Pandora Filmes
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Filme tunisiano ‘A Amante’ é uma jornada de descoberta e autoaceitação

Coprodutores, os irmãos Dardenne gostaram da simplicidade da história sobre o cotidiano dessas pequenas vidas comuns

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

03 Junho 2018 | 06h00

Mohamed Ben Attia gosta de dizer que seu longa Hedi é produto da primavera árabe. Hedi é o nome do protagonista masculino. Ele leva o que parece uma vida bem comum. A mãe planeja tudo para ele, até o casamento. Às vésperas da união, Hedi tem de fazer uma viagem e conhece uma mulher de temperamento libertário, que o confronta com suas escolhas e estilo de vida. Com o título de A Amante, Hedi estreou na quinta, 31, dois anos depois de vencer duplamente o Festival de Berlim – Urso de prata para melhor filme de diretor estreante e prata também para o melhor ator, Majd Mastoura.

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A Amante foi coproduzido pelos irmãos Dardenne. “Respeito-os, mesmo que não seja um grande fã do cinema deles. Gosto pontualmente de alguns filmes, não de todos. Foi minha produtora tunisiana que estabeleceu a parceria. Eles gostaram da simplicidade da história, não necessariamente da sua dimensão política. Me exortaram a manter a narrativa no cotidiano dessas pequenas vidas comuns.” O que a primavera árabe mudou no cinema da Tunísia? “Na verdade, sempre tivemos liberdade. Podíamos mostrar mulheres fumando, fazendo sexo, e isso era inviável nas demais cinematografias do mundo árabe. Só não se podia criticar o regime de Ben Ali. A decisão de filmar cenas de sexo foi serena. Conversei com os atores e eles concordaram. Nada de sensacionalismo. A ideia era mostrar o sexo de uma forma positiva, como algo que faz parte da natureza humana. Filmei com beleza e respeito o que o elenco fez com simplicidade.”

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Para Ben Attia, A Amante é sobre a família. “Sob certos aspectos a família pode ser muito severa e repressora na Tunísia. Algo como a Máfia, um círculo muito fechado, no qual as decisões são verticais. Se um pai decide que seu filho terá de ser o chefe da família ele não tem escolha. E as famílias são excludentes. Sofri muito porque minha família nunca viu meus amigos com muita simpatia. Só os laços de sangue importam. Hedi no filme faz uma escolha, mas isso não é o mais importante para mim. Se ele se acovardou, se voltou ao esquema antigo. Para mim, o filme narra uma jornada de autoaceitação e descoberta. Hedi toma consciência de tudo, de seus desejos como de suas limitações. Nesse sentido, o filme, como a primavera árabe, marca um avanço.”

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A Amante metaforiza a primavera? “Você não é o primeiro a pensar assim. Talvez seja, e o filme dá conta da mudança.” Passaram-se dois anos e, em maio, o repórter reencontrou Ben Attia no Festival de Cannes. Seu novo filme, Dear Son, integrava a seleção da Quinzena dos Realizadores. De novo uma história de família, mas agora do ângulo do pai. O filho sofre, estressa-se por causa do vestibular – pelo menos é o que o pai pensa. O filho está fazendo sua escolha. Na véspera do vestibular, ele some. Desaparece no mundo árabe, cooptado pelo terrorismo islâmico. Vai ser homem-bomba. A família implode. Mais do que investigar seus motivos, o filme analisa o pai. Outro homem comum submetido a uma pressão visceral. “Para mim, é sobre a responsabilidade de ser pai num mundo em que as redes sociais estão estabelecendo outros modelos de relações afetivas e familiares.

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