Ernesto Rodrigues/Estadão
Ernesto Rodrigues/Estadão

Exposição de Fayga Ostrower celebra os 50 anos do Palácio Itamaraty

Mostra ‘Entre Cores e Transparências’ reúne cerca de 30 peças que, no dia a dia, ficam em gabinetes do Ministério das Relações Exteriores

Lu Aiko Otta, O Estado de S. Paulo

07 Janeiro 2019 | 03h00

BRASÍLIA - Pela primeira vez em seus 50 anos, o Palácio Itamaraty reuniu obras da gravurista Fayga Ostrower (1920-2001) de seu acervo e as trouxe ao público, na exposição Fayga – Entre Cores e Transparências, inaugurada no dia 19 de dezembro. São cerca de 30 peças que, no dia a dia, ficam em gabinetes de trabalho do Ministério das Relações Exteriores.

O destaque da mostra é um políptico, um conjunto de sete gravuras que compõem uma obra chamada Painel do Itamaraty. Ela foi produzida em 1967, por sugestão da própria artista ao embaixador Wladimir Murtinho, que na época estava incumbido de selecionar objetos para decorar o palácio recém-construído na nova capital federal. “Ele foi no atelier escolher seis gravuras, mas ela sugeriu uma obra especial”, conta a curadora da mostra, a professora Maria Luisa Luz Távora, da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro. 

A execução do trabalho consumiu nove meses e meio de trabalho. Quando Murtinho foi buscá-lo, viu pilhas de provas de estado, que são etapas de elaboração da obra que, por uma razão ou outra, ela decidiu alterar. Fayga pretendia descartá-las, mas o embaixador sugeriu fazer uma exposição didática, mostrando o painel e seu processo de criação.

“Foi uma exposição muito importante, porque naquele momento havia um embate entre concretistas e abstratos informais, os racionalistas e os da solução intuitiva, imaginativa”, conta Maria Luisa. “As provas saíram de um ambiente íntimo, o atelier, e foram para o público ver o processo dela: as recusas, as mudanças.” 

Instalada no Museu de Arte Moderna entre junho e julho de 1968, a exposição foi escolhida a melhor do ano. Um dos 30 exemplares do políptico foi presenteado à Organização das Nações Unidas (ONU) em seu 25.º aniversário. Para a data, o organismo fez uma exposição com um artista de cada país membro.

Nascida na Polônia, Fayga é importante para a história da arte brasileira porque seu trabalho foi pioneiro no uso da abstração em gravura, até então figurativa. Na xilogravura, ela rompeu com a tradição vigente à época, que era o uso de contrastes, principalmente em preto e branco, para se valer de cores, transparências e sobreposições. Ela foi vencedora da Bienal de Veneza de 1958, uma importante referência internacional, além de ter recebido diversas premiações nacionais.

Segundo Maria Luisa, a gravura brasileira viveu um período de grande dinamismo no Rio de Janeiro dos anos 1950 e 1960, quando a cidade ainda era a capital federal. O Itamaraty teve um importante papel de divulgação dos artistas brasileiros no exterior. 

Quando o ministério foi transferido para Brasília, cada departamento do novo prédio foi decorado com obras de um gravurista brasileiro. Com o passar dos anos, algumas das gravuras foram transferidas para outras salas, causando uma certa dispersão. Agora, nas comemorações do cinquentenário do Palácio e da transferência do ministério para Brasília, foi feito um trabalho de pesquisa que identificou as coleções.

O trabalho de pesquisa não se resumiu às obras de arte. Foram identificadas também peças do mobiliário palaciano, já expostas ao público na mostra Desenhando para um Palácio. Ela mostra como o Itamaraty deu um impulso fundamental para o desenvolvimento do design brasileiro nos anos 1960.

Por iniciativa do chanceler Aloysio Nunes, está em implementação no ministério um sistema de curadoria nos moldes que já existem no Estado de São Paulo. Ele busca tratar de forma adequada as obras de valor histórico e artístico que estão em ambiente de trabalho.

A gestão do novo ministro, Ernesto Araújo, manterá a iniciativa de preservação.

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