Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Análise: Nelson Pereira dos Santos colocou o povo como protagonista da história

Diretor que morreu no Rio, no sábado, 21, aos 89 anos, fazia um cinema com intenção crítica e tornava heróis gente que se encontra na rua

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

21 Abril 2018 | 20h42

“Perda irreparável” pode ser um clichê, mas que outra expressão usar para o desaparecimento de Nelson Pereira dos Santos? Sua importância para o cinema brasileiro dificilmente pode ser avaliada assim, de pronto. Não apenas por obras-primas como Vidas Secas (1963) ou Memórias do Cárcere (1985), mas porque, sem a sua influência, o Cinema Novo talvez nem tivesse acontecido. Ou teria acontecido de outra maneira.

Foi com dois filmes pioneiros de Nelson - Rio 40 Graus (1955) e Rio Zona Norte (1957) que o neorrealismo italiano, o movimento do após-guerra e que tinha Roberto Rossellini como deus e Cesare Zavattini como seu profeta, pôde ganhar cores e ambientação brasileiras.

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Com Rio 40 Graus, que enfrentou problemas com a censura, Nelson fez aqui o que os neorrealistas já tinham feito na Itália após a 2.ª Guerra: trouxe as câmeras para a rua e colocou o povo como protagonista da história. Era um cinema leve, livre e solto, feito fora dos estúdios, de forma barata e com evidente intenção crítica. Os “heróis” são garotos vendedores de amendoim, malandros, assalariados, mulheres do povo, soldados, trabalhadores. Gente que se encontra na rua, sem qualquer glamour.

Já no filme seguinte, Rio Zona Norte, o protagonista é um compositor popular, Espírito (Grande Otelo), que vende seus sambas aos ricos para sobreviver.

O paulistano Nelson Pereira, que adotou o Rio como moradia em 1953, queria, com esses filmes, pintar um painel da antiga capital brasileira, um ícone das contradições nacionais expresso na dialética entre morro e asfalto. A trilogia carioca se completaria, de maneira um tanto assimétrica, com El Justicero (1966), retrato, agora em outro estilo, da juventude zona sul.

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O fato é que com seus dois filmes iniciais, Nelson forneceu material físsil para a detonação nuclear do Cinema Novo, o mais importante movimento cinematográfico do País e que teria nele um dos mais ativos participantes, ao lado de Glauber Rocha, Ruy Guerra, Cacá Diegues, Leon Hirszman, Joaquim Pedro de Andrade e outros.

Vidas Secas, adaptado de Graciliano Ramos, foi um escândalo e uma explosão. O filme foi a Cannes, causou polêmica, e ajudou a projetar o Cinema Novo em âmbito internacional. Outro livro de Graciliano, Memórias do Cárcere, forneceu o ponto de partida para o filme de Nelson que selava o processo de redemocratização do País com o fim da ditadura. O primeiro denunciava a miséria no campo; o segundo, a opressão política - duas faces da mesma moeda.

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À parte essa fase, digamos, mais épica de sua cinematografia, Nelson enveredou por vários e amplos caminhos. Trabalhou com textos de Nelson Rodrigues (O Boca de Ouro, 1962)), Jorge Amado (Jubiabá, 1986), Machado de Assis (Azyllo Muito Louco, 1969), examinou a cultura popular em Amuleto de Ogum (1974) e A Estrada da Vida (1980)e tentou o cinema alegórico e experimental em Fome de Amor (1968), Quem É Beta? (1972) e Como Era Gostoso o Meu Francês (1970).

Quando já o pensavam acomodado em seu posto de “imortal” da Academia Brasileira de Letras, lançou o refinadíssimo documentário como A Música Segundo Tom Jobim (2012). Um mestre prestando homenagem a outro, num filme-síntese que mostrava como o País que tem artistas desse porte poderia ter sido outro e não foi. Nelson Pereira, como poucos outros, marcou a cultura do seu tempo.

 

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