A delicadeza incisiva na obra de Fayga Ostrower

Exposição na Estação Pinacoteca perpassa a trajetória da artista, que morreu em 2001, e apresenta grande conjunto de suas gravuras adquiridas pela instituição

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

19 de junho de 2009 | 00h00

Em 2006, a Pinacoteca do Estado recebeu uma grande doação de obras da gravadora Fayga Ostrower (1920-2001) por seus filhos, Anna Leonor e Carl Ernest. Juntando ainda a esse conjunto, o museu adquiriu obras da coleção do artista Rossini Perez que, na década de 1950, foi aluno de Fayga e, sendo assim, possuía algumas raras criações de sua mestra. Agora, a Pinacoteca conta, afinal, com um acervo de cerca de uma centena de gravuras da artista, que perpassa toda a sua carreira, da década de 1940 até sua morte. Para apresentar essa rica coleção, o museu inaugura hoje na Estação Pinacoteca uma ampla exposição, com uma seleção de quase 70 obras de Fayga Ostrower, selecionadas pelo artista e pesquisador Carlos Martins.Fayga, que nasceu na Polônia, mas chegou ao Rio de Janeiro em 1934 e ali permaneceu, fez sua marca na gravura brasileira sendo uma das pioneiras do chamado abstracionismo lírico. Ao longo de sua pesquisa gráfica a experiência com a cor tornou-se a protagonista de suas criações, sejam elas no campo da xilogravura, da gravura em metal, litogravura e serigrafia (com referência à arte oriental). "Ela dizia que a cor fala por si", afirma Martins, reforçando que tanto a preocupação da artista com as experimentações cromáticas quanto com a problematização da forma estavam em sintonia, na década de 1950, quando ela marca sua identidade (e é premiada, sequencialmente, na Bienal de São Paulo - 1957 - e Bienal de Veneza - 1958) com as preocupações estéticas que se via no mundo naquele momento.Por outro lado, também, Fayga não foi uma gravadora que participou dos grupos de criadores de gravuras, tampouco preocupou-se em ser professora da "técnica da gravura" tal foram tantos de seus contemporâneos, o que contribuiu para a criação de uma pesquisa independente e autônoma. "Acredito que haja uma delicadeza incisiva em sua obra", define Martins, que conheceu Fayga em 1983, quando fez a curadoria da primeira retrospectiva da artista no Museu Nacional de Belas Artes do Rio e a partir de então teve contato direto com ela e com sua obra. A delicadeza da qual ele fala se refere ao fato de que vezes a cor é pura transparência sutil nas obras da artista e, por outras, propulsora de paisagens "idealizadas, acima do bem e do mal". Ao mesmo tempo Fayga foi incisiva porque vemos em sua trajetória um caminho coerente e muito próprio em que ritmo e equilíbrio são fundamentais, diz Martins.A exposição no terceiro andar da Estação Pinacoteca acompanha de maneira sensível a experiência cromática que tanto foi marca da artista: o percurso pelas gravuras de Fayga se faz por meio de conjuntos de obras a partir do diálogo com as cores e não de uma forma cronológica. Apenas a primeira seção da mostra, com obras do começo de sua carreira autodidata, de a partir de 1946 até 1954, tem caráter mais pontual. Em Xilo Cópia do Século 15, de 1948, Fayga faz uma cópia de obra antiga da figura de um Cristo e expressa isso no título; depois, vemos suas criações com referência no expressionismo de Käthe Kollwitz e já suas experimentações abstratas em torno apenas da forma. A partir de então a exposição, que também conta com vídeo de 1995 com depoimento da artista, segue mesclando obras de períodos diversos, porque Fayga volta e outra retoma elementos de suas criações.

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