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Análise: Oscar de 'Parasita' chama atenção para o cinema asiático

Pela primeira vez, um filme estrangeiro e falado em seu idioma venceu o Oscar

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2020 | 21h02

Por esta ninguém esperava mesmo. Mesmo badalado pela crítica e cheio de prêmios (inclusive a Palma de Ouro em Cannes) quem adivinharia que o coreano Parasita levaria o Oscar principal, de melhor filme, e ainda os de direção (Bong Joon-ho), roteiro e melhor filme internacional? É uma novidade total – a primeira vez que um filme estrangeiro, falado em seu idioma, vence o Oscar (houve o precedente do francês O Artista, mas que é um filme mudo, e que celebra Hollywood). 

Parasita, não. É um filme de completo DNA coreano, ambientado no país, produzido e falado em sua língua, trazendo para a tela a realidade social coreana. Tem trunfos muito fortes, como a originalidade no tratamento do tema e o rigor na direção. Ao mostrar a família pobre que se infiltra na residência da família rica, problematiza a noção de parasita (quem suga a seiva de quem?). Constrói personagens críveis, em ambientes que equivalem a verdadeiros espaços de dramaturgias (o porão onde mora uma família, a residência modernista onde habita a outra). E dialoga com o cinema de gênero (como já havia feito com O Hospedeiro), levando o terço final do filme para um ambiente fantástico e imprevisível. 

Cabe dizer que a vitória de Parasita se beneficia da mudança estrutural da Academia de Hollywood que, incorporando profissionais do exterior, ganha em universalidade. E, mais importante, leva a prestar atenção ao cinema coreano, fortemente amparado pelo governo e dispondo de leis de proteção, até mesmo no quesito exibição. Lá, não ocorre o que aqui acontece com frequência, como blockbusters norte-americanos praticamente monopolizando o circuito exibidor. 

Parasita foi o grande vencedor, quais foram os maiores derrotados?

Sem dúvida, 1917, o épico de guerra que entrou como favorito e saiu apenas com prêmios técnicos, fotografia, mixagem de som e efeitos visuais. Ou seja, foi considerado apenas uma proeza técnica, com sua simulação de um plano sequência único. 

Outro foi Martin Scorsese e seu O Irlandês. Dez indicações sem emplacar nenhum prêmio! Qual o recado da Academia? O mestre estaria fazendo um cinema superado? Ou a questão é com a Netflix, a poderosa plataforma de streaming, produtora do filme?

Também foi ignorado Pedro Almodóvar, cujo maravilhoso Dor e Glória saiu de mãos abanando. Faço uma aposta: é um filme que ficará e será visto com emoção por muitos e muitos anos. Às vezes, as premiações podem ser cruéis.

Foi assim também com outro filme maravilhoso, Honeyland, da Macedônia do Norte, que competia nas categorias filme internacional e documentário. Perdeu em ambas. Mas também ficará. 

Clique aqui para ver a lista completa de indicados e vencedores do Oscar 2020.

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