Andre Chung/Washington Post
Andre Chung/Washington Post

Spike Lee revisita 'Faça a Coisa Certa' em protesto à morte de George Floyd

Essa não é a primeira vez que Lee usa imagens do filme para chamar atenção para acontecimentos

Sonia Rao, The Washington Post

01 de junho de 2020 | 18h43

Spike Lee sabe da relevância do seu filme Faça a Coisa Certa (1989).

O diretor vencedor do Oscar compartilhou um curta no domingo, 31, à noite, chamado 3 Brothers (três irmãos), conectando a morte de Eric Garner e George Floyd, homens negros mortos pela polícia, e Radio Raheem, um personagem assassinado no filme. O vídeo de 94 segundos corta entre a morte na tela de Radio Raheem e as imagens captadas por celulares de policiais sufocando Garner, que morreu seis anos atrás, e Floyd, morto semana passada. Antes do seu assassinato em 25 de maio, Floyd repetiu as palavras finais de Garner: "não consigo respirar".

Lee divulgou o curta durante uma entrevista na CNN americana, em que ele disse ao jornalista Don Lemon que "o ataque a corpos negros esteve aqui desde o início". Ele disse que, enquanto não necessariamente apoia a violência, entende por que as pessoas estão regindo à morte de Floyd — bem como a outros casos de violência policial — da maneira como estão. Os protestos acontecendo por todos os Estados Unidos "não são novidade", disse Lee. "Nós vimos isso com os tumultos nos anos 1960, com o assassinato do Dr. Martin Luther King. Toda vez que algo aparece e não temos justiça, as pessoas reagem da maneira que acham necessário, para serem ouvidas."

"O povo está de saco cheio, e o povo está cansado da degradação e do assassinato de corpos negros."

Os quatro policiais de Minneapolis envolvidos na morte de Floyd foram demitidos no dia seguinte, mas não foi antes de sexta-feira, 29, que Derek Chauvin, filmado pressionado seu joelho sobre o pescoço de um algemado Floyd, foi preso e acusado de sua morte. Ano passado, depois de quase meia década de procedimentos legais, o Departamento de Justiça decidiu não mover ações contra ninguém envolvido na morte de Garner — inclusive Daniel Pantaleo, o ex-policial de Nova York visto em vídeo com seu braço ao redor do pescoço de Garner.

Os protestos depois da morte de Floyd levantaram questões que, como Lee ressaltou, já apareceram muitas vezes: "Por que as pessoas estão protestando? Por que as pessoas estão fazendo isso e aquilo?" Em Faça a Coisa Certa, Radio Raheem (Bill Nunn), que é talvez o centro moral do filme quando fala com Mookie (Lee) sobre a luta entre amor e ódio, é asfixiado até a morte nas mãos de um policial de Nova York em meio a uma briga na pizzaria local, de donos brancos. Depois desse clímax, Mookie joga uma lixeira através da janela da pizzaria, iniciando um motim que leva a novas prisões.

Na CNN, Lee criticou as resenhas iniciais que alegavam que o filme iria encorajar a formação de tumultos. (Ele também falou sobre isso no 25.º aniversário do filme, dizendo à Rolling Stone que ele não se lembrava de "pessoas dizendo que outros iam começar a se matar depois de ver filmes de Arnold Schwarzenegger".) Depois que Lemon pediu a Lee para responder acusações feitas hoje em dia contra figuras públicas como ele, que dizem que entendem a forma dos protestos, ele disse que "a razão pela qual as pessoas estão nas ruas é porque pessoas negras estão sendo assassinadas a torto e a direito. Não tem nada a ver comigo ou com você".

Essa não é a primeira vez que Lee revisita Faça a Coisa Certa para chamar atenção para acontecimentos. Depois que Garner morreu em 2014, Lee compartilhou outro vídeo comparando as cenas gravadas em celular com a morte de Radio Raheem. O filme mesmo foi inspirado na vida real, de acordo com Elahe Izadi, do The Washington Post, que destacou que ele acaba com uma dedicatória às "famílias de Eleanor Bumpurs, Michael Griffith, Arthur Miller, Edmund Perry, Yvonne Smallwood e Michael Stewart", moradores negros de Nova York assassinados antes do lançamento do filme.

Com uma camiseta com o número "1619", uma referência ao ano em que os primeiros africanos escravizados foram levados às colônias inglesas, Lee disse a Lemon que "sempre foi assim, e agora nós temos câmeras".

"A fundação dos Estados Unidos da América foi construída sobre o roubo de terras dos povos nativos e o genocídio, casado com a escravidão", disse. "George Washington, o primeiro presidente, teve 123 escravos. Então isso não é nada novo. E o povo está por aqui." / Tradução Guilherme Sobota

Veja o curta-metragem que Spike Lee compartilhou nas redes sociais:

 

 

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