Jonathan Wenk
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'Suprema' conta as lutas que levaram Ruth Bander Ginsburg à Suprema Corte dos EUA

Filme de Mimi Leder traz juíza que superou preconceitos da sociedade

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2019 | 03h00

Mimi Leder foi apadrinhada por Steven Spielberg no começo de sua carreira. Parecia outra diretora na vertente de Kathryn Bigelow – poderosa, com uma direção de cena forte e aquela vontade de mostrar que era mais ‘macho’ que qualquer outro diretor em atividade em Hollywood. Durou pouco – O Pacificador, Impacto Profundo e logo Mimi já estava arreglando com A Corrente do Bem. Voltou à TV, onde se destacara dirigindo episódios da série Plantão Médico. E eis que ela volta ao cinema, e com um filme forte. Suprema beneficia-se da atual fase de empoderamento feminino. Conta a história de uma Mulher-Maravilha sem efeitos nem poderes especiais.

A Suprema do título é a juíza Ruth Bader Ginsburg, que ingressou na Suprema Corte dos EUA em 1993, por indicação do então presidente Bill Clinton. Ruth foi apenas a segunda mulher indicada para o cargo e depois dela só mais duas tomaram assento na instância mais alta da Justiça norte-americana. Pode até parecer oportunismo de Mimi, mas a verdade é que, se o filme tivesse sido feito antes, talvez se tivesse dissipado em meio à vastíssima produção audiovisual dos EUA. Há hoje uma demanda por histórias inspiradoras de mulheres, e a de Ruth é exemplar. Em 1956, ela era uma das raríssimas mulheres a estudar direito na Universidade Harvard.

Na classe predominantemente masculina, ela é objeto permanente de sarcasmo, quando não de bullying. Se os professores fazem alguma pergunta e ela se dispõe a responder, o clima é de condescendência. Pobre Ruth. O reitor a convida, e a outras colegas, para um jantar. Por que insiste em fazer o curso? De tanto ser objeto de sarcasmo, Ruth também exercita o seu. Diz que é para entender melhor o trabalho do marido, ou seja, para ser uma esposa melhor. E, depois, exasperada, para o próprio marido, interpretado por Armie Hammer – “M... por que eu ia querer estudar direito? Para ser advogada!” 

Para Mimi Leder, Ruth se revela um interessante caso de teimosia que vale estudar. O mundo conspira contra ela, e nem se trata de um complô contra Ruth, mas uma atitude comum em relação às mulheres nos anos 1950, 60. Talvez o filme exagere um pouco, mas não, é tudo verdade, garantem a diretora e o roteirista Daniel Stiepleman. Ruth não apenas fez o seu curso como também o do marido, que sofria de uma doença gravíssima, mas não queria abrir mão dos estudos. Embora fosse a melhor – muito boa –, ela não foi contratada por nenhuma empresa de advocacia. Os homens tinham a preferência. Ruth foi ser professora e, então, nos anos 1970, ela teve sua grande chance. Discriminada por ser mulher, ela se destacou no caso de um homem discriminado por ser homem.

Estabeleceu ali um paradigma que fez dela uma referência na discussão sobre gênero na América. Foi parar na Suprema Corte, onde está até hoje – acaba de completar, no dia 15, 86 anos. Precisou afastar-se por um tempo, para se tratar de um câncer. Nem a doença conseguiu dobrá-la.

Já que foi citado o ator que faz o marido – Armie Hammer, e ele tem se destacado em todo tipo de papel, de herói a homem gay, em filmes como O Agente da U.N.C.L.E. a Me Chame pelo Seu Nome –, é justo destacar a atriz que, com tanta propriedade, veste a toga da juíza. A inglesa Felicity Jones percorreu um longo caminho no rádio e na televisão. E aí começou a se destacar – como a mulher de Stephen Hawking em A Teoria de Tudo, como a médica que acompanha o simbologista Robert Langdon/Tom Hanks na aventura de Inferno e como a protagonista, Jyn Erso, de Rogue One – Uma História Star Wars. Vale lembrar o que disse Felicity da heroína de Rogue – “Ela é totalmente improvável. Está nas margens da sociedade. Fisicamente, é menor e mais frágil do que aqueles que a rodeiam, mas quando você acredita em alguma coisa é isso que empodera. E o que dá motivação, e o que termina por dar, a qualquer pessoa, uma força enorme.” Embora esteja falando de Jyn, Felicity parece estar falando de Ruth Bader Ginsburg. Sua indicação para a Suprema Corte precedeu o escândalo do envolvimento do presidente Clinton com a estagiária Monica Lewinsky em 1996. Na época, ele declarou que estava indicando Ruth para incentivar a diversidade na mais alta instância da Justiça norte-americana. Judia, mulher, era uma verdadeira revolução.

Ao ser sabatinada no Congresso, Ruth recusou-se a responder perguntas sobre a pena de morte, mas assumiu posições polêmicas sobre aborto e igualdade sexual. Disse que não cabe ao governo decidir sobre o que é melhor para uma mulher e que a discriminação é inconstitucional. Pode ser que o filme não dê conta de tudo isso, mas faz justiça ao perfil de liberal que Ruth levou para a Suprema Corte. Entende-se também o fascínio da diretora por sua personagem. Filha de uma pianista judia que sobreviveu ao Holocausto e de um pai ator, roteirista, montador e diretor de filmes B como O Ataque do Gorila Gigante, Mimi cresceu nas rebarbas da indústria, adorando frequentar os sets do pai. Mas seu gosto foi sempre mais sofisticado, e ela já disse que o filme que a marcou foi Oito e Meio, de Federico Fellini. Estruturalmente, Suprema não tem nada a ver com essa preferência, mas dá para entender por que Mimi se interessou por uma mulher ainda mais forte que ela, e ambas tiveram de se afirmar num universo masculino hostil. Suprema pode não ser um grande filme, mas é bom. Grande é a personagem.

 

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