‘Festa de Inauguração’ testa a ruína do tempo com história de goteiras no Congresso Nacional

‘Festa de Inauguração’ testa a ruína do tempo com história de goteiras no Congresso Nacional

Leandro Nunes

17 de junho de 2019 | 18h30

É inegável que a cena teatral paulistana carrega consigo a tradição da atuação, por onde circulam atrizes e atores destinados aos grandes papéis, bem como o movimento singular de grupos e coletivos de pesquisa cênica, que a cada ano deixa de reunir as produções mais interessantes e contundentes da cidade.

Diante de uma instabilidade econômica em todo País, a reivindicação da pesquisa teatral como parte essencial de um processo criativo demorado e aliado ao tempo não deixa dúvidas de que o teatro da capital precisa ser mais ágil, e isso não implica ser mais midiático (o jornalismo já foi inventado) ou virtualizado (as redes sociais também).

De fato, há na cena grupos que têm considerado o comportamento virtual de qualquer ser humano que possui um celular como um ponto de vista que desperta um desafio não imaginado pelos mestres da cena.

Não há grande significado quando se diz que o teatro é velho. Se for assim, a literatura também é velha, a música.

A cena teatral paulistana sugere que, a despeito do número de teatros e da programação única no país, os espetáculos que estreiam por aqui estão de joelhos, ora saudando técnicas, autores, temas, linguagens…

Nesse sentido, é bem difícil produzir reflexão e encantar plateias quando há muitos obstáculos entre o pensamento e a livre fruição. Em geral, o fetiche de contrapor a cena com o ritmo veloz da metrópole aceita a catatonia como único fluxo.

A sorte da audiência de São Paulo é que sempre tem um espetáculo em cartaz criado fora dessa lógica. O que é bom para você, leitor-público.

Um desses exemplos está em cartaz no Sesc Pompeia. Não é o clássico Mãe Coragem, com Bete Coelho, mas o espetáculo Festa de Inauguração, do grupo Teatro do Concreto.

FOTO: THIAGO SABINO

Esqueça o que o folder do espetáculo diz. O que é preciso saber é que o grupo fundado em Brasília em 2003 se inspirou, para este trabalho, com o caso dos vazamentos, leia-se goteiras, no teto do Salão Verde do Congresso Nacional, em 2011.

O melhor é que, durante as reformas, encontraram diversas frases e mensagens deixadas nas estruturas de concreto pelos operários que construíram o prédio.

Diante desse imaginário, o espetáculo persegue ideias que originalmente apenas ocupariam aulas de uma universidade, mas que não deixam de estar mais ou menos elaboradas na vida ordinária. É por essa lacuna que a dramaturgia se apoia.

Ao começar distante, o elenco evoca o próprio teatro e sua natureza instável, incapturável, dionisíaca. Não deixa de ser estranho que o deus Baco, por exemplo, um ser tão fluido e libertário, seja representado em uma estátua.

Por outro lado, a vida ordinária também pode ser dominada, de maneiras trágicas e antes da tecnologia, como as vítimas do vulcão Vesúvio.

Ao dispor da cena para esse movimento de lente, indo do particular ao geral e voltando, Festa de Inauguração cria esteio para conceitos e suas aplicações, consequências, o problema da representação na arte, e também flerta com a imaginação nesse campo de ruínas.

Aqui esses restos importam menos como divagação do que poderia ter sido e mais como enquadramentos possíveis para novos tempos.

Isso porque também existem ruínas invisíveis. No campo político, por exemplo, os avanços e os retrocessos raramente se deflagram por inteiro. Uma pesquisa, uma estatística, uma entrevista, um link, um tweet apontam contornos, tendências, mas muito pouco sobre a completude. São recortes de realidade.

FOTO: DIEGO BRESANI

Outra explicação, mais poética, pode apontar para a cena do dinossauro que martela um relógio. Ali parece haver um anúncio de que o passado venceu a elaboração racional formalizada na sequências de números. É como imaginar que todo corpo já é óbito, toda construção já é ruína, mesmo que o rastro não esteja aparente no movimento dos ponteiros.

Ao inspecionar o que há no espaço entre os restos, a peça persegue ideias férteis em conjunto com uma plateia convocada desde o início.

A aproximação oferecida pelo elenco não deixa de despertar um tipo de constrangimento e dúvida históricos ao público paulistano, já muito solicitado em espetáculos e pouco recompensado, é preciso que se diga. Entretanto, na peça, é nesse risco que o repertório da relação se acumula, permitindo à platéia aderir o elenco com o uso da quebra de expectativas de uma convenção anunciada.

Também é importante que o teatro consiga construir relações sobre o tempo mais diversas da catatonia citada neste texto. O título Festa de Inauguração já sugere um ordenamento de eventos, como uma festa de aniversário, há uma organização habitual. O que a peça faz é enxergar a si e o mundo como frequência editáveis.

Entram nesse jogo as considerações a respeito das identidades, dos conceitos de raça e racismo, da interpretação, dos papéis na cena, como o sujeito vestido para uma peça de Molière.

É um deslocamento ambicioso para uma dramaturgia, diante de um fenômeno de interferência. Aqui a palavra está mais próxima da ideia de superposição de frequências do que de ruído.

É no final que o motivo que inspirou o espetáculo ganha conhecimento do público. Nesse momento, a história das goteiras do Congresso chega à amplitude. Não é só de ruína, não é só de memória. Há um imaginário que sobrevive nos bastidores, como uma criatura que cresce na escuridão. Existe e está lá, não depende, unicamente, de audiência.

Ao encerrar a peça com esse episódio, Festa de Inauguração completa seu ciclo nessa arqueologia. É a construção coletiva – e brasileira – de um apelo por Justiça de natureza ancestral.

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