A peregrinação nos intervalos de ‘Entrepartidas’

A peregrinação nos intervalos de ‘Entrepartidas’

Leandro Nunes

12 Dezembro 2016 | 12h37

A distância nunca foi desafio para o teatro. A capacidade de promover comunhão pode surgir mais entre fronteiras que apenas na comunhão do palco-público-plateia. Combinar esses dois elementos se torna mais contundente que fazer temporada com um espetáculo por diversas cidades do País.

Desde 2010 o espetáculo do Teatro do Concreto reúne em sua dramaturgia o desejo de peregrinar no urbano em busca do resgate da intimidade. De setembro a dezembro desse ano, o espetáculo foi de Planaltina (DF) a Ouro Preto (MG), passando por cidades de Goiás, Rio de Janeiro e Minas.

Na empreitada, o discurso concretiza em histórias as tribulações naturais que podem existir em duas pessoas separadas por muitos quilômetros. A dramaturgia de Jonathan Andrade observa os universos permeados pelo prazer do encontro e da dor da despedida.

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Desacelerar o ritmo – Foto: Diego Bresani

No entanto, como o teatro deve ser, a encenação de Francis Wilker vai englobar além dos atores fixos, um cordel de artistas por onde o ônibus da peça percorrer.

No Rio de Janeiro, onde a montagem foi acompanhada pelo Café-Teatro, o espetáculo inicia às portas de um cemitério. O ônibus que nos aguarda captura o melhor humor urbano: um motorista irônico e entediado. Ele é o principal contraponto de todo elenco, que seguirá em um outro tom.

Mergulhado numa rara chuva carioca, o ônibus vai singrar por uma pequena área, embora a sensação seja de que foram muitos quilômetros. As diversas paradas servem para construir as narrativas longe do tempo da cidade. As histórias exigem que se desacelere o ritmo.

Entre elas está a de uma mulher que vai viajar, mas não sabe o destino, uma criança que quer conquistar uma garota, uma jovem que retorna para a casa onde nasceu e cresceu.

Na montagem, a esperança oferecida é açucarada. O prazer do caminho é tido como a missão da felicidade, mais que o destino. É a jornada que amadurece as relações, sejam as partidas solitárias ou em conjunto.

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Deriva na urbe – Foto: Diego Bresani

Nesse trânsito, a entidade que abre a montagem no cemitério percorre as encruzilhadas como se estivesse em estado de abandono. Sua trajetória abre outra via que alcança o destino dos abandonados, de quem ficou pelo caminho e junto perdeu a identidade.

Em uma das paradas, o público é convidado a adentrar uma casa. Lá dentro, dois casais gays discutem as implicações do relacionamento e a sobrevivência com a distância. De um lado, duas mulheres sofrem com o futuro desconhecido e o inevitável abandono.

O segundo, formado por rapazes, compreende a necessidade da despedida, e que a ausência vai transmutar a relação. A cena é selada com um beijo demorado, e é interessante perceber pessoas entre o público que baixam os olhos para não encarar a intimidade.

A vivacidade que é conquistada construída na montagem está nos intervalos percorridos – ao amalgamar o urbano e no convite aos artistas locais – mais que no texto, que não alcança o drama e recorre a um tom didático para a refletir sobre a existência.

O embate entre figuras e seus destinos é menos concreto que o embate dos casais gays, por exemplo, já que, para estes, o conflito está centrado em uma relação palpável, a dor é sublimada a partir do atrito entre os pares. O que não acontece quando o interlocutor é mais fugidia e impessoal, como a distância, o meio do caminho e a despedida. Ao não articular essa poesia, é oferecido como motor narrativo relatos unidimensionais concentrados de emoção.

(O jornalista viajou a convite da produção)