Arquivo pessoal
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O João Gilberto que Zuza Homem de Mello nos deixou

'Estadão' lê com exclusividade o livro ‘Amoroso – Uma Biografia de João Gilberto’, finalizado horas antes da morte do pesquisador e com lançamento previsto para 4 de novembro

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2021 | 05h00

Às 22h30 de um sábado, dia 3 de outubro de 2020, Zuza deitou-se ao lado de Ercília. Estava exausto mas feliz. Havia acabado de revisar a lista de agradecimentos da biografia sobre João Gilberto e escrito, sem que a mulher soubesse, as palavras que fechavam sua obra: “Finalmente a você, minha amada Ercília, companheira que o destino – destino em termos, é verdade – me concedeu para trilharmos juntos o caminho certo dos encantos da natureza, da pureza das amizades, do amor dos filhos e netos e do esplendor da música, desfrutando a plenitude da vida e conservando ‘a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo...’ Zuza, primavera de 2020”. À 1h30, quando já dormia, ele emitiu um suspiro duplo, suave, mas incomum. Ercília o chamou, mas já era tarde.

Como se cumprisse uma promessa feita a si e a Ercília por muitas vezes, a de só ir embora depois de escrever sobre o maior de todos os gigantes que viu de perto e em ação, incluindo Thelonious Monk, Ella Fitzgerald, Miles Davis e Ornette Coleman, Zuza partiu minutos depois de deixar algo que já não seria mais uma biografia. Amoroso, o livro sobre João, ao qual o Estadão teve acesso exclusivo, traz o mais factível de todos os entendimentos publicados sobre a vida, o violão e a voz de um organismo indivisível e complexo, criança e milenar, leve e intenso. Mais do que narrar fatos cronológicos, a vida de João se conta por um cruzamento de almas, como se Zuza Homem de Mello tivesse vivido 87 anos para entender João Gilberto.

Amoroso – Uma Biografia de João Gilberto será lançado pela editora Companhia das Letras no dia 4 de novembro, mas o livro já está em pré-venda. O pesquisador fez 48 entrevistas para ampliar e aprofundar um primeiro livro sobre João publicado como ensaio pela Publifolha, em 2001. Vasculhou arquivos de jornais e sua própria hemeroteca e viajou para Porto Alegre e Rio de Janeiro ao lado de Ercília em busca de novas fontes. Nas primeiras páginas, uma dedicatória é feita a outro João: “Para João Bosco, meu amigo tão querido, superlativo integrante de honra da galeria da nobreza da música brasileira. Ouvindo você e ouvindo João Gilberto vivo momentos inesquecíveis, os mais sublimes da música”.

Durante o período mais grave da pandemia, Zuza trabalhava duro. “Ele ia dormir entre 22h30, 23h e acordava às 3h da manhã. Trabalhava até as 7h e dormia de novo até as 10h. E, depois do almoço, seguia trabalhando. Foi assim até o fim”, conta Ercília. Das maiores realizações que Zuza sentia, conforme contava a amigos próximos, estavam partes do livro que julgava importantes para desvendar o que a falta de entendimento fez se tornar mistério. Ao Estadão, Zuza disse que não iria apostar no anedotário sedutor e mitológico. “Eu só vou contar aquilo que eu apurar, aquilo que do que tiver certeza.” E citou, como exemplo, a história do gato que teria pulado da janela por não aguentar mais João ensaiando. “Alguém entrevistou o gato para saber se era isso mesmo?”

Assim, Zuza não despreza o pitoresco de João, ou não seria João, mas foca em informações entremeadas a insights que levam o leitor a uma biografia reflexiva. É preciso habilidade para falar de termos mais técnicos de uma forma que qualquer um possa entender. Não é fácil, por exemplo, explicar o que são as famosas síncopas que João usava em suas divisões, mas Zuza consegue. Ele usa um exemplo primitivo, as palmas, para explicar o que, na música de João, trazia a “sensação do impulso”: “O leitor decerto já se sentiu impelido a estalar os dedos ou bater palmas em algum show de música. Você deve ter batido suas palmas no tempo forte, o primeiro dos dois tempos do compasso binário... Você bate palmas, aguarda um instante, e bate de novo. Esse instante da pausa é o segundo tempo, o tempo fraco ou débil. Se um belo dia você bater palmas justamente no segundo tempo, ao contrário da maioria da plateia, perceberá uma sensação de leveza, um impulso rítmico maior”. E segue até mostrar como João acentuava tempos que outros minimizavam.

Além de não perseguir a trilha do anedotário, o livro evita também as disputas familiares. Havia pouco, muito pouco de normalidade também no entorno de João, e muitos episódios mesmo públicos que envolveram personagens como as mulheres Claudia Faissol, Maria do Céu e os filhos Bebel e João Marcelo não têm espaço. “Ele não queria saber dos problemas da família do João”, diz Ercília. Suas apostas seguem por caminhos que ajudam a entender de que material era feito a essência do artista.

Porto Alegre era uma dessas caixas-pretas. Foi lá que Zuza se deparou com personagens obscuros e com as primeiras pistas sobre o início da sofisticação da harmonia de João Gilberto. Frustrado com o Rio, no verão de 1955, João partiu para Porto Alegre ajudado pelo músico Luis Telles, gaúcho do conjunto vocal Quitandinha Sereneders, que tinha Luiz Bonfá como um dos integrantes. Pois é na cidade gaúcha que ele encontra uma das figuras até então menos conhecidas dessa história, o compositor erudito Armando Albuquerque. E um dos momentos que fazem a biografia ser mais que uma biografia está aqui: “Que motivo haveria para a convivência restrita à música entre Joãozinho e Armando? Entre o universo dos conjuntos vocais e das orquestras sinfônicas? A meu ver, a resposta só pode ser uma: a harmonia”.

A saída de João de Juazeiro da Bahia não foi o início imediato de uma consagração. A vida no Rio seria dura até que alguém acreditasse em seu talento. Zuza persegue os passos do baiano desde a pequena cidade vizinha-irmã de Petrolina para saber, além das histórias já conhecidas mas incontornáveis – como a generosidade com os pobres, o comportamento na sala de aula e o dia em que ele voltou à cidade para o velório do pai e passou o tempo todo tocando violão triste na praça em frente à sua casa –, como é que João começou a ser João.

É onde entra o faro de Zuza. Ele faz questão de se ater na força dos alto-falantes da cidade, único meio de se ouvir música antes que as primeiras emissoras pudessem ser captadas. Chega a levantar as marcas das peças concorrentes, Alta-Falante Comercial, Alto-Falante Guarani e Alto-Falante Paraíso, e, o mais importante, que vozes saíam deles: Bing Crosby, Carlos Galhardo, Francisco Alves, Silvio Caldas, Dalva de Oliveira e Orlando Silva, enumera. Orlando, será dito mais de uma vez, será para sempre o cantor preferido de João. 

É graças a Orlando que João, na percepção de Zuza, começa a entender que as melodias não precisam estar acorrentadas aos tempos rítmicos. “João admirava Orlando por suas notáveis qualidades de dicção, de emissão vocal, de vibrato discreto e por uma característica peculiar: ele imprimia pequenas alterações na divisão, promovia antecipações e retardos que não existiam na melodia original”, descreve o autor.

João segue à deriva nesta primeira fase de Rio. “Morou aqui e acolá, à mercê da benevolência e paciência de ex-companheiros do Garotos da Lua ou de conhecidos que o abrigavam de favor.” É quando ele vai para Porto Alegre em busca de qualquer refúgio.

Há muitas boas histórias, como detalhes do famoso encontro com os Novos Baianos, sutilezas e mais tensão do que se imagina nas reuniões com o saxofonista Stan Getz, e com Tom Jobim, para a gravarem o álbum Getz/Gilberto, lançado em 1964, e que traria uma montanha de dinheiro ao músico norte-americano, intervenções de Zuza quando realmente convém (quando o texto biográfico se aproxima mais das análises críticas) e períodos de textos enviados por fontes que são reproduzidos na íntegra. É com eles que vai sendo criado um retrato inevitavelmente reverencial mas rico em ângulos diferentes. 

Uma observação em muitas dimensões. O engenheiro de gravação Moogie Canazio faz uma delas: “João, diferentemente da maior parte dos músicos com quem já trabalhei, não é um cantor que toca violão ou um violonista que canta. Ele próprio é um som. É sempre considerado problemático porque tem uma maneira de cantar e tocar que você não pode separar...”. Zuza revira João dos avessos e termina reproduzindo, no capítulo Adeus, um obituário que escreveu para o Estadão, publicado em 7 de julho de 2019: “O samba do Brasil teve raros momentos de ruptura a determinarem os capítulos de sua história. O mais revolucionário deve-se ao gênio que já foi cantar em outra freguesia, João Gilberto”.

Trechos do livro

“João despiu-se dos artifícios dos cantores e por isso não foi entendido por quem sentia falta daquilo a que estava acostumado, os arroubos dos cantores de vozeirão. Ele não soltava a voz, não alongava notas desnecessariamente – criou um modo de interpretar que deixou boquiabertos músicos e cantores norte-americanos. Quando perguntaram a Tony Bennet qual era seu cantor favorito, ele respondeu na lata: João Gilberto.”

“Mas alguma coisa provocava um distanciamento entre eles. João não se conformava de Tom (Jobim) ter aceitado o convite de Frank Sinatra para participar de seu programa de TV tocando violão. O violonista era ele, ora!...”

“A vida enclausurada de João Gilberto foi constantemente incompreendida e criticada. Não se atestou porém que artistas excepcionais vivem à sua própria maneira, sempre na busca. Noel Rosa viveu 26 anos intensamente afogado na boemia, o que o levou à breca dos pulmões. Lorenz Hasrt viveu embebido no álcool tentando resolver seu homossexualismo socialmente pecaminoso à época. E Picasso com suas mulheres? E Miles Davis? A arte é sublime, queixas são infundadas. Queixam-se que João Gilberto quase não se comunicava, exceto nas intermináveis ligações telefônicas de horas seguidas. Felizes os escolhidos nessas chamadas...” 

 

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