Odilon Moraes e os (não) limites do livro para a infância
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Odilon Moraes e os (não) limites do livro para a infância

Em 'Rosa', lançamento do premiado autor paulista, nem texto e nem imagem estão um a serviço do outro – as duas linguagens estabelecem uma conversa em que se complementam para oferecer uma emocionante história de uma relação entre pai e filho

Bia Reis

25 de setembro de 2017 | 06h00

Queridos leitores!

A partir desta semana até o fim do mês de outubro, o Estante de Letrinhas terá uma programação especial, em homenagem ao Dia das Crianças. A festa começa aqui e terá ecos no Estadão impresso e na Rádio Eldorado. E uma convidada muitíssimo especial: minha amiga e companheira nos caminhos da literatura Cristiane Rogerio. Formada em Jornalismo em 1996, Cris trabalhou oito anos na Revista Crescer, onde começou sua pesquisa sobre o livro para a infância. Em 2012, lançou Carmela Caramelo, pela Cortez Editora, em parceria com André Neves. Em 2014, passou a dar cursos e palestras sobre o tema e desde 2016 coordena o curso de pós-graduação O Livro Para a Infância, em A Casa Tombada, em Perdizes, São Paulo. Juntas, vamos apresentar novidades do mundo da literatura infantil e juvenil, e discutir temas que permeiam este universo.

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Quando pensamos em um livro para crianças e jovens é o destinatário que geralmente vem primeiro à mente. O “para crianças e jovens” parece que nos dá o território daquela literatura. Mas nem sempre isso está assim tão claro. Há muitos livros que nos provocam a pergunta: mas este aqui é mesmo para crianças? Elas irão entender? Faz parte do interesse delas?

Por que será que nos deparamos com obras assim? Artistas ousados? Editores desavisados? Professores distraídos? Pais que não leram o livro antes? Não. E se pensássemos que a qualidade ou a emoção colocada ali naquele livro está também relacionada ao que o artista está sentindo? Ao que ele quer nos contar, aos assuntos que ele quer tocar, tratar, ao que ele quer falar para o mundo. Mundo. No “mundo das edições de livros”, o livro com ilustrações ou as histórias com narrativas visuais estão fechadas na categoria de literatura infantojuvenil. Mas, para nossa sorte, alguns artistas e algumas editoras não se importam com isso e lançam no mercado obras que podem ser apreciadas por várias idades, várias infâncias.

Há pouco mais de um mês, um livro está mexendo com o universo de quem faz livros para crianças e jovens: trata-se de Rosa, novo livro de Odilon Moraes, autor paulista de dezenas de livros publicados, muitos prêmios e um de nossos grandes pesquisadores do livro ilustrado. Ele chega às livrarias pela Edições Olho de Vidro e nos oferece uma narrativa visual sobre a relação entre um pai e um filho. O livro tem palavras? Tem. Mas nem texto e nem imagem estão um a serviço do outro e, sim, estabelecem uma conversa em que se complementam, se aliam, se costuram para nos oferecer uma emocionante história de uma relação entre um pai e um filho.

Em Rosa, à primeira dupla de páginas vemos um homem com uma mala, em uma estação de trem. Viramos a folha e avistamos uma carroça seguindo para a página seguinte. Antes de continuarmos, um texto nos revela:

“Logo que o filho nasceu, parece que o homem endoidou.”

Pronto, entramos na história: há um pai, há um filho. Na dupla seguinte, um aceno de obrigado, o homem fora da carroça, uma cidade. E o texto segue:

“Vai se chamar Rosa, disse.”

É hora de virar a página mais uma vez e, talvez, o estranhamento já esteja presente:

“Rosa, só Rosa, mais nada. Rosa, igual nome de flor.”

O texto continua, nos dá uma madrugada, uma canoa, a partida de um pai. O vazio. Uma divisão ao meio. Um pra lá e outro pra cá. Só que as imagens nos parecem estar em outro tempo, outro lugar, outra história. Ilustrador há mais de 20 anos, Odilon tem a delicadeza necessária à ponta de um lápis para nos instigar a olhar a palavra e a imagem, como se fizéssemos um zoom para dentro e outro para fora de nós. É um diálogo entre texto e ilustração acontecendo diante de nossos olhos, nos emocionando por meio do projeto gráfico escolhido, ou seja, da lombada de tecido que tocamos enquanto seguramos o livro, do barulho do tipo de papel, dos rabiscos e as aquarelas em preto, branco e tons de marrom.

À primeira lida, não temos muita certeza do que vimos. “O que estou entendendo?”, o leitor pode perguntar. É feito um poema bom: a cada releitura nos encontramos mais e mais com ele.

A relação poética entre pai e filho e entre o autor e nós, leitores, nos envolve na narrativa como um navegar manso de rio. Reconhece-se ali o diálogo de Odilon com o escritor João Guimarães Rosa, um de nossos cânones e mestres da literatura brasileira. Além do nome, Rosa, Odilon conversa com o famoso conto do autor mineiro, o A Terceira Margem do Rio, parte do livro Primeiras Estórias, e que fala sobre um pai que abandona tudo e todos para viver em uma canoa, no meio do rio.

Não à toa, foi o sentimento explosivo da paternidade de Odilon que deu o início deste projeto: ele começa a criar o livro justamente quando descobre que seria pai pela primeira vez, e ao se deparar com esta incerteza. E revê, como acontece com frequência, a relação com o próprio pai que ele descreve um pouco em entrevista à Literartes, revista literária da Universidade de São Paulo (USP): “Eu sempre desenhei, inclusive era uma maneira minha de me relacionar com o meu pai, desenhar junto era a conversa mais profunda que a gente tinha. O meu pai gostava de pintar, o universo da pintura eu herdei dele; eu tinha o meu cavalete e ele tinha o dele”.

Na mesma entrevista, Odilon teoriza sobre seu objeto de pesquisa, o livro ilustrado. “Livro ilustrado como gênero literário nasce a partir de uma visão específica: com o desenho se escreve. Isso é a base de tudo”, diz o autor, que é também professor de cursos sobre o tema. “O adulto está acostumado a pensar que imagem é redundância, está acostumado a renegar a imagem e, quando ele percebe que a imagem não está contando o que a palavra está falando, é despertado para prestar atenção na imagem. A criança, por sua vez, está acostumada a ler imagem e assim aprende a ler palavras.”

Como que explorando esta “terceira margem da leitura”, uma ainda não vivida, não comum, não habitada, Odilon nos estimula a destilar conversas: entre texto e imagem, entre um escritor contemporâneo e um escritor clássico, entre a “literatura para crianças” e a “literatura adulta”. Dá vontade de não querer mais margem alguma: que os limites impostos por nossas regras sejam atravessados pela arte ou que, pelo menos, possamos nos questionar. Que os diálogos sejam possíveis e praticados. Entre a poesia e a vida. Emocionar-se, afinal, vale a pena.

Rosa
Autor: Odilon Moraes
Editora: Edições Olho de Vidro
Preço: R$ 49,90

Odilon já esteve muitas vezes nesta Estante de Letrinhas, como com o maravilhoso Lá e Aqui, em parceria com Carolina Moreyra, e o HQ Mônica, de Mauricio de Sousa.

(Bia Reis e Cristiane Rogerio)

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