Don Peterson
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'Strange Fruit', na voz Billie Holiday, um hino contra os linchamentos

A música transformou a cantora numa estrela, mas foi composto por Abel Meeropol, um professor do Bronx. Uma indicação ao Oscar e um ano de protestos contra o racismo tornaram a música de novo atual

Bryan Pietsch, The New York Times

28 de abril de 2021 | 15h00

Quando Billie Holiday cantou Strange Fruit pela primeira vez em 1939, a música era tão audaciosa para sua época que ela a apresentou em apenas alguns lugares considerados seguros para isso.



A música compara os corpos linchados de negros ao “estranho fruto dos álamos”.

Ahmet Ertegun, o lendário executivo de música exortou a canção como “uma declaração de guerra” e “o início do movimento pelos direitos civis”.

Strange Fruit recebeu nova atenção desde que Andra Day foi indicada ao Oscar de melhor atriz pela sua interpretação da cantora no filme Os Estados Unidos versus Billie Holiday. O filme, lançado na plataforma Hulu em fevereiro, relata a posição de desafio de Billie face aos esforços do governo para suprimir a música.

Billie popularizou a música, levando muita gente a acreditar que ela era responsável pela letra perturbadora, uma ideia reforçada no filme de 1972, Lady Sings the Blues, que sugere que ela, interpretada por Diana Ross no filme, compôs a música depois de presenciar um linchamento.

Na verdade, ela foi composta por Abel Meeropol, um professor judeu branco do Bronx.



Abel compôs Strange Fruit ao ver uma foto do linchamento de Thomas Ship e Abram Smith em Marion, Indiana, em 1930. A foto tirada por Lawrence Beitler mostra dois corpos pendurados em uma árvore com uma multidão de brancos olhando, alguns sorrindo. Milhares de cópias da fotografia foram impressas e vendidas, segundo a National Public Radio.

Abel Meeropol, usando o pseudônimo Lewis Allen, não compôs a música para Billie. A letra foi publicada pela primeira vez como um poema na revista do sindicato dos professores de Nova York, em 1937.

Abel era conhecido por suas ideias comunistas e por ter adotado os dois filhos de Ethel e Julius Rosenberg, acusados e executados por espionagem. A mulher do professor, Anne, cantou Strange Fruit, como também outras cantoras, antes de Billie a apresentar no Café Society, uma boate de Nova York integrada, que recebia brancos e negros, em 1939.


 


Na época, a mensagem da música - com frases como “cena bucólica do Sul valente, os olhos saltados e a boca retorcida” - era extremamente controvertida.

Mas em 2021, a nação continua seu acerto de contas no caso de uma série de assassinatos de negros desarmados por policiais, com frequência vistos em fotos de negros sendo mortos ou, como no caso de George Floyd, sufocados com o joelho de um policial branco apertando sua garganta. Strange Fruit manteve o seu lugar nos debates nacionais sobre o racismo.

A música “será relevante até a polícia começar a ser condenada pelo assassinato de negros”, disse Michael Meeropol, um dos filhos de Abel, no programa This Morning, da CBS, antes da sentença que condenou Derek Chauvin pela morte da Floyd.

“Quando isso ocorrer, talvez então Strange Fruit se torne uma relíquia de um passado bestial”, afirmou ele. “Mas até então, ela é um espelho de um presente bestial”.


TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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