Uma merecida retrospectiva de Fayga Ostrower

Desde sua morte, em 2001, a artista plástica Fayga Ostrower não tinha uma retrospectiva de sua obra tão abrangente como a que se abre nesta terça-feira, no Centro Cultural da Caixa Econômica Federal. São 116 obras, de fases variadas, a maioria gravuras, escolhidas pela curadora Anna Bella Geiger, ela também gravurista e ex-aluna de Fayga. ´A idéia era mostrar sua evolução como artista, tanto técnica quanto na escolha dos temas. Ela começa influenciada pelo expressionismo europeu, com uma conotação social, e evolui para um abstracionismo radical que não tinha paralelo aqui no Brasil´, conta Anna Bella. ´Incluímos algumas obras em outros suportes que não a gravura para mostrar que Fayga também fez desenhos e aquarelas de grande qualidade.´As peças vieram do Instituto Fayga Ostrower, fundado para preservar seu acervo e difundir suas idéias sobre arte. Como a maior parte de sua obra é de gravura, quase sempre em madeira ou metal, embora haja também litografias, há exemplares de quase todos os seus trabalhos. ´Além disso, vamos expor alguns instrumentos que ela usava para criar, fotos e matrizes que foram guardadas´, adianta a curadora. ´Sua obra começa nos anos 40, quando ela se dizia impregnada das cores do Brasil. Fayga tinha relações com outros gravuristas da época, como Oswaldo Goeldi e Lasar Segall, mas logo deixa os temas políticos e sociais para abraçar o abstracionismo e usa cada vez mais cor, ao contrário deles que se mantiveram no preto, branco e cinzas.´Fayga foi também uma pensadora e publicou sete livros de reflexões, além de ter lecionado em seu ateliê e em universidades brasileiras e estrangeiras. Embora tivesse nascido em Lodz, na Polônia, em 1920, ela se considerava uma artista brasileira, pois chegara aqui no início da adolescência, em 1933, e estudou com artistas brasileiros. Nos anos 1940, formou-se em artes gráficas na Fundação Getúlio Vargas. Nesta época, já ganhara nome como gravurista, mas só na década seguinte colecionaria prêmios em bienais (de São Paulo, Veneza, Tóquio, etc). ´Nos anos 50, estudei com ela num grupo no qual estavam também Lygia Pape e Décio Vieira. Cada um seguiu um caminho, o que evidencia sua capacidade de abrir horizontes´, comenta Anna Bella.Nesta mostra, há os primeiros trabalhos, figurativos dos anos 40, com paisagens ou personagens; a explosão de cores dos anos 50 quando ela começa a explorar o espaço bidimensional, as paisagens imaginárias dos anos 70, até vir à mistura de técnicas e chapas que dão à imagem várias camadas, característica dos anos 80 e 90. Embora tenha sido também uma teórica de arte, Fayga nunca explicou o próprio trabalho. ´Ao contrário dos neoconcretistas, que escreviam manifestos, os abstracionistas não se preocuparam com isso´, lembra a curadora. ´Nesse sentido ela se aproxima dos abstracionistas americanos do pós-guerra, que tomaram a dianteira das artes plásticas, enquanto a Europa se refazia de suas ruínas. Esta retrospectiva acompanha este caminho que ela seguiu desde então até morrer em 2001.´

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