Marcell Rév
Marcell Rév

Filme ‘Lua de Júpiter’ retrata o drama dos refugiados – e muitos outros temas

Numa entrevista realizada em 2017, em Cannes, Kornél Mundruczó admitiu que se trata de seu filme mais complexo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

01 Junho 2018 | 06h00

Talvez o grande desafio de Lua de Júpiter, o longa do húngaro Kornél Mundruczó que acaba de estrear, seja tornar palpável para todos – o cineasta, o público, o ator que faz o papel – o verdadeiro significado da experiência que atinge o imigrante sírio Aryan.

Numa entrevista realizada no ano passado, em Cannes, Mundruczó admitiu que se trata de seu filme mais complexo. “Aborda muita coisa, e não estou muito seguro de que consiga explicar o por quê de tudo. Sob múltiplos aspectos, lancei-me num voo com a mesma perplexidade que você pode flagrar no rosto de Zsombor Jéger (o ator que faz Aryan).”

De cara, ele está tentando entrar ilegalmente na Hungria. Na cena inicial, uma van é detectada pelas forças de segurança e homens, mulheres e crianças iniciam uma fuga desesperada, perseguidos por policiais que usam máscaras e parecem saídos de alguma ficção científica tipo Star Wars.

Aryan é atingido por um disparo e levado para um hospital que é tudo, menos um centro humanitário. Corrupção e violência correm soltas, dando conta do estado do mundo. Nesse quadro, e sem que se saiba exatamente o motivo, ele descobre que adquiriu a capacidade de levitar. Mais do que isso: de voar.

O elemento fantástico fez com que, na competição de Cannes, Lua de Júpiter – ainda mais com esse título –, rapidamente fosse rotulado como ficção científica. Não é, pelo menos não no sentido usualmente atribuído ao gênero. Mundruczó está mais para um teólogo do que para autor de fantasias. Embora ainda reduzida – cinco filmes com esse – sua obra inclui uma atualização do mito de Joana D’Arc (Johanna) e variações sobre o tema do filho pródigo (Delta e Tender Son). Seu filme mais conhecido, no Brasil inclusive, é White Dog, que venceu a mostra Un Certain Regard em Cannes e foi lançado no País como Deus Branco.

Um cão de raça mista. O dono recusa-se a pagar a multa estipulada pelo governo e Hagen, seu nome, é separado da garota Lily, a quem tenta localizar nas ruas de Budapeste. Hagen atrai uma multidão de seguidores mestiços e logo há uma revolta de cães que paralisa (e toma conta) da cidade. Mundruczó utiliza seu cão para retomar a grande revelação do asno Balthazar de A Grande Testemunha, de Robert Bresson, mas ao estilo ascético do autor francês, prefere – e imprime – a violência de Sam Fuller em O Cão Branco, sobre aquele outro cachorro treinado para atacar negros.

O cão branco de Mundruczó, porém, busca a transcendência.

É, de certa forma, o tema de Lua de Júpiter. Aryan voa sobre um mundo que parece resumir o estado de crise de 2017/2018 – religião, racismo, milagre, homossexualidade, a crise dos refugiados, o terrorismo islâmico. O filme engloba tudo. Demais, até. O trabalho de câmera do operador Marcell Rév é prodigioso e o ator Jéger mostra que Aryan talvez pertença a uma longa linhagem de santos inocentes que assombra a cultura ocidental.

ENTREVISTA: ‘Busquei uma linguagem que refletisse o caos’, Kornél Mundruczó, diretor

Como se deu essa nova parceria sua com a roteirista Kata Wéber, de ‘Deus Branco’?

Ela me forneceu seu conhecimento técnico. A história é outra coisa. Remonta à minha juventude. Tinha uns 14 anos quando li o livro O Garoto Voador. Aquilo ficou comigo. Há uns quatro anos fui conhecer um campo de refugiados. A época era anterior à crise atual, mas já me levou a repensar conceitos como Europa e humanidade. Em algum momento, as duas ideias se fundiram no meu imaginário.

Como cineasta você tem de construir imagens no inconsciente do público. Fazer com que as pessoas acreditem...

E nós voltamos ao grande tema da minha juventude. É possível acreditar em tudo o que se vê? A própria religião encara o que pode ser um paradoxo – ver para crer. Lua de Júpiter nasceu com um sentimento de urgência muito grande. Com minha roteirista e, depois, com o diretor de fotografia Marcell Rév busquei criar uma linguagem que refletisse o caos. Sinto essa tensão, essa pressão todo dia em Budapeste. Como obra de arte, o filme está sempre em movimento.

Câmera, atores. O espectador não tem tempo de pensar. 

É o que ocorre hoje conosco. Não temos mais tempo de processar o que acontece conosco. Um cara que voa, por princípio, está acima disso. Muita coisa nesse filme ainda me escapa, mas o que me moveu foi um conceito de humanidade. Não é a história de Aryan, é a do médico. O que é preciso mudar no mundo atual.

Como foi trabalhar com efeitos?

Menos difícil que dirigir os 200 cães de Deus Branco.

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