Mike Segar
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Michael Jackson: o homem e o astro

Os dez anos da morte do cantor acontecem no meio de uma mudança

Daniel Martins de Barros, especial para O Estado

25 de junho de 2019 | 06h00

Há alguns anos, um filme sobre o Holocausto foi duramente criticado por mostrar que os nazistas eram capazes de se emocionar diante de uma obra de arte. O culto e indulgente leitor do Caderno 2 há de saber qual era o filme e perdoar minha falha de memória. Escapa-me o título mas recordo-me bem o motivo da reclamação – as cenas retratando-os apreciando obras de arte humanizava-os. Seria ofensivo. Injusto. Inadmissível.

Talvez por ser uma característica exclusiva dos seres humanos, a arte em suas expressões mais sofisticadas carrega de fato essa propriedade – ressaltar o que há de humano em nós. Aspirações, medos, alegria, transcendência, diversão – ela contém em si tudo o que nos define. É inevitável que tanto a produção artística quanto sua fruição revelem-nos humanos. Pintar um quadro ou apreciá-lo, escrever uma peça ou compreendê-la, tudo isso realmente nos humaniza.

É fácil não humanizar os nazistas admiradores de arte – basta desqualificar sua apreciação. Nós nos convencemos que eles não tinham a mesma capacidade que as pessoas normais de apreender o que estava diante deles.

Muito mais complicado é desqualificar a produção artística daqueles que, por qualquer critério que adotemos, também careçam de humanidade. A lista de exemplos de grandes artistas com manchas ainda maiores em suas biografias é extensa. Da pedofilia de Lewis Carroll à misoginia de Ernest Hemingway, do nazismo de Leni Riefenstahl à brutalidade de Bernardo Bertolucci, os defeitos, crimes e vícios de caráter dos artistas nos confrontam com pergunta: é possível separar artista e arte?

A resposta depende do tamanho de duas coisas: da indignação com o crime e da admiração pela obra. Quando a sociedade não condena tão fortemente o que foi feito, ou quando a obra é grandemente apreciada, parece ser mais fácil separar a arte do artista. Mas basta que a reprovação às atitudes em questão aumente ou que a boa opinião sobre a obra deixe de ser tão unânime para a situação se inverter. Será mais provável que o pecado do artista contamine sua arte.

Os dez anos da morte de Michael Jackson acontecem no meio de uma mudança. Seu envolvimento com menores era conhecido de longa data. Já havia centenas de processos contra ele perto do final de sua vida – e pouca gente teria coragem de apostar em sua total inocência. Isso não mudou. Ocorre que, se até então a qualidade de sua obra vinha tendo força suficiente para manter sua música separada de seus crimes, isso já não acontece. Esses dez anos não reduziram em nada a originalidade e criatividade de suas composições nem a força de sua performance. Mas foi um período em que aumentou – e muito – a intolerância da sociedade com os abusos. Sexual ou de poder. De menores, de mulheres ou de quem mais seja vulnerável. Hoje, é mais inadmissível do que uma década atrás que um homem rico e famoso use dessa assimetria para se aproveitar de garotos. 

Assim, fica mais difícil para as pessoas julgarem a música de Michael Jackson apenas pelo que ela é. Por mais genial que seja.

 

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