Paulo Guimarães/Eldorado
Paulo Guimarães/Eldorado

Um pianista preto ajudou a dar à luz a bossa nova. Sua história quase nunca é contada

Embora Johnny Alf nunca tenha alcançado o estrelato, as lendas do gênero sempre o viram como um guru musical

Beatriz Miranda, The New York Times

06 de agosto de 2020 | 11h00

Chega de Saudade, clássico de João Gilberto, muitas vezes é considerado o primeiro álbum da bossa nova. Mas, sete anos antes de seu lançamento em 1959, um músico brasileiro conhecido como Johnny Alf compôs Rapaz de Bem. A música incorporava vários elementos que se tornaram marcas do gênero: a melodia linear, o jeito suave de cantar, uma série de escalas pouco convencionais, uma dissociação rítmica de bateria e baixo.

Pianista, cantor e compositor, Alf ousou misturar em seu processo criativo referências da música clássica e popular, estrangeira e nacional. A fonte de sua inspiração se encontra na música de Chopin, Debussy, Nat King Cole, Stan Kenton e nos notáveis brasileiros Custódio Mesquita e Francisco Alves. Sua música atraiu os ouvidos mais avant-garde para os piano bars do bairro de Copacabana, no Rio, onde ele se apresentava regularmente no início dos anos 1950.



Antônio Carlos Jobim, também conhecido como Tom, e Gilberto - os dois dos nomes mais famosos da bossa nova - estavam entre os fiéis habitués que ficaram surpresos com músicas como Rapaz de Bem, uma das primeiras composições profissionais de Alf e, como o radialista e produtor musical Ramalho Neto argumenta em Historinha do Desafinado, seu livro de 1965, a primeira música da bossa nova.

Alf morreu há uma década, aos 80 anos de idade. Em suas seis décadas de carreira, compôs mais de oitenta canções, algumas gravadas com gigantes como Caetano Veloso e Chico Buarque. Mas, ainda que seu protagonismo seja bem aceito por estudiosos, artistas e críticos, por que ele não é mais reconhecido pelos ouvintes como pioneiro de um dos gêneros brasileiros mais apreciados de todo o mundo?

Assim como sua música, a história de Alf é complexa. Ele nasceu Alfredo José da Silva, filho de uma empregada doméstica preta. Seu pai morreu quando ele tinha 3 anos. Boa parte de sua educação musical veio dos empregadores de sua mãe - uma família de classe média alta que ajudou a criá-lo e pagou por suas aulas de piano, embora, tempos depois, tenha desaprovado veementemente sua carreira nas boates. (Eles esperavam que Alf se tornasse contador ou professor de inglês).

Mas a música já era intrínseca à vida de Alf muito antes de sua estreia nos clubes noturnos de Copacabana. Quando era apenas um estudante de ensino médio, foi convidado a tocar piano no Instituto Brasil-Estados Unidos (IBEU), no centro do Rio. As sessões no espaço lhe renderam seu primeiro show na rádio e geraram o seu nome de artista: um colega sugeriu “Johnny” por ser um nome popular nos Estados Unidos, e “Alf” era seu apelido na escola.

Em 1949, Alf, conhecedor de música americana, ingressou no Sinatra-Farney Fan Club, um lugar para apreciar, discutir e tocar a música de Frank Sinatra e Dick Farney, um pianista e cantor brasileiro que se inspirava na estrela americana. Foi ali que a música de Alf começou a florescer e seu som desenvolveu uma modernidade impressionante. Segundo José Domingos Raffaelli, crítico de música e ex-membro do Sinatra-Farney, Alf costumava se apresentar por horas e horas, e os ouvintes imploravam para que ele não parasse de tocar. Em 1952, graças a uma recomendação do próprio Farney, Alf conseguiu seu primeiro emprego num piano bar de Copacabana chamado Cantina do César.


 


Três anos depois, Alf se mudou para São Paulo com a promessa de ganhar melhor. Naquela época, ele era um músico independente, com cerca de 20 anos, sem apoio da família. Em 1958, quando a bossa nova ganhava impulso no Rio, Alf estava a 430 quilômetros de distância - o suficiente para ficar de fora do movimento.

Mas a distância não era a única barreira que Alf enfrentava. João Carlos Rodrigues, autor de Johnny Alf: duas ou três coisas que você não sabe, acredita que a sofisticação da música de Alf era um obstáculo significativo, porque as rádios e gravadoras preferiam uma música mais “digerível”.

Marcos Napolitano, professor de história social da Universidade de São Paulo que pesquisa movimentos musicais no Brasil, concorda. “É inegável que o trabalho de Alf foi mais sutil, íntimo e sofisticado”, disse ele numa entrevista por e-mail. “Além disso, era um artista tímido e reservado”.

A personalidade de Alf nos bastidores - onde ele insistia ousadamente na liberdade criativa - também o limitava. “Ninguém me chamava para gravar porque eu só fazia o que queria”, disse ele a Rodrigues.

Nelson Valencia, que administrou a carreira de Alf por mais de vinte anos, disse numa entrevista por telefone que Alf não corria atrás das oportunidades, só esperava que elas aparecessem. Ele acrescentou que seu cliente também poderia ter se esforçado mais para explorar os crescentes mercados japonês e americano.

Em 1963, Alf gravou um álbum em inglês (com composições de Jobim) que nunca foi lançado. No fim dos anos 70, quando Sarah Vaughan, um de seus maiores ídolos, convidou-o para viajar pelos Estados Unidos, sua mãe de santo - a sacerdotisa da umbanda, a religião afro-brasileira da qual era devoto - disse para ele recusar o convite e ele recusou.

 


Alf também era preto, pobre e gay numa indústria que queria atrair públicos brancos e ricos. Napolitano disse que, no fim dos anos 50, a indústria da música via na bossa nova uma chance de competir com o rock ‘n’ roll americano, e Valência reconheceu que as desigualdades de raça e classe dificultaram a ascensão de Alf: “Houve um movimento para promover Tom Jobim, que era rico, branco, jovem, bonito”, disse ele, acrescentando que, com as habilidades de Alf, “talvez ele fosse alguém que pudesse ofuscar Tom Jobim”.

O talento de Alf, disse Rodrigues, também pode ter sido um problema para Aloysio de Oliveira, um influente produtor de bossa nova que estava particularmente interessado em promover Jobim e Gilberto nos Estados Unidos. Alf foi excluído do concerto histórico Bossa Nova no Carnegie Hall, organizado por Oliveira e realizado em Nova York no ano de 1962.

Alaíde Costa, a cantora favorita de Alf, disse que o racismo na bossa nova sempre foi velado, a ponto de pretos como ela e Alf nem perceberem que estavam enfrentando discriminação. “Quando o movimento começou, eu já era profissional. Era convidada para os encontros porque podia ajudar o movimento de alguma maneira”, disse ela numa entrevista por telefone. “Mas, quando a bossa nova explodiu, senti que não era mais necessária”. Ela acrescentou que lamenta não ter feito parte do movimento de maneira mais incisiva.

Embora Alf nunca tenha alcançado o estrelato, as lendas do gênero sempre o viram como um guru musical. Jobim não apenas o chamava de Genialf (uma combinação de “gênio” e “Alf”), mas se sentiu tão inspirado por Rapaz de Bem que compôs Desafinado, uma das músicas mais famosas da bossa nova. Quando Gilberto percebeu que as síncopes incomuns de Alf o lembravam da batida do tamborim (um instrumento de percussão de samba), ele disse que finalmente encontrara o que estava procurando.

Alf, no entanto, continuou alguns passos fora dos holofotes. Nas palavras de Valência, ele era “seu próprio herói e seu próprio vilão”.


TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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