John Marshall/Handout via REUTERS
John Marshall/Handout via REUTERS

Análise: Em 'Sour', Olivia Rodrigo faz um estudo do seu eu instável

Em seu excelente álbum de estreia, a cantora e atriz de 18 anos expressa o quão desafiador é chegar a quem você é

Jon Caramanica, The New York Times

27 de maio de 2021 | 20h00

Nos últimos meses, Olivia Rodrigo tem burilado uma história sobre um jovem amor que não deu certo. Entre a balada cheia de cadências Drivers Licenceseu single de estreia de enorme sucesso e que foi para o topo do Billboard Hot 100 onde permaneceu por oito semanas – e a melancólica Deja Vu, ela se concentrou na agonia do colapso e o nervosismo de ver seu antigo parceiro se renovar. Um fenômeno tão horrível quanto familiar.



Como aquelas músicas, Enough for You – do seu excepcional e variado álbum de estreia, Sour (Geffen), tem a ver com a disputa entre a narradora e a mulher que a substituiu nos olhos e braços do seu ex. Mas na realidade é um outro tipo de competição: uma disputa entre as versões do nosso “eu” pelas quais todos nós transitamos, dependendo do que está em torno.

Olivia Rodrigo começa com uma confissão retrospectiva: “Eu usava maquilagem quando namorávamos porque achava que ele gostaria mais de mim/se eu parecesse as outras rainhas do baile que eu sei que ele amou antes”, A partir daí, a música é uma elegia de uma pessoa que não serve mais. Olivia canta com uma voz trêmula sob o som de uma guitarra acústica relutante. “Não quero sua simpatia”, ela conclui, “Quero apenas meu eu de volta”.

Em Sour, ao mesmo tempo um pop suave e um punk cortante, o estudo real de Olivia Rodrigo é do seu eu instável, a maneira em que as pessoas – jovens especialmente, mas não exclusivamente – se contorcem nos moldes dispostos diante delas. Tem a ver com o custo de ser o gesso, não o molde.

Para Olivia, 18 anos, que vem apresentando versões alternadas dela mesma em público pelo menos desde a primeira temporada de Bizaardvark, do Disney Channel, em 2016, este é um tema natural. Ela é uma excelente pop star da era das personalidades, subpersonalidades e metapersonalidades; das contas falsas de Instagram e spams; de se tentar e descartar novas identidades à medida que se segue em frente. Sour é um álbum sobre aceitar fins alternativos e aceitar quem você se torna quando tem de trocar uma ideia sobre si mesmo por outra, sempre continuando com um sorriso, uma carreira, ou várias.

Olivia teve de fazer tudo isso diante de refletores inusitadamente repentinos e intensos. Apesar de ela ser um esteio da Disney há anos, mais recentemente como Nini Salazar-Roberts, a jovem protagonista de High School Musical: The Musical: The Series, o sucesso de Drivers License resultou num crescimento exponencial e num malabarismo dos muitos “egos” de Olivia. Além da autêntica e imutável personalidade interior, há a artista de um musical, a Olivia espetáculo público, objeto de interesse crescente dos tabloides. E temos então Olivia Rodrigo como Nini, e Nini como Gabriela (personagem de High School Musical que ela interpreta no musical dentro da série), Cada uma delas tem uma narrativa distinta. Cada uma compreende uma parte de como Rodrigo navega – e é vista – pelo mundo.

Isto hoje vem ocorrendo com todo mundo – nas redes sociais as adolescentes com frequência oferecem múltiplas narrativas, apresentando versões diferentes delas mesmas para grupos diferentes de pessoas. Modular constantemente a identidade de alguém hoje é a norma; a ideia do eu totalmente centrado e fixado nele mesmo talvez tenha acabado para sempre.

Em Sour, Olivia trabalha através dessa evolução em tempo real. Em Drivers License ela ainda é instável quanto ao que pode se tornar. “Hoje dirigi pelos subúrbios/E imaginei que estava me dirigindo até você”, incapaz de se soltar. Em Deja Vu – e especialmente no vídeo da música que mostra Olivia espionando sua substituta sósia – ela está freneticamente estressada ao ver como o novo relacionamento do seu ex é similar aos deles: “Quando você vai dizer a ela que nós fizemos isso também?” E no final da música ela começa a sucumbir à ideia de que talvez sua experiência não era tão original: “Odeio pensar que eu era apenas o seu tipo”.

 


Seus amantes estão fazendo esse tipo de jogo também. “Que amante vou conseguir hoje? /Você vai me levar até a porta ou me mandar para casa chorando? Ela suspira tendo ao fundo um piano suave em 1 Step Forward, 3 Steps Back. E é em Drivers License que essa realização se cristaliza: “Acho que você não quis dizer aquilo que escreveu naquela música sobre mim”, ela sussurra.  

O malabarismo de Olívia também está incorporado nas suas escolhas musicais em Sour, que foi composto quase que inteiramente por ela e produzido quase que inteiramente por Dan Nigro, que pertenceu à banda As Tall as Lions. Ela reivindica o direito ao eu dividido no topo do álbum, no espetacular Brutal, que começa com alguns segundos de cordas sóbrias antes de ela declarar, “Quero que seja assim, desordenado”, o que então se torna. Esse cabo de guerra persiste durante o álbum inteiro: mais músicas refinadas, como os singles e o emocionante Good 4 U , atropelando com outras mais cruas como Enough for You e Jealousy, Jealousy.

Traitor, um dos pontos altos do álbum, é uma música forte, que chega a ser bombástica. “Fiquei quieta, assim consegui manter você”, ela confessa, antes de chegar a uma maneira elegante de compreender, mesmo não aceitando muito, como alguém que a amou mudou. “Acho que você não traiu, mas ainda assim é um traidor”.

Esse tipo de composição é emblemático do que Olivia aprendeu com Taylor Swift neste álbum. (que, em resumo, é o retrato do início de Swift com Red): focar na linguagem precisa de uma situação emocional complexa, imprecisa; e trabalhar por meio de histórias privadas que viram públicas.

Há um resíduo de Swift em Sour – seja a maneira que 1 Step Forward, 3 Steps Back intercala com New Year’s Day, ou as canções em Deja Vu. Mas na verdade, Swift persiste na sua própria perspectiva, que é implacavelmente interna,  ao passo que Olivia  rompe com ela em vários momentos no álbum, como em Jealousy, Jealousy, onde ela retrocede para avaliar os danos para a própria imagem que a mídia social inflige: (Quero tanto ser você e nem mesmo o conheço/Tudo o que vejo é o que eu deveria ser) e na faixa final, Hope Ur OK, uma conversão melancólica que é integralmente compassiva, mas tematicamente fora de compasso com o resto do álbum.


 


Na primeira temporada de High School Musical: The Musical: The Series, Olivia Rodrigo teve uma plataforma segura para mostrar seu desenvolvimento criativo como Nini. No final desses episódios, que foram ao ar no final de 2019 e começo de 2020, Nini conquistou o papel de proa no musical e finalmente entrou num relacionamento com seu amigo Ricky (Joshua Bassett). (Os primeiros singles de Olivia foram dissecados para se encontrar vestígios apontando para a rumorosa relação na vida real com Basset).

“HSMTMTS, que é em parte é estruturado como um documentário fictício, é uma exploração encantadoramente cintilante da metamorfose de adolescente. Como Hannah Montana antes, é sobre as maneiras como os adolescentes estão constantemente improvisando, para o melhor e para o pior. Mas durante a era do Disney Channel, a estrela de Hannah Montana, Miley Cyrus,  tinha muito menos acesso direto aos seus fãs, do que Olivia, que se comunica com eles diretamente pelo TikTok e o Instagram.

Isso significou que a vida pública e de artista estão começando a deixar para trás sua vida antiga da televisão. Na última temporada, quando Nini estava com problemas de confiança, sua melhor amiga Kourtney (Dara Renee) disse a ela: “Desde que você descobriu os garotos, tem passado muito tempo tentando se ver através dos olhos deles”.

A própria Olivia está tentando equilibrar várias vidas ao mesmo tempo – a de nova celebridade, nova superstar pop, atriz infantil constante, e mais. E Sour é o primeiro passo para insistir na ideia de que o olhar que importa mais é aquele no espelho, não importa quem mais está olhando.


Tradução de Terezinha Martino 

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