Marcelo Castello Branco
Marcelo Castello Branco

Cantora Indiana Nomma revaloriza Mercedes Sosa com um canto que transborda fronteiras

Artista nascida em Honduras, onde os pais estavam exilados para não morrerem pelas mãos da ditadura brasileira, Indiana faz apresentação às 21h desta sexta (2), no YouTube da casa Blue Note

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2021 | 13h07

Indiana Nomma não tinha quatro anos em 1980 quando foi levada pelos pais à Plaza de la Revolución Sandinista, em Manágua, Nicarágua, para assistir a um show de Mercedes Sosa. Vivia com pai e mãe exilados, o sociólogo e jornalista Clodomir Santos de Morais e a militante e educadora Celia Lima, longe do Brasil, uma terra de prisões, tortura e mortes. Mercedes estava ali para testemunhar o florescer da alfabetização pelos interiores da Nicarágua, na qual sua mãe trabalhava como alfabetizadora.

A vida de Indiana só parecia curta. Até então, ela já havia nascido em Honduras, em 1976, lugar para onde os pais foram depois de Clodomir ser preso pela ditadura brasileira, torturado e confinado na mesma cela em que estava o educador Paulo Freire, e vivido no México, para onde saíram todos às pressas também por perseguições políticas do governo hondurenho. “Filha, se eu pedir pra você correr, você corre, mesmo que eu não esteja correndo atrás de você. E não olhe para trás”, pediu a mãe, um dia, agachada à sua frente. A rota do exílio parecia não ter fim.

Mas lá estava Indiana nos ombros do pai, sentindo algo que os adultos que corriam tanto não podiam explicar assim que Mercedes começou a cantar e a fez entender o que realmente importava. A voz grande de La Negra entrou e se hospedou à espera do dia em que ela também, Indiana, pudesse cantar. Quarenta e um anos depois, e contrariando os desejos do pai, Indiana Nomma tem em Mercedes a base de uma consciência social exuberante e da criação identitária de seu eixo musical mais forte. Ela canta jazz com uma soltura de engrandecer Billie Holiday e reduz-se para honrar a bossa nova ao lado do pianista Osmar Milito, mas é a melhor de todas em si mesma quando evoca a voz latino americana. “Eu não sei explicar, é como se outra entidade tomasse conta de mim.”

Com três álbuns e um tributo a Mercedes Sosa que faz há 21 anos por países como Argentina, Itália e Alemanha, além do Brasil, Indiana, que hoje vive no Rio, faz nesta sexta (2), às 21h, a apresentação com o repertório da maior voz do canto argentino que será transmitida pelo YouTube da casa Blue Note. Estará ao lado do violonista gaúcho André-Pinto Siqueira.

É o mesmo repertório que apresentou no Teatro Opera de Buenos Aires, em 2019. “Eu tive uma crise no avião antes de chegar lá. Quase voltei. Pensava que seria muita ousadia cantar Mercedes Sosa aos argentinos.” Mas Indiana foi e, ao ser anunciada como "cantora brasileira", chegou a ouvir alguns sussurros de reprovação da plateia. Ao começar a cantar Gracias a La Vida, ouviu um silêncio imediato e, depois de seguir por um pouco mais de um minuto, espantou-se com uma explosão de palmas e de pessoas em lágrimas. Entendeu que a reação era por imagens mostradas no telão que ficava às suas costas e, ao final, perguntou à produção o que haviam mostrado. O telão sequer foi ligado. O choro e as palmas eram todos para ela.

 

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