Herman Leonard/Eagle Rock Films
Herman Leonard/Eagle Rock Films

O lugar especial onde Ella Fitzgerald ganha vida

Intérprete estava para cantar como Yo-Yo Ma está para o violoncelo: perfeição absoluta, personificada

Giovanni Russonello, The New York Times

05 de outubro de 2020 | 09h00

Ella Fitzgerald dificilmente cantava o blues, e sua voz raramente transbordava emoção ou fúria. Ao escutá-la cantando com perfeição uma balada, você pode não se sentir convidado a pular em seu próprio mundo e sentir sua dor, como faria com Billie Holiday ou Little Jimmy Scott.

Você poderia dizer que Ella estava para cantar como Yo-Yo Ma está para o violoncelo: perfeição absoluta, personificada. Ella pensa na nota, ela acerta a nota. Ela aprende a canção, ela se torna a canção. Ainda assim, há uma troca sagrada acontecendo. Ao invés de trazer você para a canção, Ella traz a canção para você. E o efeito é inegável - você fica desarmado.

Faz sentido, então, que as gravações ao vivo de Ella sempre tenham tido um poder especial que suas gravações de estúdio poderiam apenas sugerir. Como disse seu biógrafo Stuart Nicholson, as melhores “revelam a verdadeira Ella, proporcionando prazer aos outros ao proporcionar prazer a si mesma”.

Desses álbuns ao vivo, poucos deixaram uma impressão mais duradoura do que Mack the Knife: Ella in Berlin, de 1960, amplamente considerada uma de suas maiores capturas. E o prazer aumenta com o recém-lançado, pela Verve Label Group, Ella: The Lost Berlin Tapes, documentando um show que ela realizou lá dois anos após sua famosa primeira aparição.

Juntamente com Ella Fitzgerald: Just One of That Things, um documentário informativo lançado em plataformas digitais no início deste mês, é um convite válido para se envolver novamente com uma cantora cujas constantes improvisações - partes iguais de precisão e profusão - são muito facilmente subestimadas.

No álbum, Ella está na casa dos 40 anos e bem estabelecida como realeza da música popular. Ouça a amplitude e a profundidade de seu vibrato, a maneira como ela usa a respiração forte para dar um soco nas passagens rítmicas, como ela reinventa a melodia de Ray Charles Aleluia! I Love Her So como se sua voz fosse um saxofone com palavras.

A vocalista vencedora do Grammy Cécile McLorin Salvant, 31 anos, disse que quando era estudante, viu os famosos álbuns de estúdio de Ella dedicados ao Great American Songbook como um exemplo de cantar jazz de modo impecável. “Inicialmente, ela era um modelo de perfeição e uma espécie de modelo ao aprender um padrão”, disse Cécile em uma entrevista por telefone.

“Meu apreço por ela está mudando agora, pois vejo como ela é divertida, o quanto ela se arrisca, quanto humor ela traz para suas performances”, acrescentou Cécile, que criou as animações para um videoclipe que acompanha Taking a Chance on Love do novo álbum. “Para mim, uma apresentação ao vivo é a melhor maneira de ouvi-la.”

No original Ella in Berlin, de 1960, ouve-se Ella se jogando com confiança em Mack the Knife, uma música da era Weimar de The Threepenny Opera que recentemente tinha se tornado um sucesso nas vozes de Louis Armstrong e Bobby Darin. No meio do segundo refrão, ela se dá conta do quão pouco da música se lembra.

Mas é sua primeira apresentação em Berlim e o público de 12 mil pessoas na enorme arena de Deutschlandhalle está se deliciando e nas suas mãos. Ela segue em frente destemida, improvisando no ritmo, revertendo um erro em uma virada de bravura.

“Oh, Bobby Darin e Louis Armstrong / Eles fizeram uma gravação - oh, mas eles fizeram”, ela improvisa, agarrando-se à melodia alegre da música enquanto seu quarteto balança imperturbável. “E agora Ella, Ella e seus amigos / Estamos fazendo uma gravação - uma destruição - de Mack the Knife!”

Que tipo de “perfeição” era essa - um documento de uma performance confusa, com a música ruindo ao seu redor? Bem, algo funcionou: Norman Granz, empresário de Ella e fundador da gravadora Verve, gravou a apresentação e lançou-a como um álbum e, sentindo a magia daquele momento, ele fez de Mack a faixa-título. O LP se tornou uma sensação e ganhou dois troféus no Grammy daquele ano.

O baterista e produtor musical Gregg Field, que esteve na banda de Ella durante os últimos anos de sua carreira, disse em uma entrevista que para sua chefe nenhum material ou forma de música tinha prioridade sobre a energia que ela recebia da multidão.

“Ela cantava de forma diferente todas as noites”, disse Field a respeito das canções, explicando que quando ela se apresentava com uma banda de jazz, era provável que mudasse o set list dependendo da energia na sala. “Na terceira ou quarta música, ela conseguiu ler o público muito bem”, acrescentou.

Granz, um empresário poderoso que buscou trazer o jazz para o reino da alta sociedade americana, sabiamente capturou o máximo possível dos shows de Ella - ciente de que um raio caía frequentemente quando ela estava no palco. Ele tinha fundado a Verve em meados da década de 1950 principalmente como um meio para gravá-la e, na época do show em Berlim, era uma das principais instituições da indústria do jazz.

No início deste ano, Field e Ken Druker, um vice-presidente da Verve - que sobrevive hoje sob os auspícios do Universal Music Group -, estavam vasculhando um tesouro redescoberto de gravações ao vivo que Granz havia escondido décadas atrás. Eles encontraram um rolo de gravação aparentemente intacto, com uma fita adesiva amarelada ainda segurando a caixa fechada com a identificação do show que Ella realizara em Berlim dois anos depois daquela primeira famosa apresentação.

Após a verificação, eles descobriram que as gravações foram feitas em mono e estéreo - um raro golpe de sorte. Eles a ouviram e a qualidade era excelente. Usando um novo software de engenharia que lhe permitiu isolar com mais precisão os instrumentos e a voz de Ella, Field preencheu os graves e deixou o a voz de Ella mais audível.

A gravação de 1962 completa uma tríade de performances estelares em Berlim, realizadas ao longo de três anos e cada uma lançada com aproximadamente 30 anos de diferença. Em 1990, a Verve lançou um LP de arquivo de Ella tocando em Berlim em 1961 sob o nome Ella Returns to Berlin. Foi um ótimo álbum, mas a gravação mais recente tem uma série de vantagens.

Ella está reunida com o pianista Paul Smith, um de seus acompanhantes favoritos, que não tinha estado na turnê de 1961. E na versão obrigatória de Mack, há outro momento de perfeição imperfeita que é quase bom demais para ser verdade. Na coda da música, brincando com a multidão, ela esquece o nome da cidade em que está - sinceramente, ao que parece. Explodindo em aplausos de apoio, a multidão dificilmente tem tempo para se ofender.

Sua facilidade com o público contrastava com sua vida relativamente solitária nos bastidores. É parte da razão pela qual ela preferiu viver sua vida na estrada, desde o início de sua carreira no Harlem dos anos 1930 até quando se aposentou no início dos anos 1990, ela normalmente fazia centenas de shows por ano e raramente ficava em casa por mais de uma semana a cada vez.

Ella nasceu em Newport News, Virginia, em 1917, e mudou-se ainda criança para Yonkers, ao norte da cidade de Nova York. Depois de perder os pais antes de se tornar adolescente, ela se virou pelo Harlem, às vezes trabalhando para fugitivos avisando quando apareciam policiais e como vigia em um bordel. Ela foi mandada para um reformatório, onde sofreu abusos dos quais mais tarde se recusaria a falar publicamente.

Aos 17 anos, basicamente sem-teto, ela participou de um concurso para artistas amadores no Teatro Apollo. Ela havia planejado tentar se apresentar como dançarina, mas ficou intimidada quando uma dupla de dançarinos muito mais talentosos se apresentou antes dela. Em vez disso, ela cantou duas canções, emulando o estilo da popular trupe de jazz Boswell Sisters. Seu talento sobrenatural e gregário neutralizaram os julgamentos da multidão, que tinha sido cética em relação à jovem malvestida que parecia não conseguir descobrir que forma de arte era a dela. Ela ganhou o concurso e logo era sensação do Harlem como vocalista da Orquestra Chick Webb.

Com esse grupo, ela cantou canções pesadas e números românticos para dançarinos e ouvintes de rádio, na era em que o jazz era música pop. Ao final de seus 79 anos, ela ajudou a consagrar o Great American Songbook como um pilar da cultura americana, tocando para plateias massivamente brancas e sentadas, mas levando todos aos seus pés no mundo inteiro. Durante todo o tempo, ela permaneceu sempre a serviço da música. E ainda assim a música era apenas o espaço entre a cantora e sua multidão. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

 

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