ALEX SILVA/ESTADÃO
ALEX SILVA/ESTADÃO

Em 'Mãe Coragem', de Brecht, Bete Coelho habita um mundo que descobriu que o caos é moeda

Em cartaz no Sesc Pompeia, atriz vê obra de como reveladora do humano mais mesquinho que virtuoso

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2019 | 03h00

Grande protagonista da peça Mãe Coragem e Seus Filhos, Anna Fierling é uma figura tão contraditória quanto admirável. A personagem despertou uma simpatia na plateia não planejada por Bertolt Brecht, na estreia da peça em 1949. Seu objetivo era criticar o fascismo e a destruição da guerra. É nesse cenário hostil, ambientado na Guerra dos 30 anos, que a atriz Bete Coelho assume a combinação de bravura com inconsequência dessa rara guerreira no espetáculo Mãe Coragem. “Ela conseguiu transcender o autor”, afirma ela.

Produção grandiosa em cartaz no Sesc Pompeia e dirigida por Daniela Thomas, a peça escrita pelo alemão no início da Segunda Guerra Mundial aponta, em sua narrativa, para o histórico conflito de católicos e protestantes europeus, no século 17, que deixou 8 milhões de mortos. 

No meio dessa desolação, Anna Fierling, batizada de Mãe Coragem, vive e lucra. Com sua carroça e um destino selado, ela tropeça pelos fronts, acompanhada dos três filhos, Eilif, Queijinho e Kattrin, para lucrar com a venda de objetos. “Ela não esconde que ama e odeia a guerra, com a mesma força”, conta Bete. Seu apelido é como a medalha de uma mulher que se arriscou, mesmo que não tenha ganhado muito com isso. “Ela é o exemplo de um ser capaz de tomar apenas péssimas decisões”, define Daniela.

Mas a mulher não é a única que tem que se contentar com migalhas distribuídas nas três décadas de conflito. O capelão (Ricardo Bittencourt), a prostituta Yvette (Amanda Lyra) e os soldados lamentam, mas confessam as vantagens obtidas nesta paz armada. “Brecht já criticava ali o fascismo, que retira as individualidades e suspende os direitos”, afirma a atriz. 

Na cena em que o filho do meio é capturado pelos soldados, Mãe Coragem precisa negociar a soltura do rapaz nos termos dos oficiais. Em seu modelo de teatro, Brecht concebia cenas como essa para despertar a reflexão crítica na plateia. Para garantir o efeito de distanciamento, ele programava a própria cena para “lembrar” o público de aquilo não era um drama. “É por isso que quando a Mãe Coragem fala: ‘A corrupção é nossa única esperança’, é como se ouvíssemos Brecht dizer, pela boca dela”, defende a atriz. 

Para a diretora, a peça já antecipava tempos tenebrosos, que sempre retornam. “É cíclico como o humano pode nos levar para lugares horríveis.”

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O horror particular vivido por Kattrin, filha de Mãe Coragem, garante que a personagem muda seja a grande heroína do espetáculo em cartaz no Sesc Pompeia. Para Bete Coelho que interpreta a brava Anna Fierling, a menina “a quem a voz foi tirada” é simbólica em seu silêncio. “Quando olhamos o trabalho de um ator, consideramos as falas. A personagem de Luiza Curvo precisa de muito mais que palavras para expressar o que sente naquele ambiente hostil.”

A atriz considera que a desigualdade imposta a todos os personagens se aprofunda na incapacidade da jovem de se comunicar. “Nos dias de hoje, vejo como é importante os movimentos de afirmação das mulheres, dos negros e da diversidade sexual. É uma forma de encontrar voz e expressão, e também descobrir a contradição presente na liberdade.” 

Não só no silêncio de Kattrin, mas a montagem com tradução de Marcos Renaux e direção de Daniela Thomas encontrou desafios na transposição da peça alemã. As canções propostas por Brecht seguem o mesmo estilo – estranho – da narrativa. Para a Bete, a o trabalho da direção musical de Felipe Antunes foi o de abrir clareiras. “Não há rimas, nem nada que nos ajude a fixar, é como se a música acompanhasse o arrastar da carroça pelo campo de guerra.”

Observar o fenômeno criado pelo autor alemão não significa que Mãe Coragem mereça uma medalha de resistência por serviços prestados na guerra. A crítica do autor revela os interesses baixos do governo, da religião, dos militares e da própria família. No fundo, o humano, qualquer que seja está a patinar no lamaçal. “O impulso pela sobrevivência é revelador”, afirma a atriz. “Essa matéria da qual somos feitos nem sempre transcendental, é muitas vezes ordinária e mesquinha. Mãe Coragem vai perdendo os filhos, um por um, enquanto tenta lucrar aquela carroça velha.” 

Na desolação, ninguém é poupado de ouvir algumas duras verdades, Anna Fierling é chamada de “hiena do campo de batalha” mas ela também critica o oportunismo do capelão e seus conchavos com o general. Quando a prostituta Yvette casa-se com um decrépito general, e mais tarde surge orgulhosa e elegante em seu vestido de luto, Mãe Coragem alfineta: “Pelo menos você não está mal: já é alguém a quem a guerra faz bem.’

Não é a primeira vez que Bete e Daniela colaboram na cena. Em Pentesileias, a atriz dirigiu e também atuou na adaptação de Daniela. Mãe Coragem é a segunda direção de Daniela, que estreou Da Gaivota, com Fernanda Torres e Fernanda Montenegro. 

No projeto brechtiano idealizado por Bete e pelo cenógrafo Cássio Brasil, Daniela vê Mãe Coragem como uma obra-presente a grandes atrizes. No Brasil a personagem já foi vivida por Lélia Abramo, na primeira montagem nacional, em 1960. Maria Alice Vergueiro foi dirigida por Sergio Ferrara em 2002 e em 2008 foi a vez de Louise Cardoso, na montagem da Armazém Cia de Teatro, com Patricia Selonk no papel de Kattrin. “É grandioso que temos atrizes brasileiras com repertório para uma peça como esta.”

MÃE CORAGEM. Sesc Pompeia. Rua Clélia, 93. Tel.: 3871-7700. 3ª, 4ª, 5ª, 6ª, sáb., 20h30, dom., 18h30. R$ 40 / R$ 20. Até 21/7.

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