Claire Merchlinsky/The New York Times
Claire Merchlinsky/The New York Times

Samira Wiley e Uzo Aduba ainda lembram da vida antes do sucesso

Atrizes indicadas ao Emmy por seus papéis em 'O conto da Aia' e 'Mrs. America', demonstram afeto mútuo ao falarem sobre como 'Orange Is the New Black' ajudou a moldar suas carreiras, suas abordagens para novos papéis e a elas mesmas

Trish Bendix, The New York Times

02 de setembro de 2020 | 10h00

Oito anos atrás, Samira Wiley e Uzo Aduba eram atrizes que tentavam sobreviver em Nova York prestando serviços quando fizeram um teste para uma nova série de um serviço de aluguel de filmes que virou uma plataforma de streaming chamada Netflix.

Depois da estreia de Orange Is the New Black no verão de 2013, elas se viram no centro de um novo seriado de sucesso e de uma mudança radical na TV, à medida que a Netflix continuava sua evolução para uma força reformuladora da indústria.

Este ano, a Netflix estabeleceu um recorde no Emmy com 160 indicações no total, e Samira e Uzo estavam entre elas. Samira foi indicada como melhor atriz coadjuvante em um drama por interpretar a ativista lésbica feminista Moira em O conto da Aia, da Hulu, sua terceira indicação pelo papel. Uzo foi indicada como melhor atriz coadjuvante por interpretar a pioneira congressista Shirley Chisholm, que concorreu à indicação presidencial do partido Democrata em 1972, na série do canal FX Mrs. America.



“Para os atores, não é uma certeza que você vai conseguir um papel em uma atração em que, primeiro, é um papel incrível, e, segundo, é um seriado que as pessoas assistem”, disse Samira. “Não sei como aconteceu que ambos os seriados dos quais participei tenham atravessado o zeitgeist, mas é incrível.”

O triunfo de Orange Is the New Black se deveu, em parte, à tapeçaria de seu elenco diversificado. Uso e Samira, interpretando personagens queer negras, eram as favoritas dos fãs. Uzo ganhou dois Emmys por sua abordagem afetuosa e afável em relação a Suzanne “Crazy Eyes” Warren. (Graças ao seu desempenho indelével e a uma mudança nas regras de classificação do Emmy, ela ganhou prêmios pelo papel nas categorias de comédia e drama.) A sincera e andrógina Poussey Washington de Samira era tão querida que alguns espectadores pararam de assistir ao seriado depois que sua personagem foi morta por um guarda no final da 4ª temporada - Uzo entre eles.

“Fiquei muito triste”, disse Uzo durante uma conversa recente por Zoom com a participação de Samira também. Uzo disse que chorou ao ler a última fala do roteiro, que descrevia Poussey exibindo seu sorriso característico uma última vez.

Enquanto a 5ª temporada estava sendo filmada, Samira lembra de ter ligado para Uzo ou outro colega de elenco, e eles estarem juntos no set. “Foi muito difícil no início, quando todos eles ainda estavam lá”, disse ela

O afeto mútuo das atrizes ficou evidente durante a conversa no final de agosto. O que começou como uma entrevista a respeito do Emmy, rapidamente se transformou em Uso e Samira entrevistando uma outra em relação a Orange e como isso ajudou a moldar suas carreiras, suas abordagens para novos papéis e a elas mesmas. Estes são trechos editados da conversa.

 

Qual é a sensação de ser indicada mais uma vez? Ainda é tão emocionante quanto as primeiras vezes?


SAMIRA WILEY: Ainda é incrível para mim. Um Emmy é o maior prêmio que você pode aspirar em nosso trabalho. Desta vez não é diferente.

UZO ADUBA: Na manhã das nominações, eu estava ao telefone (com suas colegas de elenco indicadas por Mrs. America Margo Martindale e Tracey Ullman) e elas estavam igualmente animadas. Tracey tem cerca de 95 Emmys, Margo a mesma coisa. Também acho que há um elemento de perceber - Samira e eu, tenho certeza - que houve uma vida inteira de penúria. A apreciação está aí. Não é como se eu tivesse trabalhado naquele restaurante há 50 anos. É uma lembrança recente.

SAMIRA: E para você, Uzo, ser indicada por um papel completamente distinto, imagino que seja diferente.

UZO: Foi uma boa sensação. A mesma que senti quando consegui o papel, em que fiquei tipo, "Graças a Deus não vou trabalhar [como garçonete] de novo." Estou sendo 100% honesta - era esse o sentimento.

SAMIRA: Foi incrível apenas conseguir um papel. Quando queria ser atriz, não foi algo por ser criança e assistir à TV vendo pessoas em todos os lugares que se pareciam comigo. E acho que começou com Orange, porque parecia um verdadeiro afastamento de ter essa mulher idealizada na televisão, desde o tempo de, sei lá, Leave It to Beaver. Onde há essa beleza e perfeição inatingíveis, em vez de ter mulheres que você pensa: "Oh, sou eu. Essa é minha tia. Essa é minha mãe. "

UZO: Entendo o que você diz em relação a Orange e a singularidade disso - as pessoas que não estavam ganhando espaço, agora estão ganhando espaço. Agora os seriados estão sendo feitos para mulheres e pessoas que não são apenas brancas, e eles estão atingindo o zeitgeist de uma maneira poderosa. Em parte por causa do clima social, mas também porque há algo reconhecível.

SAMIRA: Além disso, a relevância dos seriados. Como em Mrs. America, vivemos em uma época em que temos uma candidata negra à vice-presidência (senadora Kamala Harris). E O conto de Aia – sabemos das semelhanças com ele.

UZO: É como se Mrs. America fosse a história da nossa história, certo? O ditado diz: “Aprenda sua história ou estará fadado a repeti-la”. E O conto de Aia está nos mostrando como nosso futuro poderia ser, se não aprendermos com nosso passado.

SAMIRA: No momento, estou tentando fazer com que as pessoas se registrem para votar e tentando me concentrar nas diferenças entre o que está acontecendo (em Gilead) e o que está acontecendo aqui. Depois de interpretar Shirley, o que você achou de Kamala? (Shirley) é uma personagem tão icônica, assim como dar vida a ela da maneira tão bonita como você fez.

UZO: Quando você para e pensa a respeito do que essa mulher escolheu fazer com a vida dela  - e mais especificamente quando, porque pense em como é poderoso hoje ver a senadora Harris. Esta mulher estava fazendo isso há quase 50 anos! Isso apenas faz você entender a coragem que essa mulher tinha - isso foi tão significativo para mim e uma verdadeira experiência de humildade. Há outra geração de pessoas que pensam de forma diferente em relação a si mesmas.


 

Deixe-me perguntar: como é agora ter feito parte de duas histórias que impactam a cultura?

SAMIRA: Interpretar Poussey, conhecê-la - passei quatro anos com ela e estava muito em contato com as coisas que ela me ensinou. Ela é tão leal. Seu centro moral é tão centrado, é imóvel. Esse seriado me ajudou a entender o tipo de pessoa que eu quero ser. E Moira é alguém que me ensinou a abraçar meu ativismo, ser uma defensora da comunidade LGBT, ser uma defensora da comunidade negra e não ter medo de falar. É um grande presente poder ter vivido com essas mulheres, ser capaz de moldar quem é Samira.

UZO: Elas moldaram Samira? Ou você acha que Samira as moldou também?

SAMIRA: Lembro-me de estar na escola, tentando criar um personagem e dizendo ao meu professor que não conseguia acessar algo. Nunca esquecerei o que meu professor disse: "Bem, não há ninguém para se espelhar além de você mesma." Você não pode criar algo assim do nada, isso vive dentro de você em algum lugar. Então isso está sempre na minha cabeça: tem que vir de mim. Mas essas [interpretar] pessoas, é quase como uma terapia. Ter conversas internas com Moira e Poussey me fez perceber essas coisas que estão dentro de mim e agora me sinto confortável em trazer à luz.

Algo que você acabou de fazer, que eu nunca fiz e adoraria fazer um dia - e agora você foi indicada ao Emmy por isso - é fazer o papel de uma mulher que existiu de verdade. É gratificante de uma maneira diferente?

UZO: Ainda assim há espaço para criação. Obviamente, há uma licença dramática com certas cenas, e há uma preocupação com a parte externa - elementos-chave quanto a quem era Shirley, em termos de ter ouvido seus discursos. "Por quê?" é sempre a primeira pergunta: Por que estamos fazendo isso? Por que estou fazendo isso? Se há zilhões de filmagens de Shirley Chisholm, por que precisamos de uma atriz para fazer isso?

Então, eu estava assistindo a um documentário chamado Unbought and Unbossed, e nos últimos 10 minutos há uma cena em que ela está liberando seus delegados (do Colégio Eleitoral). Ela os deixa ir, ela está nos bastidores, e simplesmente começa a chorar. Você podia sentir o peso de algo em suas lágrimas e me lembro de ter pensado: "Essa é a verdadeira Shirley Chisholm." Quero contar a história dessa pessoa, quando ela vai para casa e não está correspondendo às expectativas de todos em Bed-Stuy e de todos os negros nos Estados Unidos e de todas as mulheres nesta convenção de partido que estão ansiosas por ter uma mulher como presidente. Ela claramente tem uma ideia diferente de quem ela é no mundo do que essas definições limitadas que o mundo tem para ela - estou interessada em chegar ao cerne disso.

É quase como uma fotografia em Mrs. America, enquanto que [em O conto de Aia] assistimos à jornada completa de Moira. Como é vê-la crescer, vê-la se expandir?

SAMIRA: Quando eu estava em Orange, tudo era tão novo. Tipo, eu não conversaria tanto com os roteiristas. Eu só queria estar ali, ao fundo, grata e agradecendo. E agora estou em um lugar onde me sinto muito confortável em poder conversar sobre Moira e para onde ela está indo, para onde eu quero que ela vá. Onde ela está flexível? Para quem ela guarda seus momentos de silêncio? Com quem ela fala?

Ser capaz de contar toda essa história e ter uma conversa com a equipe de redatores a respeito de onde eu quero que essa personagem vá me mostra, assim como aos nossos telespectadores, que minha história é importante; portanto, sua história é importante. Estou muito interessada na ideia, e na verdade, de que os negros não são uma coisa - não apenas não somos uma coisa, mas somos um monte de coisas mesmo dentro de uma pessoa. Então, estou ansiosa para poder ir a todos os lugares diferentes que Moira possa ir.

TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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