Pedro Saad/Netflix
Pedro Saad/Netflix

“De que lado você está?”, questiona série ‘3%’ em nova temporada

Primeira série brasileira da Netflix traz de volta, em sua segunda temporada, uma distopia futurista que se mostra bastante atual

Pedro Rocha, Especial para o Estado

26 Abril 2018 | 06h00

Se a primeira temporada de 3%, série distópica brasileira da Netflix, era movida em torno da discussão sobre a frase “você é o criador do seu próprio mérito”, a segunda, que chega ao serviço de streaming nesta sexta-feira, 27, faz uma pergunta muito atual para o País, mesmo estando num futuro fictício: de que lado você está?

“O tema da primeira continua nesta segunda, essa discussão sobre meritocracia”, diz o criador e roteirista da série, Pedro Aguilera, ao Estado. “Mas os personagens já viveram e tiraram conclusões sobre o Processo e o sistema social em que estão.” O Processo, no caso, é o mote inicial da série em sua primeira temporada – uma seleção anual dos 3% de jovens merecedores do chamado Continente, pedaço da Amazônia que se encontra em total destruição e grande pobreza, que podem migrar ao paraíso do Maralto, uma ilha no Atlântico, em que uma sociedade “perfeita” e bem abastada vive. 

A segunda temporada começou a ser escrita antes do agravamento da situação política real no País, porém, as duas coisas caminharam juntas. “Dada a polarização que a gente vive, surgiu essa pergunta, que está presente várias vezes no roteiro.” Segundo Aguilera, a intenção desde o começo foi que a série não deveria repetir, nos novos episódios, o esquema do Processo visto no primeiro ano. “Decidimos continuar com os protagonistas e expandir esse universo.”

Lendário na primeira temporada, o Maralto ganha vida na segunda, quando é visto pela primeira vez. Os cenários são reais, entre o parque de Inhotim, em Minas Gerais, e o litoral de São Paulo. É lá que reencontramos Michele, vivida por Bianca Comparato. A pergunta motora da nova temporada talvez se aplique a ela mais do que ninguém, já que continua dividida entre a Causa, grupo rebelde que se mobiliza contra o Processo, e a própria seleção, comandada por Ezequiel (João Miguel). “Ela sempre foi manipulada, pela Causa, por Ezequiel, porque a meta dela era encontrar o irmão”, explica a atriz. “Agora que ela o encontra, a discussão toma outro tamanho.”

O irmão é André, personagem cheio de mistérios de Bruno Fagundes, acusado de ter cometido o primeiro assassinato da história do Maralto. “É difícil falar do André porque ele é a personificação do spoiler”, brinca Bruno. “Ele carrega muitos segredos sobre a origem do Processo e sobre o que está acontecendo agora.”

Até a primeira temporada, a história que se ouvia sobre o Maralto é que ele havia sido criado por um “casal fundador”, mas a primeira cena da nova temporada começa a questionar essa origem, ao mostrar o trio formado pelos atores Maria Flor, Fernanda Vasconcellos e Silvio Guindane planejando a construção do local 100 anos antes. Os três são vistos apenas em dois episódios, em flashback, mas vão ter uma ligação importante com descobertas de Michele. 

Apesar da participação curta, Maria Flor comemora. “É muito legal participar de uma série que é viabilizada para 190 países.” Já Fernanda demonstra empolgação por ter trabalhado com efeitos visuais. “Sincronizar seu olhar com algo que só vai aparecer depois, na pós-produção, foi a grande novidade.” 

++ 50% de todas as horas assistidas de '3%' na Netflix são provenientes de mercados internacionais

Intervenção. De volta ao Continente, o público vai reencontrar também a personagem Joana, vivida por Vaneza Oliveira. Depois de perceber as falhas do Processo e desistir dos desafios impostos por Ezequiel, ela resolve se juntar à Causa. “Ela volta com desejo de mudança grande, se vê desafiada a confiar em outras pessoas e pensar no coletivo”, explica sua intérprete. “Esse ponto da história vai trazer mais humanidade para ela.”

Com a ajuda de Joana, a Causa dá uma guinada em sua luta e constrói uma ameaça real para o Processo, o que gera uma grande preocupação em Marcela (Laila Garin), chefe da divisão militar do Maralto – uma grande questionadora dos métodos de Ezequiel. É aí que ficção científica mais uma vez se mistura com a realidade atual do Brasil. “Ela acha que é preciso uma intervenção militar, agressiva e radical”, esclarece Garin.

Para a atriz, 3% seria mais uma metáfora do País nos dias de hoje que uma ficção científica abstrata. “Estamos falando de desigualdade social, de destruição ecológica, de grupos rebeldes que não aceitam o sistema”, diz. “Falamos de intervenção militar, ditadores e pessoas que não aceitam a diferença.” Rodolfo Valente, que retorna como Rafael, concorda com as comparações da colega. “A distopia do Brasil já começou, tem gente que não quer ver.”

Se os cenários do Maralto foram as belas paisagens de Inhotim, os do Continente foram fábricas desativadas e lugares decadentes do centro de São Paulo. “Fiquei assustada por viver no Continente sem alterar quase nada dos cenários reais”, afirma Bianca Comparato. “Claro que teve o trabalho da direção de arte, mas interferimos pouco. Estamos muito próximos dessa distopia.

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