MARIANA SER
MARIANA SER

Circo arma picadeiro negro no Teatro Municipal

‘Prot(AGÔ)nistas’, com artistas negro em cena, abre festejos do centenário da Semana de 22

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2019 | 03h00

Poesia na velocidade de um tweet. Música e informação, teatro e as séries de streaming. É na busca por uma nova ruptura nas artes – iniciada lá em 1922, com a Semana de Arte Moderna – que o Teatro Municipal abre o projeto Novos Modernistas, em comemoração do centenário do movimento artístico.

É com essa inquietação que o espetáculo Prota(AGÔ)nistas sobe ao palco nesta quarta, 8, com um debate urgente sobre negritude e o espaço dos artistas negros. A montagem estreou na última edição do Festival Internacional de Circo como uma celebração – são 21 artistas negros em cena. “Reunimos a qualidade artística e técnica do circo com pautas que interessam à comunidade negra”, aponta o diretor Ricardo Rodrigues. “Uma delas é a ocupação dos espaços culturais por artistas negros. Aliás, esse movimento de ir avante, já está marcado graficamente no nome do espetáculo ao destacar a palavra agô. De origem iorubá, é usada para se fazer um pedido de licença, seja ao entrar ou sair. “O hábito é que a sociedade esteja organizada com brancos em posição de destaque, enquanto os negros servem de suporte. Não é diferente nas artes”, conta. “O que fazemos é assumir esse protagonismo. Agô!”

Ao reunir os principais temas de interesse da comunidade – como o combate ao racismo e à violência –, o espetáculo lança mão dos números tradicionais de circo. Em Prota(AGÔ)nistas, o público vai acompanhar os clássicos números de palhaço e bailarina, tecido, perna de pau, acrobacias, faixa aérea, malabares e números musicais. Rodrigues acrescenta que haverá um número inspirado em uma dança de mineiros africanos. “Era comum que negros de diferentes línguas fossem colocados para trabalhar juntos nas minas. Tudo para que eles não se comunicassem, evitando que se fortalecessem ou que armassem algo contra os senhores. Essa dança, feita com o uso de botas, lembra a movimentação deles no espaço restrito.”

Para ele, o Municipal carrega consigo uma importante história e o espetáculo busca apresentar um ponto de vista. “Sabemos que quando o Municipal foi construído, com sua arquitetura eurocêntrica, o objetivo era servir a um tipo de sociedade, geralmente os mais privilegiados. Hoje, com tantas transformações, ver um artista negro nesse palco provoca aquela sensação de ‘Olha, tem alguém como eu naquele teatro. Eu quero estar lá com os meus pretos.’”

Novos modernistas

Para o diretor do Municipal, Hugo Possolo, o projeto Novos Modernistas pretende reunir artistas e expressões entre as mais antenadas na cidade. Se havia quase 100 anos, os modernistas originais rompiam com o formalismo e o estilo acadêmico, em prol de experimentações cada vez mais livres, o desafio dos que estão por aí é cada vez mais complexo. “Podemos pensar que o desenvolvimento da tecnologia sempre deu ritmo a esses movimentos. A contracultura cresce atrelada aos meios de comunicação de massa’, afirma Possolo. “O avião também inspira essa velocidade. O mundo cada vez mais conectado. Nos dias de hoje, o smartphone ganha esse lugar, onde tudo acontece, onde a informação é criada e por onde circula. Os assuntos nas rodas é qual série você está assistindo.” 

Na direção artística do Municipal desde fevereiro deste ano, quando assumiu a convite do secretário municipal de Cultura Alê Youssef, Possolo deseja reunir expressões artísticas pulsantes que não tenham sido criadas visando a um teatro de 1.500 lugares. “A integração entre as artes e uma visão multicultural estão em todo lugar. O slam, por exemplo, ganhou muita força nos últimos anos. O Municipal pode abrigá-lo.” 

Criado nos anos 1980, nos EUA, o movimento da “poesia falada”, também chamada de batalha de versos, resgatou a oralidade na periferia de Chicago com poetas contemporâneos abordando temas como violência, racismo, drogas e política, rodeados de pessoas, celebrando a língua e música. “Pela cidade acontecem inúmeros slams, com esse estilo ágil, a força da poesia e o debate de temas urgentes”, diz Possolo. “Se olharmos para trás na história do Brasil, vamos encontrar o repente, acompanhado do mesmo improviso e da música. Penso que sempre que houver uma nova interação, haverá transformação. Isso não vai parar.”

Diante da gestão de um importante equipamento cultural, Possolo ainda deve anunciar as próximas atrações do Novos Modernistas enquanto finaliza a programação de óperas e concertos para o segundo semestre, que também deve acontecer fora do Municipal. “Vamos levar alguns trabalhos da programação para outros espaços da cidade.”

PROT(AGÔ)NISTAS. Teatro Municipal. Praça Ramos de Azevedo, s/nº. Tel.: 3053-2100. 4ª (9), 20h.  R$ 10. Até 8/5

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