Alexandre Rampazo e seu ‘Pinóquio – O Livro das Pequenas Verdades’
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Alexandre Rampazo e seu ‘Pinóquio – O Livro das Pequenas Verdades’

Após ser premiado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e receber o Troféu Monteiro Lobato de Literatura Infantil, autor lança neste sábado, em São Paulo, livro em que dá vida ao famoso boneco de madeira

Bia Reis

29 de junho de 2019 | 06h00

A literatura infantil entrou na vida no então diretor de arte Alexandre Rampazo como uma forma de extravasar o desejo de ilustrar, que parece ter nascido com esse paulistano de 48 anos que vem emplacando um livro – e um prêmio – na sequência de outro. No mês passado, foi premiado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) nas categorias Melhor Livro para Criança e Melhor Projeto Editorial, por Se Eu Abrir Esta Porta Agora… (Sesi-SP). Dias depois, recebeu o Troféu Monteiro Lobato de Literatura Infantil, da revista Crescer. Agora, Rampazo se prepara para lançar neste sábado, 29, Pinóquio – O Livro das Pequenas Verdades (Boitatá).

Alexandre Rampazo

O escritor e ilustrador Alexandre Rampazo. Crédito: Hélvio Romero/Estadão

A imagem sempre esteve presente na vida de Rampazo, que publicou ao longo da carreira 64 livros, entre os autorais e os que assina como ilustrador. Primeiro, nas histórias em quadrinho que lia quando garoto, paixão que herdou de um primo que guardava gibis em uma grande caixa no quarto. Depois, nas disciplinas de Publicidade, faculdade que cursou e que lhe deu a profissão que exerceu em grandes agências por dez anos. Veio então a literatura infantil, por meio das sugestões que chegavam nas listas de livros da escola das filhas e de um convite quase despretensioso para ilustrar uma primeira obra. Na época, o trabalho foi um jeito do diretor de arte ganhar um dinheiro extra fazendo algo que gostava. Era o fim dos anos 1990.

As palavras também acompanharam Rampazo desde menino. Depois de descobrir os HQs do primo, passou a comprar um título por mês e a trocar com dois amigos, em uma espécie de clube informal de HQ. Com 8 anos, começou a escrever suas primeiras histórias – e ilustrá-las. “Eu me alimentava das histórias em quadrinho e criava meus personagens”, lembra.

Os livros tornaram-se mais presentes em casa quando a mãe, leitora habitual de best-sellers, assinou o Círculo do Livro, nos anos 80. Mas sua aproximação com a literatura se deu mesmo perto dos 15 anos, quando um amigo lhe emprestou Cadeiras Proibidas, de Ignácio de Loyola Brandão. “Minha cabeça explodiu. Percebi, então, que dava para contar histórias de um jeito diferente”, diz.

Imagem de ‘A Menina e o Vestido de Sonhos’. Crédito: Reprodução

Ilustrando obras de outros escritores, Rampazo foi se aproximando da literatura infantil e, ao mesmo, se desinteressando da publicidade. Até que em 2008 publicou seu primeiro livro em que assina texto e ilustrações, A Menina que Procurava (Editora Larousse Júnior), e um ano depois A Menina e o Vestido de Sonhos (Editora Larousse Júnior). Em 2011, assinou sua primeira obra exclusivamente como escritor, Um Universo Numa Caixa de Fósforos, com ilustrações de Cátia Chien (Panda Books). E, três anos depois, A Princesa e o Pescador de Nuvens (Panda Books), livro que encerra o que pode ser considerada a primeira fase de sua carreira como autor.

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Nesses seis primeiros anos, os livros de Rampazo são o que é chamado na literatura infantil de livro com ilustração. O foco está no texto, e a história pode ser compreendida sem as ilustrações. E não só o autor era outro, o mercado também. “Era uma época diferente. As editoras estavam muito abertas para receber o novo. Havia grande demanda de publicações, por causa das compras governamentais”, afirma Rampazo.

Depois de publicar A Princesa e o Pescador de Nuvens, Rampazo viveu um período de angústia, como ele próprio descreve. “Era um autor à procura de uma voz”, diz. No caminho por essa busca, a produção ficou em suspenso. No lugar da escrita e da ilustração, cursos, imersões, inspirações e novas referências. Entraram André Neves, Lúcia Hiratsuka, Odilon Moraes, Fernando Vilela, Ciça Fittipaldi, Ionit Zilberman, Raquel Matsushita e Aline Abreu. “No início, não queria saber o que os outros autores faziam porque queria ser original. Hoje, penso diferente. Toda narrativa é um deslocamento de uma narrativa anterior.”

Rampazo se abriu para o novo e encontrou sua voz no livro ilustrado, tipo de obra em que palavras e imagens se relacionam para contar a história. “Descobri que não precisava trabalhar o texto incansavelmente e encontrei o equilíbrio entre imagem e palavra. No livro ilustrado são outras camadas de leitura, outros alcances.”

Imagem de ‘A Cor de Coraline’. Crédito: Reprodução

Desse encontro com a nova voz, nasceram novos livros, como Este é o Lobo (2016, DCL), A Cor de Coraline (2017, Rocco), Aqui Bem Perto (2018, Moderna), Se Eu Abrir Esta Porta Agora… (2018, Sesi-SP), A História do Pássaro e o Realejo (2019, Tricoleca) e o lançamento Pinóquio – O Livro das Pequenas Verdades (2019, Boitatá).

‘Se Eu Abrir Esta Porta Agora…’. Crédito: Bia Reis/Estadão

Em comum, eles trazem uma nova escrita, mais sucinta e direta, um novo traço, agora bem característico, maior preocupação com o projeto gráfico e uma descoberta da materialidade do livro enquanto objeto. Se Eu Abrir Esta Porta Agora…, por exemplo, é uma obra sanfonada em que a leitura se dá por meio do abrir de sucessivas portas (cada página é uma porta). Trata-se de um “livro infinito”: ao terminar a leitura, o leitor precisa virar a obra de ponta-cabeça e recomeçá-la. Os novos livros renderam a Rampazo uma série de premiações da FNLIJ, entre elas o selo altamente recomendável, e também o selo Cátedra Unesco, além de indicações ao Prêmio Jabuti.

‘Pinóquio – O Livro das Pequenas Verdades’. Crédito: Reprodução

Em Pinóquio, Rampazo mais uma vez faz do livro um suporte para a história que quer contar. Para produzi-lo, voltou-se à história original, escrita em 1881 pelo italiano Carlo Collodi, pois suas referências eram animes dos anos 80 e a clássica versão da Disney. O gatilho para a criação foi uma imagem que havia criado em 2016 do nariz do boneco de madeira crescendo, e ela se juntou aos questionamentos sobre mudança e adequação, que surgiram depois de rever o filme Blade Runner. “Foi justamente o que aconteceu com o Pinóquio. Ele precisou se adequar ao que estava ao redor para ser aceito, teve de deixar de ser boneco de madeira e virar menino.”

Imagem de ‘Pinóquio – O Livro das Pequenas Verdades’. Crédito: Reprodução

Na história de Rampazo, a mentira não está no centro – “assim como não era na narrativa original”, reforça o autor. Aqui, Pinóquio é colocado em frente a um espelho e o que vê é um boneco de madeira. A cada virar de páginas, Pinóquio se imagina sendo outro personagem. Pensa que, se fosse Gepeto, seria bondoso e justo. Se fosse o Grilo Falante, seria inteligente, responsável e conselheiro. E se fosse um mestre de marionetes, o Senhor Raposo ou o Senhor Gato? E se Pinóquio tivesse um poder mágico e pudesse se transformar em qualquer coisa ou viver qualquer sonho, como seria?

Na construção da história, Rampazo transforma a margem que divide as duas páginas, direita e esquerda, no espelho e trabalha com repetições – de imagens e de frases -, ditando o ritmo de leitura. O livro guarda ainda uma surpresa (que não, não vou revelar!), brinca com a imaginação e a realidade e faz o leitor pensar em que é e em quem gostaria de ser.

Serviço
Pinóquio – O Livro das Pequenas Verdades
Autor: Alexandre Rampazo
Preço: R$ 44
Editora: Boitatá

Lançamento
Sábado, 29 de junho, a partir das 16 horas
Livraria Blooks, no Shopping Frei Caneca

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