Coluna Dá o Play: Podcasts curtos

Aos poucos, o formato e o tempo dos podcasts foram se diversificando, o que, na minha opinião, é ótimo para movimentar o mercado

Guilherme Sobota, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2020 | 05h00

Há alguns anos, o podcast como gênero começou a decolar no Brasil e, nesse período inicial, boa parte da produção pensava no tempo dos programas como um fator decisivo: e ele geralmente é, dependendo do tipo de assunto que aborda e com que estrutura, tanto interna quanto de produção. Aos poucos, o formato e o tempo dos podcasts foram se diversificando, o que, na minha opinião, é ótimo para movimentar o mercado e criar um ecossistema mais sustentável e interessante.

Ainda há espaço, porém, para um tipo específico de programa: o muito curto. Coisa de 3 a 5 minutos, o tempo de ler uma crônica, um poema, seu horóscopo, dar dicas de meditação, mesmo uma receita, ensinar a fazer um drink, comentar notícias, enfim, o espectro é amplo e como venho dizendo neste espaço há algumas semanas, a premissa de um podcast muitas vezes é mais de meio caminho andado em direção a um bom programa.

O primeiro podcast que me chamou atenção com esse formato foi o excelente Film Reviews, da KCRW, subsidiária da NPR, a rádio pública americana. O podcast é apresentado por Joe Morgenstern, crítico de cinema do The Wall Street Journal e vencedor de um Prêmio Pulitzer, em 2005, pelo seu trabalho crítico sobre os filmes Farenheint 9/11, de Michael Moore, e A Paixão de Cristo, de Mel Gibson. Elegante e incisivo, o apresentador resenha em programas de 3 a 4 minutos os filmes da semana, dedicando um episódio inteiro a cada novo lançamento.

“Um filme nunca combinou tanto com o seu momento. Destacamento Blood, de Spike Lee, é um grito eloquente de raiva e angústia negra, para uma temporada sísmica”, diz em um dos episódios recentes. Depois: “O tom é lúcido e divertido enquanto os veteranos se juntam e fazem festa em Ho Chi Minh, mas a essência da história diz respeito a vidas negras. Quanto elas importam, o que elas entregaram e receberam de volta da nação que as enviou à guerra?”. O crítico segue então desvendando parte do encanto do novo filmaço do diretor de Faça a Coisa Certa. Sem trilha sonora, sem cortinas de edição, sem vinheta. Apenas um: “Meu nome é Joe Morgenstern, crítico de cinema do The Wall Street Journal”. E está pronto.

Um programa brasileiro que também usa o formato curtíssimo é o Beijo no Cérebro, apresentado pelo jornalista Marco Bianchi – célebre na minha geração como o comentarista do saudoso Rockgol, da MTV. Quem curtia as piadas sem noção no divertido programa de futebol das estrelas na TV, pode se surpreender com a abordagem um pouco mais séria das notícias da semana e outros assuntos políticos contextuais, comentados pelo jornalista aqui, mas não vai estranhar seu característico bom humor.

Não é possível deixar passar, também, a intenção de Bianchi em oferecer uma discussão “centrada”, nas suas palavras, para o ambiente do debate político brasileiro atual, vítima de uma polarização muito acentuada nos últimos anos (e também assimétrica, como define o professor de filosofia moderna e contemporânea no Departamento de Filosofia da PUC-Rio, Rodrigo Nunes, num texto bastante elucidativo publicado na serrote #34, de março, Todo Lado Tem Dois Lados).

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