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Ator e comediante do Monty Phyton Terry Jones REUTERS/Nacho Doce/File Phot

Terry Jones, do Monty Python, morre aos 77 anos

Ator sofria de uma rara forma de demência e integrou a trupe de comédia considerada revolucionária para o humor britânico

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2020 | 10h24

Terry Jones, um dos integrantes do grupo de comédia britânico Monty Python, morreu aos 77 anos, anunciou a agência PA Media nesta quarta, 22. 

Nascido no País de Gales, Jones também foi diretor de cinema e historiador. Ele sofria de uma rara forma de demência.

A família comunicou que Jones morreu na noite de terça-feira, 21, em sua casa, em Londres. Em uma declaração, os familiares disseram que o humorista morreu "depois de uma batalha longa, extremamente corajosa, mas sempre bem-humorada com uma forma rara de demência, a FTD".

Assinam a declaração a mulher de Jones, Anna Soderstrom, e os filhos Bill, Sally e Siri. "Todos nós perdemos um homem gentil, engraçado, caloroso, criativo e verdadeiramente amoroso, cuja individualidade intransigente, intelecto implacável e humor extraordinário deram prazer a incontáveis milhões de fãs ao longo de seis décadas. Seu trabalho com Monty Python, seus livros, filmes, programas de televisão, poemas e outros trabalhos viverão para sempre, um legado adequado para um verdadeiro polímata", continua o texto. 

Ao lado de Eric Idle, John Cleese, Michael Palin, Graham Chapman and Terry Gilliam, Jones formou o Monty Python, cujo humor anárquico revolucionou a comédia britânica.Jones participou de séries e filmes com a trupe Phyton incluindo Monty Phyton em Busca do Cálice Sagrado A Vida de Brian. Em 2016 ele foi diagnosticado com demência frontotemporal, um distúrbio neurológico responsável por 10% dos casos de demência.

O grupo era formado por seis ingleses (bem, na verdade, um era gaulês, justamente Jones, e outro é um americano infiltrado, Gilliam) que renovaram o humor da TV britânica (e, por extensão, mundial) em 5 de outubro de 1969, quando foi ao ar o primeiro dos 45 episódios da série cômica Monty Python's Flying Circus, programa de meia hora de duração com animações e piadas escrachadas que não perdoavam da política à filosofia, do marxismo ao esporte, do chá das 5 à morte.

"Monty Python surge no momento mais louco do século 20, na cidade mais louca do mundo (Londres). Para revolucionar a loucura vigente, os Pythons tinham um ingrediente surpresa: a lucidez", escreve o humorista Gregório Duvivier no prólogo de Monty Python - Uma Autobiografia Escrita por Monty Python, lançada no Brasil pela Realejo Livros.

Trata-se de um livro originalmente editado em 2003 e organizado por Bob McCabe, que costurou depoimentos de Eric Idle, Graham Chapman, John Cleese, Michael Palin, Terry Jones (o gaulês) e Terry Gilliam (o americano ilustrador) para contar a origem de cada um até que os rumos se cruzassem, especialmente quando eram universitários, dividindo-se entre Oxford e Cambridge.

Foi no ambiente de faculdades que esses estudantes de História, Medicina e Direito exercitaram seu talento para o humor, criando esquetes apresentados em peças universitárias que, de tão engraçados, convenceram cada um a buscar a carreira de comediante. Nessa época, anos 1960, o melhor caminho era o rádio, mas a BBC, emissora pública que também tem canais de TV, pretendia renovar sua faixa humorística. Interessavam quadros como o BBC A.C., criado por Cleese no qual Idle apresentava a previsão do tempo: "Uma peste deve surgir sobre as terras do Egito, seguida de enchentes, sapos e a morte de todos os primogênitos. Sinto muito, Egito". Um primeiro caminho foi o programa de David Frost, que abria as portas para comediantes talentosos e que permitiu que todos se exercitassem.

A partir daí, os futuros Pythons foram se unindo até que Jones, Palin e Idle, que escreviam o programa Não Sintonize Sua TV, foram chamados por Cleese, que fazia ao lado de Chapman Finalmente o Show de 1948, para criar um novo produto, o Flying Circus. Se o talento era um detalhe comum do sexteto, as diferentes personalidades ajudavam a enriquecer o material. Afinal, enquanto Cleese era metódico, capaz de discutir horas sobre a colocação de uma vírgula, Chapman (que morreu em 1989) era o mais instável, mas, por isso mesmo, o mais sensível. Idle sempre foi fascinado por personagens de falas complicadas e Jones não escondia sua preferência pelo elemento surreal fantasioso.

Já Gilliam revolucionou o grupo com seus cartoons anárquicos e inventivos, enquanto Palin era o "comediante dos comediantes". O Monty Python logo inaugurou um modelo de humor, que inspirou tanto programas como Saturday Night Live nos EUA como o Casseta & Planeta Urgente!, no Brasil. Quadros como a Dança dos Tapas com os Peixes ou a Lumberjack Song, canção em que um barbeiro homicida sonha em ser um lenhador, tornaram-se referências obrigatórias. Os Pythons passaram a ser venerados, até mesmo pelos Beatles que, segundo conta Palin, tinham as sessões de música interrompidas a pedido de Paul McCartney no momento em que o programa era transmitido para que todos pudessem ver. "Que surreal, os Beatles interessados em nós!", comentou.

Da TV, o grupo foi para o cinema, realizando poucos mas originais filmes - ao menos um deles se tornou um clássico, Em Busca do Cálice Sagrado. Aos poucos, o sucesso retumbante começou a incomodar alguns integrantes, que ironicamente viam nisso uma traição à sua essência. "A partir do momento em que o Python é percebido como uma lenda a ser celebrada, o humor que formou o Python voa pela janela, porque viramos vítimas dos nossos próprios ataques", observa Palin, no livro.

De fato, o grupo se desfez em 1983, logo após o filme O Sentido da Vida. Cada um seguiu uma trajetória, mas todos com um DNA comum. Novamente Palin explicou: "O Python explorou todos os territórios possíveis, atirou em todas as direções, foi produto de seis roteiristas e atores, e da sensação de liberdade. Um episódio qualquer ou um filme tem de tudo. O Python sobreviveu porque é ligeiro, desloca-se rápido entre as ideias". 

 

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Terry Jones e Monty Phyton são exemplo de como a cultura e o humor podem se dar as mãos.

Especial de Natal do Porta dos Fundos parece ter grande inspiração em 'A Vida de Brian', também à sua época considerado sacrílego

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2020 | 15h07

Não deixa de ser uma coincidência a morte de Terry Jones, do grupo Monty Python, no exato momento em que a polêmica com A Primeira Tentação de Cristo, do grupo Porta dos Fundos, ainda polariza liberais e conservadores no Brasil.

A comédia do grupo brasileiro parece inspirada diretamente no filme mais famoso de Jones, A Vida de Brian, de 1979, também à sua época considerado sacrílego. Tanto A Vida de Brian como A Primeira Tentação de Cristo estão disponíveis na Netflix. 

Terry Jones, integrante e fundador do grupo cômico britânico Monty Python, morreu aos 77 anos de uma forma rara de demência, segundo divulgaram seus familiares. Foi um talento notável, alma do irreverente grupo cômico, e seguiu carreira solo quando o Monty Python se dissolveu. 

Em seu filme mais famoso como diretor, Brian (Graham Chapman) é uma espécie de êmulo de Jesus Cristo e segue uma carreira paralela e com muitos pontos em comum ao messias. Em tom de sátira, Brian profere discursos insensatos e, para sua surpresa, arrebanha uma multidão fanática que o segue por toda parte. O paralelo cômico com várias situações bíblicas fez com que o filme fosse considerado “blasfemo” por muitos fieis. É apenas uma sátira à religião e aos alienados que seguem, sem refletir, a pregação de novos profetas. O filme é divertidíssimo. 

Enquadra-se no “projeto” anárquico do Monty Python, segundo o qual não existe nada de tão sagrado que não possa ser desconstruído e ironizado. Religião, cultura, saber, o poder, heróis da História - tudo pode ser tratado com humor e mesmo com sarcasmo. Trata-se de um exercício de liberdade, difícil de entender por mentalidades autoritárias. O riso é subversivo e o humor, ou é livre ou simplesmente não existe. Nada é sagrado; apenas a liberdade o é. 

Mas não se deve lembrar de Jones apenas por A Vida de Brian. Dirigiu também outros filmes do grupo, Monty Python e o Cálice Sagrado (1975) e O Sentido da Vida (1983). Nos programas do Monty Python, Jones  interpretava tipos diversos, os mais famosos sendo mulheres de meia idade, em esquetes cômicos escritos por ele em parceria com Michael Palin.

Dando provas de versatilidade, em sua fase pós-Monty Python Jones tornou-se aclamado autor de livros infantis. Mas não apenas. Historiador de formação, escreveu livros sobre História, com foco na Idade Média. Realizou documentários para a BBC sobre o período medieval, pelo qual era fascinado. Escrevia artigos para jornais como The Guardian e The Observer. 

Era exemplo de como a cultura e o humor podem se dar as mãos. 

 

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Terry Jones, do Monty Python, é diagnosticado com demência

Sua influência na comédia foi comparada no Reino Unido com a dos Beatles na música

Redação, EFE

23 de setembro de 2016 | 10h31

LONDRES - Terry Jones, membro fundador do emblemático grupo de comédia britânico Monty Python, sofre de um tipo de demência, por isso que deixará de conceder entrevistas, informou nesta sexta-feira um porta-voz do ator e diretor galês.

O porta-voz precisou que o humorista, que acaba de receber um prêmio da academia de cinema Bafta de Gales, foi diagnosticado com "afasia progressiva primária", que é um variante da demência frontotemporal.

"Esta doença afeta sua capacidade de se comunicar e por essa razão já não pode conceder entrevistas", disse esta fonte.

O representante afirmou no entanto que Jones, de 74 anos, se sente "orgulhoso e honrado" pelo Bafta especial que foi outorgado pela academia por sua contribuição ao cinema e à televisão e "participará das celebrações".

Como membro destacado dos Python, Jones dirigiu The Life Of Bryan (A vida de Bryan) e The Meaning Of Life (O sentido da vida) e codirigiu com Terry Gilliam Monty Python And The Holy Grail (Monty Python Em Busca do Cálice Sagrado), algumas das produções mais famosas da companhia, que também inclui John Cleese, Michael Palin, Graham Chapman e Eric Idle.

Os Monty Python surgiram nos anos 60 e estrearam na BBC com a série Monty Python's Flying Circus, depois da qual vieram os filmes, excursões e livros que aumentaram sua popularidade.

Sua influência na comédia foi comparada no Reino Unido com a dos The Beatles na música, e o grupo tem um legião de admiradores no mundo todo. 

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