lacan. No momento, Francisco está produzindo seu próximo livro e, quando acabar a escrita, deve dedicar um tempo à organização de sua biblioteca. “Não tenho encontrado alguns livros. É a pior sensação.”

Com carreira consolidada no cinema e na televisão, Maria Fernanda Cândido tem amplo interesse pelas humanidades. Não por acaso, é uma das sócias-fundadoras da Casa do Saber, instituição que promove cursos e eventos ligados a diferentes áreas do conhecimento. Assim como Bosco, ela revela adotar uma posição estratégica para suas obras preferidas. Uma vez que a atriz gosta muito de marcar, sublinhar e deixar seus livros “cheios de comentários”, é importante que as obras estejam à mão. “São verdadeiros objetos vivos. Eu os consulto e releio com frequência.”

Maria Fernanda diz que sua biblioteca reflete os interesses desenvolvidos desde a adolescência, quando se aproximou da poesia. “Eu guardo muitos livros dessa época. São coleções infantojuvenis, edições da década de 1980, livros que marcaram minha juventude.” Clássicos brasileiros, além de textos ligados à filosofia, ao teatro e ao cinema, marcariam ainda a formação intelectual da atriz.

Sobre a organização dos livros, Maria Fernanda afirma que os divide apenas por grandes áreas. “Não faço uma separação tão meticulosa, como por ordem alfabética ou com etiquetas. Tenho a estante da poesia, da ficção, da dramaturgia, dos ensaios filosóficos, das minhas relíquias da adolescência, e ainda um cantinho voltado para a metafísica”, destaca a atriz.

Diferentemente de Maria Fernanda, o advogado Pedro Pacífico conta ter se envolvido mesmo com os livros já na idade adulta. Apesar de sempre ter gostado de ler, a atividade não era algo regular para ele. O vínculo mais intenso que foi construindo com a literatura o levou a criar o perfil do Instagram Bookster, no qual compartilha dicas e busca incentivar o hábito de leitura entre seus mais de 250 mil seguidores.

O sucesso fez aumentar consideravelmente o volume de títulos em sua estante, já que, agora, editoras, autores e seguidores enviam livros diretamente para Pedro. Assim, foi um desafio organizá-los em seu quarto na casa dos pais. “Comecei a tirar quadros para estender as estantes, tirei a televisão da parede e foi virando uma biblioteca”, conta o advogado.

“Estou com cerca de 1.500 livros, então quis organizar de um modo funcional e que fizesse sentido para mim.” No início do ano, com a ajuda de uma profissional, Pedro dividiu seus livros em duas grandes categorias: literatura nacional e estrangeira. A partir disso, os dispôs pelas estantes em ordem alfabética. A única exceção foi um espaço especial para biografias. “Foi a única, senão a gente acaba criando um milhão de exceções e, quando vê, não encontra mais nada”, justifica ele.

Em sua página, Pedro tem incentivado a doação de livros. “Em tempos de gente usando fundo falso, temos de entender que a quantidade de livros na estante não te define como melhor ou pior leitor. Entendo quem tem a vontade de ter seu próprio acervo, mas sempre tem livros que não se curtiu tanto, aí vale a pena acumular?”

A jornalista e curadora de arte Ana Carolina Ralston segue a mesma filosofia de Pedro: guarda somente livros que têm algum significado para ela e busca fazer doações sempre que possível. Ela e o marido, o designer Rodrigo Ohtake, costumam destinar livros, sobretudo, para bibliotecas públicas. “Quando você não gosta de algum, é importante passar para frente porque sempre terá alguém que vai se interessar.” Guardar livros em vão, segundo ela, é algo que pode deixar a casa “sufocada”.

Ana Carolina mantém em sua biblioteca livros destinados à consulta para seus textos curatoriais, mas revela privilegiar também a literatura, área que cobria quando ainda atuava em redações. Quanto à organização, diz classificar os livros pelo sobrenome dos autores, mas abre exceções para os volumes mais especiais. “Adoro literatura japonesa. Então, mesmo com sobrenomes diferentes, eu coloco todos perto dos livros de arte, que são os meus favoritos e acabo consultando muito.”

Outra maneira de marcar os livros dos quais mais gosta é dispor itens como porta-retratos ou peças às quais tem maior apego. É o caso de uma abóbora da artista Yayoi Kusama. “Comprei no Japão, na ilha de Naoshima, e ela fica bem no meio da estante, perto de alguns livros que procuro sempre, então, já sei que eles estão lá.”

Cuidados com a biblioteca

A bibliotecária e conservadora Adael de Freitas Alonso recomenda alguns cuidados:

- Manuseio

O ideal é deixar um espaço entre os títulos para facilitar a retirada de cada livro, que deve ser removido pelo meio da lombada, nunca pela ‘cabeça’.

- Iluminação

A luz direta deve ser evitada. Já ambientes escuros são o prato cheio para os fungos. Aliás, afastar os livros das paredes ajuda a evitar os danos de infestações e infiltrações.

- Limpeza

Nada de lustra-móveis. Pano seco e um aspirador de pó regulado no mínimo são os melhores aliados para higienizar livros e estantes.

Discos também merecem boa organização

Por Bruno Capelas, apresentador do ‘Programa de Indie’, da Eldorado

Diferentemente de Rob Fleming – o personagem de Nick Hornby que virou estereótipo do colecionador de discos –, minha organização é simples e não por ordem “cronológica autobiográfica”, como faz o protagonista de Alta Fidelidade. Eu divido meus vinis assim: os nacionais ficam numa estante; os internacionais, divididos em dois pufes camuflados na sala. Daí, sigo a ordem alfabética pelo primeiro nome do artista – assim, Bruce Springsteen e Bob Dylan estão pertinho dos Beatles. Mas nem tudo é tão simples: roqueiros portugueses estão junto de bandas brasileiras, enquanto trilhas sonoras precisam de um lugar à parte. E nem sempre dá para manter todos juntos: por seu formato peculiar, o LP de Artaud, da banda argentina Pescado Rabioso, não cabe em nenhuma estante ou caixa. Acaba ficando bonitão sozinho, na sala ou no quarto. 



 

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Viver em meio a livros

Biblioteca em casa deve combinar estética e funcionalidade, além de prever a possibilidade de sua expansão

Marcelo Lima, O Estado de São Paulo

22 de agosto de 2020 | 16h00

Existem aqueles que não abrem mão de um cômodo específico na casa para guardar seus livros. Outros preferem conjugar biblioteca e outros ambientes, e há ainda aqueles que, indiferentes a qualquer convenção, não abrem mão de nenhum espaço disponível para armazenar o acervo: de corredores a lavabos. Em plena era digital, para uma legião fiel de leitores, o essencial é tê-los por perto. “Eu e meu marido adoramos ler. Lemos em telas das mais variadas, mas gostamos de ter livros físicos”, afirma a arquiteta Fernanda Marques, que concentrou os volumes do casal em toda uma parede de seu home office. E, mais do que isso, se empenhou em dotar o ambiente de condições ideias de leitura. 

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Estantes

Estantes

A icônica poltrona Up, de 1969, clássico do italiano Gaetano Pesce, por exemplo, não está lá por acaso. “É um dos meus móveis favoritos, mas ela foi escolhida por ser, antes de mais nada, extremamente confortável”, conta ela, que, além do móvel, compartilha com o marido as prateleiras da estante.

“À direita, ficam os livros dele. Os de economia, mais consultados, mas também os de história e de ficção científica. No outro lado, os meus: clássicos, romances históricos e, atualmente, muitos de neurociência, assunto que tem me interessado bastante”, descreve a arquiteta que, a partir desse esquema básico, procurou organizar os volumes primeiro por idioma, depois por frequência de leitura. 

Pensada para um casal de médicos que costuma trabalhar em casa, outra biblioteca, desta vez projetada pela arquiteta Patricia Mello, também conta com território específico dentro da geografia doméstica. Só que, no caso, partilhando o espaço da sala de estar. “Os ambientes ficam separados por portas de correr de vidro, mantendo a comunicação visual entre eles, mas preservando o conforto acústico”, explica ela. 

Com prateleiras de vidro e iluminação interna com lâmpadas LED, a estante acomoda livros de consulta e estudos, mas também de literatura em geral. Além de objetos como porta-retratos, lembranças de viagens e pequenos objetos. “É uma forma de deixar a composição mais leve”, relata Patricia que, para evitar nichos muito altos, procurou posicionar os volumes maiores na horizontal. 

“Ao finalizarmos o projeto, o próprio dono da casa organizou seus livros de acordo com a frequência de uso e a facilidade de acesso. Em geral, aconselho que os mais utilizados fiquem à altura dos olhos. No mais, gosto de deixar meus clientes mais livres na hora de organizar seus livros. Acredito que isso acaba trazendo um resultado mais orgânico e natural”, diz.

“Penso que a biblioteca particular deve contar um pouco a história do morador, criar uma memória afetiva, aumentar a sensação de pertencimento. Por isso, além de explorar as cores, formatos e espessuras dos livros na composição das estantes, procuro distribuir pequenos objetos pelas prateleiras”, afirma a arquiteta Adriana Esteves, que acaba de desenvolver um projeto para o home office de um promotor de Justiça, praticante de karatê. 

“Os interesses dele são bem variados: literatura, negócios, finanças, biografias e, claro, sua arte marcial favorita. Ele encara o ambiente como uma espécie de santuário, no qual estante funciona como o altar”, brinca ela, que dimensionou a metragem e o número de prateleiras com base na quantidade de livros indicada por seu cliente. 

Já para o arquiteto Maurício Nóbrega, um ambiente apenas não foi suficiente para abrigar toda sua coleção de livros, acumulada há anos. “Fato é que meu acervo foi crescendo tanto que o living acabou ficando pequeno. A ponto de eu ter de pensar na sala de jantar e até no lavabo”, conta ele, que, na disposição de seus volumes, procurou atingir um equilíbrio possível entre funcionalidade e estética. 

“Na sala de estar, como a intenção era acomodar, principalmente, meus exemplares de arte, que são maiores, as prateleiras têm altura maior e maior espaçamento. No lavabo, por sua vez, resolvi concentrar os livros de tamanho padrão”, explica Nóbrega. 

Nos dois ambientes, segundo o arquiteto, os volumes foram organizados por assunto, mas sem muitas regras. No lavabo, o efeito visual é mais organizado; na sala de jantar, despojado, com livros, em meio a objetos, dispostos tanto na horizontal como na vertical. Nos dois casos, como manda a regra, os mais usados ocupando prateleiras ao alcance das mãos e, os demais, as mais altas. 

Em qualquer situação, porém, a recomendação do profissional é clara. “Na hora de planejar a biblioteca, é essencial observar não só o acervo atual, mas também prever sua expansão. Só assim é possível dimensionar estantes capazes de te acompanhar por toda a vida.”

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