Reprodução/Instagram/@booksdaluli, @book.ster e @livrosdodrii
Reprodução/Instagram/@booksdaluli, @book.ster e @livrosdodrii

No Instagram, influenciadores compartilham leituras e incentivam hábito na quarentena

Pedro Pacífico, Luisa Accorsi e Adriel Bispo notaram crescimento dos perfis durante o período de isolamento social; ao Estadão, dão dicas para os que querem dar o primeiro passo nas leituras

Bárbara Pereira, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2020 | 09h00

Com as limitações impostas pelo isolamento social, a leitura acabou tornando-se uma forte aliada dos chamados 'quarenteners'. "Esse momento de quarentena mostrou para as pessoas como é importante a gente aprender a estar consigo mesmo", afirma Pedro Pacífico, advogado de 27 anos, que mergulhou no mundo dos influenciadores digitais em 2017 ao criar o perfil @book.ster no Instagram

Ao longos dos últimos cinco meses, desde que a pandemia foi decretada pela Organização Mundial da Saúde, Pedro tem visto um grande crescimento em seu perfil literário na rede social, que agora já conta com mais de 260 mil seguidores. "A leitura é uma forma de você ter um momento para você. As pessoas estão tentando desenvolver hábitos mais saudáveis e a leitura é um deles. Isso talvez seja um efeito positivo do momento tão horrível que estamos vivendo", reflete. 

Quem acompanha as várias leituras que ele compartilha no Instagram todos os dias, nem imagina que esse hábito demorou para ser aprimorado. "Eu sempre gostei de ler desde criança, mas nunca fui um leitor tão assíduo. Eu ficava perdido na hora de escolher o livro, não sabia muito o que ler, não tinha referências". O depoimento de Pedro pode ser a realidade de muitas outras pessoas, que também se perdem na infinidade de possibilidades de leituras. "Eu acabava recorrendo sempre às listas de mais vendidos, achando que lá estariam os melhores livros", completa.

Quando descobriu a existência dos perfis literários na internet, passou a ser influenciado por eles, tanto a expandir o hábito da leitura, quanto a diversificá-la. "Comecei a ler livros clássicos, que eu tinha preconceito ou medo porque achava que seriam difíceis. Percebi também a importância de escolher as leituras de forma consciente, então ler mais mulheres, autores negros e livros com temáticas sociais relevantes, como LGBT e saúde mental". Com o incentivo desses outros perfis, ele criou o @book.ster e passou a compartilhar as suas próprias leituras, despretensiosamente, na rede social. 

A influenciadora digital Luisa Accorsi, de 30 anos, também intensificou as leituras durante a quarentena. Em seu perfil pessoal, são mais de 790 mil seguidores acompanhando as postagens de moda, beleza e viagens; mas, no @booksdaluli, ela encontrou um espaço totalmente dedicado para falar sobre livros: "Criei o perfil no final de 2018. Antes, compartilhava minhas leituras na época do blog, no meu Instagram pessoal e no YouTube, e percebia que as pessoas se interessavam bastante". O retorno dos seguidores sempre era positivo: muitos tinham interesse em saber como administrar o tempo para ler mais e incluir esse hábito na rotina, então Luisa criou o clube do livro para compartilhar suas leituras e incentivar o hábito em outras pessoas. 

Durante o isolamento social, a influenciadora natural de Londrina, no Paraná, elevou a prática: "Estava com mais tempo e enxerguei como um momento de me desligar do mundo real, das notícias e tragédias". No entanto, ela conta que diversos seguidores e amigas não estavam conseguindo focar na leitura - o que é normal também! "No começo da quarentena, eu tive a necessidade de ler livros mais leves, com temáticas que se distanciavam do que estava acontecendo. Agora, procuro livros que me acrescentem, me prendam - podem ser pesados, o que for. É um momento de aprender e evoluir", conclui. 

Repita comigo: leitura é um hábito diário! 

Sempre ativo em seu perfil, Pedro criou uma espécie de mantra: leitura é um hábito diário. "É importante você ler algo que você goste para criar o hábito. Eu tenho uma rotina muito corrida, então não é que para você ser leitor, você precisa ter muito tempo. Basta um pouquinho por dia; se você ler dez minutos, já está ótimo", explica. Por conta do trabalho como advogado, as leituras corporativas fazem parte da rotina. Ainda assim, ele reforça a importância de separar as leituras técnicas das leituras por prazer: "É muito importante a gente pensar numa leitura descompromissada, porque será um momento de relaxamento. Por isso, digo que você precisa escolher livros que realmente tenha vontade de ler, e não só os livros que todos estão comentando". 

A rotina frenética de influenciadora digital, repleta de eventos e viagens, também exige de Luisa esse controle para ter um momento dedicado à leitura: "Tem vezes que eu simplesmente não consigo ler por conta da correria e outros que eu leio mais, mas é algo que me faz tão bem que tento ler sempre". Além da vontade pessoal, o retorno dos seguidores também atua como uma forma de motivação: "Não tem nada melhor do que receber comentários como 'o livro que você indicou este mês salvou a minha quarentena e minha saúde mental'". 

Tanto Luisa, quanto Pedro, sabem, em média, a quantidade de livros que leem por ano, mas sugerem que o leitor não fique preso a essa informação: "Isso é muito relativo, porque cada livro exige um tempo diferente, tem um número de páginas, e cada leitor tem seu ritmo. Acho importante sempre estar lendo alguma coisa", diz o dono do perfil Book.Ster.

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Precisa de um pontapé inicial? Ao Estadão, Pedro e Luisa indicaram leituras para os que querem criar o hábito nessa quarentena. "Primeiro, pense no gênero de série ou filme que você gosta de ver e vá por esse caminho", sugere Luisa. A influenciadora recomenda A Menina da Montanha, de Tara Westover; Daisy Jones & The Six, de Taylor Jenkins Reid; e A Mulher na Janela, de A.J. Finn - este último, "um suspense que não dá para parar de ler", classifica. Luisa também relata que os tablets ou dispositivos de leitura podem ser ótimos aliados: "Normalmente leio antes de dormir e ter um Kindle facilita muito: levo para todo lugar e sempre que tenho um tempinho, leio pelo menos uma página". 

Outra possibilidade para leitores iniciantes são os livros mais curtos, que não demandam tanto tempo. "Para esse primeiro momento do leitor que está construindo o hábito, eu recomendaria Travessuras da Menina Má, de Mario Vargas Llosa, que ganhou Prêmio Nobel de Literatura", aconselha Pedro. O título, inclusive, também foi recomendado por Luisa. Outras recomendações do advogado são as obras Eu, Tituba: Bruxa Negra de Salem, de Maryse Condé; Ciranda de Pedra, de Lygia Fagundes Telles; e Frankenstein, de Mary Shelley. "A história é muito diferente do que a gente está acostumado a ver no mundo de filmes e programas de TV. É totalmente aprofundada na mentalidade, no psicológico da criatura, que é vítima de muita discriminação e preconceito por causa da aparência", completa. 

Desafios na internet impulsionam leitura coletiva e troca entre leitores

Se o momento da leitura, geralmente, é feito a um, o "pós" não precisa ser. Clubes de leitura fazem sucesso na internet ao incentivar a troca entre leitores, principalmente em um momento de isolamento. "Tenho gostado de indicar livros que eu nunca li, para ler junto com os seguidores. Não tem nada melhor do que conversar com uma pessoa que leu o mesmo livro que você", justifica Luisa. No final do mês, a influenciadora paranaense faz uma live para os mais de 50 mil seguidores da página para compartilhar as percepções e opiniões sobre o livro escolhido. 

Já no desafio literário de Pedro Pacífico, as leituras seguem uma temática determinada ainda no começo do ano. Em 2019, as leituras foram pautadas por questões sociais relevantes, como racismo, feminismo e xenofobia. "A ideia é trazer a descoberta de outros autores e histórias, além de editoras menores também. Esse ano, o desafio é ler livros escritos por mulheres e cada mês tem uma classificação: terror, ficção-científica, biografia...", explica.

Seguindo a proposta de apostar em autoras mulheres, Pedro fez uma postagem em seu perfil que rapidamente viralizou e inspirou outros leitores: tirou uma foto da sua estante completa e, em seguida, da estante apenas com livros escritos por mulheres. "Por mais que eu já venha buscando uma estante com mais diversidade, o resultado é bem preocupante. O que eu venho aprendendo nesses três anos de @book.ster é que o poder de transformação da leitura pode começar antes da leitura em si, isto é, pode se dar desde o momento em que eu compro ou seleciono uma obra", escreveu na legenda do post. 

Nos comentários da publicação, centenas de seguidores compartilhavam o mesmo sentimento: a necessidade de fugir do padrão na hora da leitura. "Para que tenham voz, temos que dar os ouvidos", afirmou um seguidor. Outra, elogiou a reflexão e completou: "É simplesmente assustador parar pra observar o quanto só consumimos o mesmo padrão heteronormativo, branco e com enredos que focam nos Estados Unidos ou Europa". 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Olhe para sua estante e pense: se eu tirar todos os livros escritos por homens, como ela ficaria? Foi isso que fiz. E por mais que eu já venha buscando uma estante com mais diversidade, o resultado é bem preocupante. ⁣ ⁣ Há quem possa considerar ser apenas uma coincidência o fato de ter muitos mais homens autores nas estantes ou que, na verdade, na hora de escolher um livro “eu só penso se a história vai me agradar, seja ela escrita por um homem ou não”. ⁣ ⁣ Mas será que a gente realmente não precisa se atentar a fatores como esse na hora de selecionar uma leitura? Basta olhar a sinopse do livro?⁣ ⁣ O que eu venho aprendendo nesses três anos de @Book.ster é que o poder de transformação da leitura pode começar antes da leitura em si, isto é, pode se dar desde o momento em que eu compro ou seleciono uma obra. Isso é o que eu gosto de chamar de “escolha consciente” das leituras, uma importante ferramenta contra discriminações da nossa sociedade refletidas no mundo editorial. ⁣ ⁣ E por que isso acontece? São diversas as razões, muitas de cunhos históricos. Mas o que eu tenho certeza é que a minha estante não está dessa forma porque as mulheres escrevem menos ou pior do que os homens. Ou seja, não é por falta de habilidade das mulheres. Pelo contrário. E isso nao se aplica apenas à diferença de gêneros. A verdade é que a leitura que fuja do padrão (branco, hétero, norte americano ou europeu) vai encontrar obstáculos no mundo editorial. ⁣ ⁣ Por isso, ainda que a gente precise se esforçar um pouco mais para conseguir encontrar excelentes obras escritas por mulheres, por exemplo, já que elas têm mais dificuldade de conseguir ser publicadas nas maiores editoras ou em determinados gêneros literários, não deixe que isso te impeça de diversificar suas leituras.⁣ ⁣ Vamos ler mais mulheres, autoras e autores negros, LGBT+, nacionais, jovens e por aí vai! Em um mundo em que a preocupação com o plano de fundo da sua webcam é tão grande, é sempre bom lembrar que uma estante cheia não diz nada sobre você. Já uma estante rica em diversidade, sim! Se fizer, me mande para eu compartilhar ? @eulittera já fez! #bookster

Uma publicação compartilhada por Pedro Pacífico (@book.ster) em


Incentivo aos pequenos

Além dos perfis para os adultos, também há espaço no Instagram para os mais novos. Adriel Bispo, de apenas 12 anos, encontrou na rede social uma forma de compartilhar as leituras infanto-juvenis que faz. "Eu criei o @livrosdodrii querendo espalhar mais cultura, mais leitura", explica. O jovem de Salvador, capital baiana, conta que aprendeu a ler aos cinco anos, quando participou de um concurso para ganhar uma bolsa de estudos em um colégio particular da cidade. "Depois que eu passei, minha mãe foi me incentivando cada vez mais a leitura, me empurrando mais e mais livros", recorda. 

Assim como Luisa e Pedro, Adriel também acredita que a quarentena afetou suas leituras positivamente: "Estou lendo muitos livros, fazendo mais resenhas para o Instagram. Me vi pegando leituras de outras temáticas, como biografias ou livros antigos". Os livros são compartilhados com os mais de 760 mil seguidores no Instagram, que acompanham as publicações e encontram sugestões de leitura, em sua maioria, para o público infanto-juvenil. "Vários seguidores já falaram que começaram a ler por minha causa e eu fico muito feliz com essas mensagens. Me sinto honrado por estar levando o hábito da leitura para muitas pessoas", comemora. 

No final de maio, Adriel foi vítima de racismo. "Eu havia postado sobre o livro que tinha acabado de ler, sobre as leitura que faria depois, e tinha uma solicitação de mensagem. Quando eu abri, era essa mensagem em que ele me chamava de 'porco gordo', falou que preto era para estar cavando mina". Sua mãe sugeriu que ele deletasse, mas o jovem expôs a mensagem aos seus seguidores e foi inundado por palavras de apoio: "Várias pessoas mandaram mensagens de carinho, prestigiaram o trabalho que eu estava fazendo". O triste episódio deu ainda mais motivação para Adriel continuar com as postagens, tanto no Instagram, quanto no recém-criado canal no YouTube - na rede social de vídeos, já são mais de 14 mil inscritos. 

Apesar da pouca idade, Adriel já faz leituras com forte representatividade racial. Para o Estadão, recomendou as obras Olhos d'água, de Conceição Evaristo, e Pequeno manual antirracista, de Djamila Ribeiro - ambas autoras negras e referências quando o assunto é o estudo de raças. Entretanto, a leitura infanto-juvenil não fica de fora: "O livro que mais me marcou na vida foi O Pequeno Príncipe. Ele passa uma mensagem muito bonita sobre não querer crescer rápido, aproveitar ao máximo a sua infância. Foi o primeiro livro que minha mãe comprou pra mim, então tem um valor sentimental imenso", completa. 

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