PIQUE-BANDEIRA FILMES
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'Arábia', de Affonso Uchôa e João Dumans, dá voz ao povo brasileiro trabalhador

Filme é situado no que não deixa de ser a periferia da cidade histórica mineira, o Bairro Operário, distante do olhar dos turistas

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

05 Abril 2018 | 06h00

Foi um longo caminho até a estreia de Arábia nesta quinta-feira, 5. O filme começou a nascer em 2011, quando o projeto foi aprovado, mas os dois diretores, Affonso Uchôa e João Dumans, já trabalhavam em outro filme. A Vizinhança do Tigre, assinado somente por Affonso, estreou em 2014 e então eles puderam se dedicar integralmente a Arábia. É o maior filme brasileiro do ano – temerário, afirmar-se isso em abril, quando ainda restam oito meses pela frente –, o maior filme brasileiro em muitos anos. Uma obra-prima de prosódia mineira, uma investigação sobre o universo dos trabalhadores.

E há, claro, a inspiração joyciana – o conto homônimo de Dublinenses. Mas não é uma adaptação. “A descoberta de Dublinenses foi, para nós, muito importante, porque cristalizou uma inquietação que a gente estava sentindo, uma busca que já estava fazendo. O (James) Joyce aborda o universo proletário nas narrativas de Dublinenses. Veio daí um plot, uma inspiração para o que já estávamos buscando. Arábia nasceu da nossa fascinação pelo Bairro Operário de Ouro Preto”, conta Affonso. Situado no que não deixa de ser a periferia da cidade histórica mineira, o Bairro Operário é quase outra cidade, distante do olhar dos turistas.

“É curioso como as pessoas que moram no Bairro Operário não se sentem fazendo parte de Ouro Preto. Elas dizem ‘Hoje eu vou lá no Ouro Preto’, ‘Ontem eu fui’. O bairro remete a uma era de influência na mineração, nas fábricas. Havia esse hábito na Inglaterra. No urbanismo do século 19, as casas de operários eram construídas próximas das fábricas. Vida e trabalho eram tudo a mesma coisa. E existe o Bairro dos Engenheiros, que hoje virou uma das áreas mais valorizadas de Ouro Preto. É nítida a diferença de classe. A gente já vinha pensando nisso, e assim foi se construindo a história de Arábia.”, relata João.

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Um jovem descobre o diário de um operário metalúrgico que sofreu um acidente. Lê as suas anotações e descobre sua história. Cristiano/Aristides de Souza levou essa vida errante pelas estradas de uma Minas interiorana. Teve diversos empregos – melhor seria dizer trabalhos, porque por alguns não tinha vínculo nenhum, não tinha nem paga. Conversas com amigos. Sexo ocasional, e o amor. Um romance sofrido, e tomara que a definição não afugente o público que, no Brasil atual, escolheu o humor – a comédia – como o espelho no qual gosta de se ver refletido. Rir da miséria, da dor, do sofrimento. Não é a praia de Affonso Uchôa e João Dumans – o segundo foi roteirista em A Vizinhança do Tigre, que se passava em Contagem, Minas. Muita gente se perguntava onde estava o Tigre na Vizinhança. Vai se perguntar o porquê de Arábia. Tem uma história, uma piada. Lembra vagamente Eugene Ionesco, A Cantora Careca. (cuidado, spoiler a seguir) A peça já está quase acabando quando alguém pergunta – “E a cantora careca, hein?”

Arábia também surge en passant. Tudo frágil. A dureza da vida feita humor. A Vizinhança já tem Aristides de Souza como Juninho. Seus amigos e ele nas esquinas (perigosas) de Contagem. Jovens à deriva. Cadeia, morte. Aristides é o narrador. O garoto lê o diário e a voz de Aristides – lembranças de Juninho – torna-se o off de Arábia. “Esse filme, que tem todas essas inspirações – o Bairro Operário, Joyce –, na verdade é impregnado da obra de três escritores que amamos”, e aí Affonso e João falam em uníssono, derramando seu entusiasmo por Graciliano Ramos, João Antônio e Oswaldo França Jr.

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“O off de Paulo Honório em São Bernardo foi uma bússola, e terminamos percebendo quanto aquilo é difícil. É preciso a potência de um ator como Othon Bastos (o longa de Leon Hirszman).” São Bernardo é sobre a obsessão da posse por um homem. Paulo Honório quer ter as terras, a fazenda, a mulher. Tudo seu. Arábia é sobre quem não tem nada – a tragédia da espoliada classe trabalhadora brasileira. “Veja que quando começamos a trabalhar nesse filme ainda não haviam ocorrido todas essas propostas de reforma que estão espoliando ainda mais a classe operária brasileira.” O repórter observa como é curioso que Arábia, tendo sido gestado antes, esteja chegando aos cinemas numa leva de filme que colocam na tela o trabalho, e o trabalhador.

Corpo Elétrico, de Marcelo Caetano, Pela Janela, de Carolina Leone, Boi Neon, de Gabriel Mascaro. “Se a gente pensar a história da classe trabalhadora brasileira, é uma história de dor, de luta por inclusão. Ganhos e perdas fazem parte desse processo. Ao falar de perda, o filme fala sobre a possibilidade de recomeçar, reinventar-se”, diz Affonso. E João – “Nosso off sempre foi fundamental. Ele é o filme. Tinha de ser forte. Nada de arrogância acadêmica e intelectual. A voz de dentro. Sincera, autêntica. Escrevemos o texto, mas vimos que não seria fácil. Não podia ser completamente naturalista nem empostado, porque ficaria artificial. O Aristides sofreu para achar o tom e dar todo o peso às palavras.”

Pode ter sofrido, mas a pungência de sua fala surge para fazer história no cinema brasileiro. Affonso Uchôa e João Dumans pertencem a uma geração de cinéfilos mineiros cuja história se confunde com a do Cineclube Humberto Mauro, de Belo Horizonte, no qual foram programados. O repórter insiste – eles citaram três autores. E Guimarães Rosa? “O Guima foi um grande proseador, um inventor da linguagem. Ele descobriu todo um mundo nos jagunços – sua fala, suas histórias, sua maneira de ser. As Minas são Gerais. São muitas. A gente vê essa riqueza, esse mundaréu nos trabalhadores. É deles a riqueza de Arábia.”

Arábia | Trailer - English subtitles from Katásia Filmes on Vimeo.

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