Fábio Braga / Dueto Produções
Fábio Braga / Dueto Produções

Filme ‘Paraíso Perdido’, de Monique Gardenberg, faz da música brega seu ator principal

'Paraíso Perdido', cujo elenco conta com Erasmo Carlos, Júlio Andrade, Seu Jorge e Jaloo, estreia nesta quinta, 31

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

30 Maio 2018 | 06h01

Monique Gardenberg estava empenhada em projetos grandes que não andavam. Ficar parada não é do seu feitio. (Seu enteado brinca – diz que a madrasta é viciada em drogas pesadas. Se algo não vai, ela cria um desafio maior ainda.) Monique começou a pensar num filme autoral, popular. E com música, um universo que sempre lhe foi próximo. O brega. Recorreu a um clássico do gênero – Márcio Greyck. Impossível Acreditar que Perdi Você. O sonho de quem sofre de dor de cotovelo: “Venha me dizer sorrindo / Que você brincou / E que ainda é meu / Só meu, o seu amor.”

Colocou a música para rodar. Veio a imagem de uma mulher chorando. Outra mulher chorando. E uma terceira, ainda, mas, dessa vez, a mulher estava toda enfaixada num hospital. Poderia ser uma das anteriores. E veio a quarta – uma mulher cantando. Não uma mulher, um homem vestido de mulher. Naquele momento nasceu Paraíso Perdido, seu longa que estreia nesta quinta, 31. Monique Gardenberg está de volta ao mundo popular. No segundo semestre, filma, em Salvador, Ó Paí Ó 2. Os mesmos personagens, agora na festa de Iemanjá. Os mesmos? Não. Muita coisa mudou, tudo mudou nesse Brasil.

Por acaso o Paraíso Perdido não será o próprio País, que atravessa essa crise medonha? Monique tenta se manter otimista, mas, no fundo, está apreensiva. Paraíso Perdido tem a vocação de obra popular. Sai com 100 cópias, distribuição da Vitrine. Mas o Brasil, que ainda nem saiu dessa crise pavorosa do combustível, terá condições de abraçar esse filme tão bonito? Paraíso Perdido é uma casa noturna do Baixo Augusta.

O dono é Erasmo Carlos, num papel único em sua carreira. De cara, ele convida o público a deixar tudo – a dor, a insatisfação, a realidade – lá fora e se entregar à magia daquele espaço. Uma família de artistas, e o avô apresenta a neta transformista.

Cada um tem seu drama, e canta, porque quem canta seus males espanta. Jaloo, essa figura enigmática – no filme chama-se Imã –, flerta com um cliente. Segue-o na rua, e privada da segurança do seu espaço meio mágico, é agredida. É salva por um anjo, o policial Odair/Lee Taylor, que logo está aceitando o cargo de seu segurança.

Com Odair, penetramos nessa família excêntrica. Júlio Andrade vive a ausência da mulher que sumiu, vítima da violência da ditadura. Odair tem essa mãe que amava o brega – ama –, a ex-cantora Malu Galli, mas ficou surda. Comunicam-se por sinais, e os sinais são a linguagem secreta de muitos, senão todos, esses personagens.

Humberto Carrão, o ambivalente apaixonado de Imã – agride-a, de cara –, reflete. “O filme é sobre esse momento particular, em que todo mundo está saindo do armário. Não é só a questão do sexo. É essa violência muito forte, que está em toda parte. Gostaria muito que o filme fosse visto, e assimilado, porque para mim fala de afeto. Precisamos, nós, brasileiros, de um projeto que nos una pelo afeto.”

Monique, a autora, viu nesses personagens que escaparam ao seu controle, e a possuíram, um vínculo muito forte com a mitologia. “Tudo, nesse filme, o sagrado, o profano, as paixões, para mim dialoga com a tragédia grega. Imã é o meu Tirésias”, diz, referindo-se ao mítico profeta cego de Tebas, que passou sete anos transformado em mulher. Tirésias não precisa dos olhos para enxergar o interior dos outros. Mulher num corpo de homem, Imã/Jaloo, nesse momento de correção política, não deveria ser tratada no feminino? “Gosto de ser homem”, diz Imã, agregando aos mistérios da personagem.

Jaloo veio do Pará e daqui a pouco o espectador brasileiro estará sendo confrontado com outra personagem ambígua, a Valentina Sampaio, que é uma das protagonistas do thriller Berenice Procura, de Allan Fiterman, com Cláudia Abreu e Du Moscovis. Valentina fez história como primeira mulher transgênero a ser capa da Vogue. De onde vêm essas figuras? Havia, imenso, o desafio de tornar não apenas Imã palpável em seu mistério.

O próprio Paraíso Perdido, esse enclave de afeto, é produto de um artifício. Como a seleção musical, o espaço cênico tem de ter sua magia, criada pelos talentos combinados da direção de arte, dos figurinos e da maquiagem. Não tem nada a ver, claro. Nada? Mas o Paraíso Perdido tem alguma coisa da livraria de Felipe Hirsch, um amigo querido de Monique Gardenberg, em Severina. O Brasil virou uma loucura tão grande. Monique horroriza-se com o fascismo que tomou conta das redes sociais Em toda parte há censura, patrulhamento. Espaços alternativos como o Paraíso Perdido viraram focos de resistência.

Finalmente, a pergunta que não quer calar. Como Monique conseguiu reunir esse elenco. O cartaz de Paraíso Perdido reúne bem umas dez caras. Atores novos, veteranos, estreantes. Erasmo Carlos, Júlio Andrade, Seu Jorge, Hermila Guedes, Júlia Konrad, Malu Galli, Jaloo, LeeTaylor, Humberto Carrão. Marjorie Estiano etc.

A própria Monique admite que não foi fácil montar esse elenco. A origem de tudo? “O primeiro nome que pensei? Foi a Hermila (Guedes), como Eva. Nunca ninguém colocou a Hermila como presidiária, assassina. Havia pensado na Marjorie para ser a Celeste, mas aí descobri a Júlia Konrad. Fui agregando. Gente que já conhecia, e admirava, mas com quem não havia trabalhado, como a Malu (Galli). Gente que conhecia da música, e a música é essencial nesse projeto. Seu Jorge, Jaloo. E o Erasmo (Carlos) como o patriarca, José. Adorei filmar naquele lugar, adorei construir essa família. O filme está entregue. Agora, é do público.”

ENTREVISTA: '‘Monique nos transformou em uma família’', diz Jaloo

Como você se integrou a esse elenco?

Foi uma coisa mágica, acho que tinha de acontecer. Vim do interior do Pará, de uma cidade chamada Castanhal. Vim ser produtor musical em São Paulo. Gravava os discos dos outros, mas dei um jeito de colocar a minha voz. Monique (Gardenberg) descobriu meu trabalho meio por acaso. Acho que foi alguém que apresentou a ela. O importante é que Monique sentiu meu potencial, que eu tinha algo para mostrar. Mas daí a colocar no filme... Ela diz que tudo começou com a Hermila (Guedes). Em torno da Hermila, foi montando o elenco. Veio gente da música, do teatro, do cinema, da TV. Acho que o maior mérito da direção foi ter feito o que a Monique conseguiu. Transformou a gente numa família.

O que a Imã tem de seu?

Todo mundo quer saber se a Imã é a Jaloo? Não, é uma personagem. Sou tímido, ela é atirada. Mas tem meu corpo, minha sensibilidade, minha voz. 

 

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