O Oscar de ‘Parasita’
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O Oscar de ‘Parasita’

Luiz Zanin Oricchio

10 de fevereiro de 2020 | 11h19

Bom, por esta ninguém esperava mesmo. Mesmo badalado pela crítica e cheio de prêmios (inclusive a Palma de Ouro em Cannes) quem adivinharia que o coreano Parasita levaria o Oscar principal, de melhor filme, e ainda os de direção (Bong Joon-ho), roteiro e melhor filme internacional? É uma novidade total – a primeira vez que um filme estrangeiro, falado em seu idioma, vence o Oscar (houve o precedente do francês O Artista, mas que é um filme mudo, e que celebra Hollywood.

Parasita, não. É um filme de puro DNA coreano, ambientado no país, produzido e falado em sua língua, trazendo para a tela a realidade social coreana. A meu ver, Parasita tem trunfos muito fortes, como a originalidade no tratamento do tema e o rigor na direção. Ao mostrar a família pobre que se infiltra na residência da família rica, problematiza a noção de parasita (quem suga a seiva de quem?). Constrói personagens críveis, complexos, em ambientes que equivalem a verdadeiras dramaturgias (o porão onde mora uma família, a residência modernista onde habita a outra). E dialoga com o cinema de gênero (como já havia feito por exemplo em O Hospedeiro), levando o terço final do filme para um ambiente fantástico e imprevisível.

Leia crítica de Parasita

Cabe dizer que a vitória de Parasita se beneficia da mudança estrutural da Academia de Hollywood que, incorporando profissionais do exterior, ganha em universalidade. E, mais importante, leva a prestar atenção ao cinema coreano, fortemente amparado pelo governo e dispondo de leis de proteção, até mesmo no quesito exibição. Lá não ocorre o que aqui acontece com frequência, com blockbusters norte-americanos praticamente monopolizando o circuito exibidor.

Enfim, são lições a serem aprendidas. Mas por quem?, pode-se perguntar aqui no Brasil, onde o governo hostiliza de forma aberta tanto o cinema quanto as artes em geral e sente-se frágil e ameaçado diante de qualquer obra crítica.

Se Parasita foi o grande vencedor, quais foram os maiores derrotados?

Sem dúvida, 1917, o épico de guerra que entrou como favorito e saiu apenas com prêmios técnicos, fotografia, mixagem de som e efeitos visuais. Ou seja, foi considerado apenas uma proeza técnica, com sua simulação de um plano sequência único. Perde, pelo menos aos olhos da Academia, a condição de obra antibelicista para marcar época.

Outro perdedor foi Martin Scorsese e seu grande épico O Irlandês. Dez indicações sem emplacar nenhum prêmio! Qual o recado da Academia? O mestre estaria fazendo um cinema superado? Ou a questão é com a Netflix, a poderosa plataforma de streaming, produtora do filme, e ainda vista com desconfiança por parte significativa da indústria?

Outro mestre ignorado foi Pedro Almodóvar, cujo maravilhoso Dor e Glória saiu de mãos abanando. Faço uma aposta: é um filme que ficará e será visto com emoção por muitos e muitos anos. Às vezes, as premiações podem ser cruéis.

Foi assim também com outro filme maravilhoso, Honeyland, da Macedônia do Norte, que competia nas categorias filme internacional e documentário com sua história da apicultora artesanal isolada nas montanhas. Perdeu em ambas. Mas também ficará, acredito.

Foi o caso, igualmente, do concorrente brasileiro Democracia em Vertigem, de Petra Costa. Perdeu para Indústria Americana (American Factory), documentário de fato muito bom sobre o choque cultural entre trabalhadores norte-americanos e chineses. Registra e prenuncia o agravamento da crise do trabalho, que acontece em todo mundo. Ninguém escapa à modernização estrutural do trabalho, mas este produz desemprego em massa. Com o aumento do desemprego, quem irá comprar as mercadorias que o capitalismo produz? E como as sociedades poderão assimilar as multidões excluídas do mundo do trabalho? São contradições do capitalismo, como dizia aquele velho filósofo barbudo alemão.

Leia crítica de Democracia em Vertigem

Enfim, Democracia em Vertigem perdeu mas ganhou. Não trouxe o Oscar, mas ganhou visibilidade imensa para este filme pessoal, que fala do transe político brasileiro. É, como já se disse, uma imersão na realidade brasileira, mas que também tem valor universal, pois fala do desgaste da democracia em vários países do mundo e da ascensão de outsiders de extrema-direita, que se beneficiam do caos, do desespero, do ressentimento e da ignorância alheia para se instalar no poder. E, de lá, trabalham para minar a própria democracia que os elegeu. Acontece no Brasil, acontece em outras partes. São os verdadeiros parasitas.

Abaixo, o minuto a minuto da premiação, que fui mandando para o Portal do Estadão ao longo da cerimônia. E, em seguida, os premiados:

 

[22:16, 09/02/2020] Luiz Zanin: Brad Pitt ganha como ator coadjuvante e era o favoritíssimo. Deu a lógica, digamos assim, embora a concorrência fosse grande, com Joe Pesci, Al Pacino, Anthony Hopkins e Tom Hanks. Mas esse era mesmo o prêmio esperado e o Oscar começa segundo as previsões. Haverá surpresas mais à frente?

[22:25, 09/02/2020] Luiz Zanin: Animação: Toy Story 4. Mais um Oscar rotineiro. Havia alternativas como o criativo espanhol Klaus e o também original Perdi Meu Corpo, francês.

[22:41, 09/02/2020] Luiz Zanin: Roteiro original: Parasita. Ótima surpresa e justa escolha. O roteiro de Parasita era de fato o mais criativo, uma história que você nunca consegue adivinhar que caminho vai tomar. Não era o favorito e tinha concorrentes fortes. O filme de Tarantino Era uma vez em Hollywood era tido como vencedor. É o primeiro Oscar de um filme coreano. E talvez venha mais por aí.

[22:47, 09/02/2020] Luiz Zanin: Roteiro adaptado: Jojo Rabbit. Interessante roteiro, com a história do garoto que, durante a segunda Guerra tem como amigo imaginário o próprio Hitler. O filme é ok. Mas, como roteiro, havia coisa melhor. Digamos o de O Irlandês. Ou mesmo de Coringa ou Dois Papas.

[22:57, 09/02/2020] Luiz Zanin: Direção de arte: Era uma Vez em…Hollywood. Novo prêmio para o filme de Tarantino, uma homenagem a Hollywood. E Hollywood não resiste a homenagens. Mas o trabalho de recriação da meca do cinema nos anos 1960 é de fato impecável. Cria todo um clima de época.

[23:01, 09/02/2020] Luiz Zanin: Figurino: Adoráveis Mulheres. Entre filmes de época, prevalece aquele em época mais remota. Trabalho cuidadoso para o filme de Greta Gerwig, que é uma das queridinhas atuais da indústria.

[23:12, 09/02/2020] Luiz Zanin: Documentário: Indústria americana. Não deu para o Brasil e ganhou o documentário que mostra o choque cultural entre trabalhadores chineses e norte-americanos. É um belo e esclarecedor filme. Petra Costa não levou o Oscar, mas marcou presença com a indicação. E seu filme – A Democracia em Vertigem -, com sua interpretação pessoal e bem fundamentada sobre a tumultuada história recente no país, abriu uma enorme polêmica no Brasil polarizado. Inclusive entre gente que nem viu o filme.

[23:20, 09/02/2020] Luiz Zanin: Atriz coadjuvante: Laura Dern. Era a favorita com sua interpretação da advogada barra pesada em História de um Casamento. Prêmio merecido.

[23:40, 09/02/2020] Luiz Zanin: Edição de som: Ford vs Ferrari. Motores na pista e verossimilhança que depende muito dos efeitos sonoros. Valeu, embora muita gente esperasse 1917.

[23:41, 09/02/2020] Luiz Zanin: Mixagem de som: 1917. De fato, a mixagem de som tem um papel importante na criação do clima de guerra proposto pelo filme. É algo sensorial.

[23:54, 09/02/2020] Luiz Zanin: Fotografia: 1917. Era mesmo um dos fatores que fazem deste drama de guerra uma proeza técnica (claro, não é apenas isso). Em todo caso, seus concorrentes também tinham méritos, mas talvez 1917 tenha mesmo um diferencial.

[23:57, 09/02/2020] Luiz Zanin: Montagem: Ford vs Ferrari. Legal. O filme tem limitações, mas deve-se convir que conta sua história de maneira envolvente sem deixar o ritmo cair jamais. É um efeito de montagem. Agora pergunto: e manter o ritmo e interesse ao longo de três horas e meia? Seria o caso de O Irlandês, que não levou mais uma.

[00:15, 10/02/2020] Luiz Zanin: Efeitos visuais: mais um para 1917, que de fato tecnicamente é impecável no quesito.

[00:19, 10/02/2020] Luiz Zanin: Maquiagem e cabelo: O Escândalo. De fato, ok. O favorito era Coringa, mas ninguém pode esnobar a Charlize Theron, não é?

[00:27, 10/02/2020] Luiz Zanin: Filme internacional: Parasita, tido como vencedor por 10 entre 10 especialistas. Competia com gente forte, como Dor e Glória, Honeyland e Os Miseráveis. Mas é o mais original entre todos, com sua visão sobre a questão de classes sociais na Coreia. Ganha seu segundo Oscar na noite. Virá mais por aí?

[00:46, 10/02/2020] Luiz Zanin: Canção original: vai para Elton John por Rocketman, filme que conta a sua vida. Alguém achava que poderia dar outro premiado?

[00:55, 10/02/2020] Luiz Zanin: Direção: Bong Joon-Ho, por Parasita. Bom, isto aqui é uma bomba pela qual pouca gente esperava. O que se pode dizer? Que é merecidíssima a escolha pelo rigor com que o filme é dirigido. Mas ninguém esperava por isso. E esta premiação abre outras possibilidades para o filme e para o cinema coreano. Bong foi elegante ao cumprimentar Martin Scorsese, que está, até agora, sendo solenemente ignorado. Bong está emocionado e agradecido. É um grande momento do Oscar, histórico mesmo, como abertura para o exterior.

[01:10, 10/02/2020] Luiz Zanin: Ator: Deu o favorito, Joaquin Phoenix, por Coringa. Não tinha para mais ninguém. Ele é a alma desse filme estranho, transformando um vilão de HQ em porta-voz dos esquecidos da sociedade. Ao receber seu troféu, fez um belo discurso, contra a injustiça que cresce pelo mundo como contrapartida do progresso e da globalização. Foi aplaudido várias vezes durante seu agradecimento.

[01:16, 10/02/2020] Luiz Zanin: Atriz: Renée Zellweger. Era outra favorita. E merece, por sua interpretação visceral da fase final da atriz e cantora Judy Garland, celebrizada, ainda adolescente, em O Mágico de Oz. Ela não busca uma semelhança física com a personagem, mas procura a essência do seu sofrimento e insegurança. Tenho lá minhas restrições ao filme, mas a atuação dela é impecável e emocionada. Mereceu.

[01:30, 10/02/2020] Luiz Zanin: Filme: E a incrível Jane Fonda anunciou o inacreditável: a vitória de Parasita, do coreano Bong Joon-ho. Inútil dizer que ninguém acreditava nessa hipótese e que todo mundo apostava em 1917. Mas o prêmio é merecido. É o mais original e mais bem dirigido dos concorrentes. E, sobretudo, assinala um momento histórico em que a Academia premia pela primeira vez como melhor filme uma produção estrangeira e não falada em inglês. Mudou o eixo. Em termos de cinema internacional, é um momento que entra para a história. Um marco.

 

Melhor filme

O Irlandês 

Adoráveis Mulheres 

Era Uma Vez em… Hollywood 

Parasita 

História de um Casamento 

1917 

Coringa 

Ford vs Ferrari 

Jojo Rabbit

 

Diretor

Bong Joon-Ho, por Parasita 

Martin Scorsese, por O Irlandês  

Sam Mendes, por 1917 

Todd Phillips, por Coringa 

Quentin Tarantino, por Era Uma Vez em… Hollywood

 

Melhor ator 

Antonio Banderas, por Dor e Glória 

Leonardo DiCaprio, por Era Uma Vez em… Hollywood 

Adam Driver, por História de um Casamento 

Joaquin Phoenix, por Coringa 

Jonathan Pryce, por Dois Papas

 

Melhor atriz

Saoirse Ronan, por Adoráveis Mulheres 

Charlize Theron, por O Escândalo 

Scarlett Johansson, por História de um Casamento 

Renée Zellweger, por Judy – Muito além do Arco-Íris 

Cynthia Erivo, por Harriet

 

Melhor ator coadjuvante 

Brad Pitt, por Era Uma Vez em… Hollywood 

Joe Pesci, por O Irlandês 

Al Pacino, por O Irlandês 

Anthony Hopkins, por Dois Papas 

Tom Hanks, por Um Lindo Dia na Vizinhança

 

Melhor atriz coadjuvante 

Kathy Bates, por O Caso Richard Jewell 

Laura Dern, por História de um Casamento 

Scarlett Johansson, por Jojo Rabbit 

Florence Pugh, por Adoráveis Mulheres 

Margot Robbie, por O Escândalo 

 

Roteiro adaptado

O Irlandês 

Jojo Rabbit 

Coringa 

Adoráveis Mulheres 

Dois Papas

 

Roteiro original

Entre Facas e Segredos 

História de um Casamento 

1917 

Era Uma Vez em… Hollywood 

Parasita 

 

Melhor filme internacional

Corpus Christi (Polônia) 

Honeyland (Macedônia do Norte) 

Os Miseráveis (França) 

Dor e Glória (Espanha) 

Parasita (Coreia do Sul)

 

Animação 

Como Treinar o Seu Dragão 3 

Perdi Meu Corpo 

Klaus 

Link Perdido 

Toy Story 4

 

Fotografia 

1917 

O Irlandês 

O Farol 

Coringa 

Era Uma Vez em… Hollywood 

 

Figurino 

O Irlandês 

Jojo Rabbit 

Adoráveis Mulheres 

Era Uma Vez em… Hollywood 

Coringa

 

Trilha sonora original 

Coringa 

Adoráveis Mulheres 

História de Um Casamento 

1917 

Star Wars: A Ascensão Skywalker

 

Efeitos Visuais

Vingadores: Ultimato 

O Irlandês 

O Rei Leão 

1917 

Star Wars: A Ascensão Skywalker

 

Documentário 

Indústria Americana 

The Cave 

Democracia em Vertigem 

Honeyland 

For Sama 

 

Montagem

Ford vs Ferrari 

O Irlandês 

Jojo Rabbit 

Coringa 

Parasita

 

Canção Original 

I Can’t Let You Throw Yourself Away, por Toy Story 4 

(I’m Gonna) Love Me Again, por Rocketman 

Into The Unknown, por Frozen 2 

I’m Standing With You, por Superação – O Milagre da Fé 

Stand Up, por Harriet

 

Direção de arte 

1917 

O Irlandês 

Jojo Rabbit 

Parasita 

Era Uma Vez em… Hollywood

 

Mixagem de Som 

Ad Astra  

Ford Vs Ferrari  

Coringa

1917 

Era Uma Vez em… Hollywood 

 

Edição de som

1917 

Coringa 

Star Wars: A Ascensão Skywalker 

Era Uma Vez em… Hollywood 

Ford Vs Ferrari 

 

Maquiagem e Penteado 

Malévola: Dona do Mal 

1917 

O Escândalo 

Coringa 

Judy: Muito Além do Arco-Íris

 

Curta-metragem 

Brotherhood 

Nefta Footbal Club 

The Neighbors’ Window 

Saria 

A Sister

 

Animação em curta-metragem

Dcera (Daughter) 

Hair Love 

Kitbull 

Memorable 

Sister

 

Documentário de curta-metragem 

In the Absence 

Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl) 

Lifeovertakesme 

St. Louis Superman 

Walk Run Cha-Cha

 

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